TRADIÇÃO DA SEMANA SANTA, no centro histórico, terreiro de Jesus –
Hoje é sexta-feira santa e não posso deixar de escrever sobre Ele, o arauto desse dia, que anunciou com sua morte que o mundo nunca mais seria o mesmo depois Dele.
Quis também o destino, e não sei com que intuito, mas ciente de que nem mesmo os deuses lutam contra ele, que este escritor encasquetasse, há muito tempo, que era preciso escrever um Evangelho que desse a palavra à mulher, para que elas contassem a história de Jesus, sob seu ponto de vista que é, invariavelmente, diferente do ponto de vista dos homens.
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E, assim, sem saber bem por quê, mas feliz por estar na companhia de grandes escritores – como José Saramago, Herberto Sales, Norman Mailer e outros –, tornei-me evangelista, satisfeito por ser o único entre eles a dar a palavra às mulheres.
E então escrevi o livro Maria Madalena: o Evangelho Segundo Maria, deixando que Maria, a mãe, e Maria de Magdala contassem a história de Jesus.
E, como o destino é ardiloso, fez com que o livro fosse parar nas mãos de Carmen Paternostro, dançarina, coreógrafa e diretora de teatro premiada.
Encantada com o que leu, assim disse-me ela, Carmen resolveu que transformaria o livro num espetáculo teatral.
Então encontrei Jesus no teatro, pois, ao fazer-me dramaturgo e escrever uma adaptação teatral do livro, encontrei-me diversas vezes com Ele no palco, ainda que não fosse real e se passasse apenas na minha imaginação.
Mas tudo mudou quando Carmen, de posse do texto, montou o espetáculo teatral e, num insight maravilhoso, o fez itinerante, de modo que a plateia seguia cada cena e parava em cada Estação onde se desenrolava a história.
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E, assim, com cenários e figurinos belíssimos elaborados pelo diretor de arte e coreógrafo Moacyr Gramacho e atores e atrizes fantásticos, o público, e o autor entre eles, seguia cada cena da inesquecível história de Jesus, sabendo que essa história que magnetiza o mundo há mais de 2 mil anos é uma história de libertação.
Carmen teve então outro lampejo artístico e escolheu como palco de seu espetáculo o Forte do Barbalho, construído no século XVII, e cheio de histórias, mas tendo como a marca mais trágica de sua existência a de ter sido o principal centro de tortura da ditadura em Salvador.
E o público pôde ver uma cena antológica, na qual Jesus é interrogado por Pilatos em uma das celas, onde a ditadura torturava os jovens que clamavam por liberdade. A cena final, no entanto, é a mais bela do espetáculo, e faz a plateia olhar para o céu e vê-lo.
Saí do teatro emocionado com o trabalho que Carmen Paternostro havia realizado e com os aplausos que se repetiam uma, duas, três vezes. Foi quando três freiras que estavam na plateia, sabendo-me o autor do texto, vieram até mim e uma delas me disse, sensibilizada: “o seu Jesus não é o meu, mas Ele é belo”.
Ela tinha razão, era o meu Jesus, e ainda hoje creio que cada homem e cada mulher tem o seu.
*Escritor, jornalista e economista, membro da Academia de Letras da Bahia – ALB
Fonte: A Tarde



