sexta-feira, abril 3, 2026
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celebração da Semana Santa se adapta aos novos tempos

Jejum digital e solidariedade: como viver a espiritualidade da Quaresma no mundo moderno –

Ano após ano, certas tradições se repetem ou se renovam, em constante adaptação às transformações da sociedade. Em um mundo ultraconectado e dinâmico, o que explica a permanência de práticas como as da Semana Santa, que atravessam séculos e seguem mobilizando diferentes gerações?

Primeiro, é preciso voltar aos acontecimentos que dão origem ao costume. Segundo o padre Lucas Almeida, coordenador arquidiocesano de Liturgia, a Semana Santa é sobre “experimentar hoje as graças, os frutos e os bens espirituais daquilo que Jesus experimentou enquanto passou neste mundo e recordar a redenção”.

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Mesmo antes dela, o calendário católico já aponta para esse momento. Durante os 40 dias da Quaresma, os fiéis se dedicam a uma preparação espiritual de três pilares: oração, penitências (que inclui diferentes formas de jejum) e caridade.

Para a madre abadessa Vera Lúcia Parreiras, 81 anos, o jejum vai além da alimentação e se adapta à realidade de cada tempo. “Há o jejum das palavras ofensivas, do celular, de todos esses vícios de hoje. Mais da metade da humanidade faz um jejum forçado, passa fome, então o nosso jejum também é em solidariedade para com aqueles que são privados até do necessário”, pontua.

Adelson Couto, 71 anos, membro da comunidade católica Shalom, possui uma perspectiva semelhante e tem aderido ao jejum digital: “O jejum que eu considero maior é o da língua, do olhar e do pensar, especialmente de julgamento e condenação do outro”.

Essas tradições estão relacionadas à vivência da ressurreição junto a Cristo, por meio da renovação do ser humano, explica padre Lucas. “À medida que se realiza a penitência, oração e caridade, cada fiel vai se transformando”, afirma.

O período começa com o Domingo de Ramos. A entrada de Jesus em Jerusalém, recebido com ramos e aclamado como Messias. Na segunda-feira, ele faz a última visita aos amigos; na terça, há o anúncio da traição de Judas e da negação de Pedro; e na quarta, a decisão de Judas se concretiza.

Na quinta-feira se inicia o Tríduo Pascal, com a Última Ceia, que institui a Eucaristia e inclui o gesto do lava-pés. A Sexta-feira da Paixão recorda a memória da crucificação, em um rito marcado pela sobriedade e pelo recolhimento.

O sábado pela manhã é de silêncio. Após o pôr do sol se inicia a Vigília Pascal, considerada o ponto central da Semana Santa, e que se estende pelo Domingo de Páscoa, quando se anuncia a ressurreição de Jesus.

Sobre a permanência dessas tradições ao longo do tempo, padre Lucas destaca a inculturação, capacidade da Igreja de utilizar o que cada cultura e cada tempo oferecem para manifestar o evangelho. “É utilizar o que nós já temos de cultural, como a arte, o teatro, as peças e o que for possível para evangelizar, ou seja, ensinar e manifestar o evangelho de Jesus no cotidiano e na forma mais simples”.

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Aproximação

Encenações da Paixão de Cristo atraem jovens e renovam tradições | Foto: Ag. A TARDE

Além das celebrações litúrgicas, manifestações como procissões, a Via Sacra e encenações reforçam a vivência da fé e aproximam diferentes públicos da mensagem da Semana Santa.

Eliana Pitangueira, 69 anos, frequenta a Capela de Nossa Senhora da Escada e sempre participa das rezas da Via Sacra, sequência de 14 estações que reconstrói o caminho de Jesus até a crucificação, com leituras, meditações e preces. “Cada estação nos leva a refletir sobre o sofrimento de Jesus e nos convida a abrir o coração”.

No Colégio Salesiano Dom Bosco, a peça Paixão de Cristo chega à sua décima edição, reunindo alunos, ex-alunos e professores. É a segunda vez que a estudante do 9º ano, Ana Vitória Farias, 14, integra o elenco da peça. Para ela, o teatro provocou uma aproximação com a história de Maria Madalena, a quem interpreta.

“Estudei bastante para poder fazer a personagem e é muito bom conhecer a história dela, que é muito bonita, e saber como ela foi canonizada. Acho que, através da peça, a gente consegue transmitir os princípios e os valores de Cristo para todas as gerações”, conta.

Supervisor do departamento de artes e cultura do colégio e diretor artístico da peça, Jeferson Albuquerque vê o teatro como um caminho pedagógico e espiritual. “A peça, através da arte, acaba reforçando esses valores cristãos. A gente usa a arte como um viés educativo e também pastoral”, reforça.

Com tradição e identidade cultural lado a lado, é comum ver práticas populares associadas ao período da Semana Santa. “Isso vem da cultura, que se misturou com a compreensão mais simples que as pessoas tinham da fé cristã”, esclarece o padre Jailson Jesus Santos.

Segundo ele, o costume do banquete farto na Sexta-feira Santa remonta ao período colonial, quando a classe dominante fazia o jejum e liberava os escravizados para comerem à vontade. Sem poder consumir carne, eles preparavam seus alimentos à base de peixe e dendê, dando origem a receitas que até hoje marcam a data.

Banquete

Costumes como o consumo de determinados alimentos, ovos de chocolate e as reuniões familiares fazem parte da vivência social, mas não integram o conjunto de práticas litúrgicas da Igreja Católica. “A igreja compreende que a reunião da família, comemorar e confraternizar, é algo bonito, porém o dia está deslocado. Não deveria ser na sexta-feira, mas no domingo”, complementa o padre.

Mesmo com diferenças entre práticas religiosas e costumes populares, essas tradições continuam presentes e ajudam a manter viva a memória da Semana Santa. Ao se adaptarem ao tempo e às novas gerações, garantem a continuidade de costumes que atravessam séculos. “A mensagem da Páscoa, sem dúvida, é de alegria, é de esperança em um mundo que tem visto, presenciado e pregado a guerra em muitos lugares”, conclui padre Lucas.

*Sob a supervisão da editora Meire Oliveira



Fonte: A Tarde

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