A Casa Branca dos Estados Unidos publicou um relatório, nesta quarta-feira, 1º, criticando o sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix. Em visita a Salvador, na manhã desta quinta, 2, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mandou um recado ao governo americano, dizendo que “ninguém” mudará a ferramenta.
“Disseram que o Pix distorce o comércio internacional, porque cria problema para a moeda deles. O que é importante a gente dizer para quem quiser nos ouvir: o PIX é do Brasil, e ninguém vai fazer a gente mudar o serviço que ele está prestando à sociedade brasileira. O que nós queremos saber é de aprimorar o Pix, para que cada vez mais, ele possa atender à necessidade de mulheres e homens desse país”, disparou em discurso ao qual o A TARDE presenciou in loco.
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O que você vai ler nesta reportagem
- A Casa Branca criticou o Pix, alegando que distorce o comércio internacional e prejudica Visa e Mastercard.
- O presidente Lula defendeu o Pix, afirmando que é uma ferramenta brasileira que não será alterada por pressões externas.
- O relatório menciona preocupações de empresas dos EUA sobre o favorecimento do Banco Central ao Pix em detrimento de serviços de pagamento americanos.
- O relatório da Casa Branca também critica a tributação sobre importações e aponta incertezas no comércio devido à flexibilidade nas taxas do Mercosul.
O que diz o documento?
O documento do Governo dos Estados sob o comando de Donald Trump acusa o Pix de criar uma desvantagem para gigantes do cartão de crédito, citando Visa e Mastercard.
“Representantes do setor nos Estados Unidos têm manifestado preocupação de que o Banco Central favoreça o Pix, o que colocaria em desvantagem fornecedores norte-americanos de serviços de pagamento eletrônico. Além disso, o Banco Central exige que instituições financeiras com mais de 500 mil contas adotem o uso do Pix”, diz trecho do documento.
Donald Trump já havia criticado o Pix em outros momentos e a Casa Branca chegou a anunciar a abertura de uma investigação contra o Brasil, apontando “práticas desleais”.
Responsável pela apuração, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), diz que o Pix visa favorecer os serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo.

Qual o real impacto do Pix aos cartões de crédito?
Para entender os riscos reais, o portal A TARDE conversou com o especialista Antonio Carvalho, que é consultor e professor de Economia e Finanças. Ele explicou como o Pix influencia os cartões de crédito.
“O Pix não pode ser considerado como gerador de desvantagens para os cartões de crédito, porém, é uma desvantagem para as operadoras, pois substitui o débito em conta, que era uma das portas de entrada pra oferta dos cartões, os quais, em seguida, tinham a função crédito ativada”, explicou.
Segundo o economista, outra manobra comum antes do Pix era o cartão de lojas de departamento, que era aceito inicialmente apenas na rede emissora mas, em seguida, cooptado pelas gigantes operadoras das bandeiras e aceitos amplamente “se tornando uma oferta de crédito fácil e uma armadilha para o consumidor”.
“O Pix, além de eliminar o DOC, a TED e reduzir o débito em conta, também reduziu a sensação de necessidade do uso do crédito, estes são os impactos sentidos pelas operadoras e o que as preocupam”, disse.
O Pix poderá ser afetado com as críticas?
A fala de Lula sobre “ninguém” ter o poder de mudar o Pix casa com a avaliação do especialista. Segundo Antonio, ao contrário do que foi apontado pelo documento feito pela Casa Branca, a ferramenta não pode ser considerada uma “competição desleal”.
“Embora parte dos apontamentos do documento possuam certa razão, aqueles relativos às taxações impostas pelo Brasil aos importados e à pirataria, o Pix não pode ser considerado como competição desleal, pois trata-se de uma medida de uso interno e apenas a digitalização, modernização e redução dos custos dos meios de pagamentos”, explicou.
Antonio avalia que é natural que empresas, ao perderem competitividade, aleguem possíveis deslealdade ou irregularidades nos concorrentes, porém, não visualiza a possibilidade de uma interferência externa interferir na ferramenta.
“Não apenas por não haver ilegalidade na sua criação e adoção, mas, principalmente, pelos efeitos positivos que ela gerou sobre a economia com sua facilidade, rapidez, baixo custo e aceitação plena de toda população, com destaque para os pequenos negócios”, finalizou o consultor.

Sistema Pix
Sanções ao Brasil
O ataque ao Pix faz parte de um capitulo de oito páginas dedicadas ao Brasil no documento da Casa Branca. Outros pontos citados são:
- Demora na concessão de patentes
- Falhas na proteção à propriedade intelectual
- Tarifas sobre o etanol importado
- Restrições sanitárias à carne suína americana
- Exigência de cotas para produções audiovisuais nacionais
- Regulação de plataformas digitais
A investigação conduzida pelo próprio USTR, órgão de comércio exterior da Casa Branca, que está em fase final pode resultar na aplicação de tarifas específicas contra produtos brasileiros.
Críticas à taxa das blusinhas
Além do Pix, a Casa Branca também criticou a tributação sobre importações de pequeno valor, popularmente conhecida como “taxa das blusinhas”.
De acordo com o documento da Casa Branca, o governo norte-americano avalia que essas políticas podem dificultar a entrada de produtos estrangeiros no Brasil.
Neste caso, a Casa Branca cita medidas consideradas “protetivas”, criticando taxas impostas a produtos brasileiros importados de outros países, inclusive dos EUA.
“O governo brasileiro cobra uma alíquota fixa de 60% sobre todas as remessas expressas importadas pelo regime de Desembaraço Aduaneiro Simplificado”, disse trecho.
A administração cita o regime de Desembaraço Aduaneiro Simplificado, que limita as remessas comerciais a US$ 100 mil por importador por ano, os limites máximos de valor por remessa para entregas expressas de US$ 10 mil para exportações e US$ 3 mil para importações.
A medida, sacionada pelo Governo Lula em 2024, estabeleceu alíquota de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 e cobrança ICMS.
Para valores superiores, a tributação chega a 60%, com desconto fixo de US$ 20. Anteriormente, as remessas internacionais de até US$ 50 eram isentas do imposto de importação.
Mercosul
Sobre o Mercosul, o relatório afirma que exportadores americanos enfrentam incertezas, pois o Brasil modifica as taxas alfandegárias dentro das flexibilidades.
“A falta de previsibilidade em relação às taxas alfandegárias dificulta a previsão dos custos de fazer negócios no Brasil por parte dos exportadores americanos”, diz um trecho do relatório.
Não é a primeira vez
Essa não é a primeira vez que o Governo Trump faz ataques ao Pix. Em julho de 2025, a gestão Trump afirmou que O Brasil “parece se envolver em uma série de práticas desleais em relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, mas não se limitando a favorecer seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”,
Na ocasião, os EUA buscaram apurar práticas do Brasil em áreas como comércio eletrônico e tecnologia, taxas de importação e desmatamento.
As críticas ao Pix em 2025 geraram desgaste na relação entre Brasil e EUA e o presidente Lula, em artigo no jornal ‘The New York Times’, defendeu a inovação financeira.

Aplicativo bancário para pagamento financeiro em pix
Pix bate recorde em 2025
O Banco Central (BC) registrou R$ 35,36 trilhões em transferências via PIX em 2025, um número recorde. Foi registrado um crescimento de 3,6% na comparação com 2024 — quando as movimentações totalizaram R$ 26,46 trilhões.
Além do valor, a quantidade de transações também cresceu. Em 2025 foram 79,8 bilhões de operações, contra 63,5 bilhões de transferências no ano anterior.
O que é o sistema de pagamentos Pix?
O **Pix** é um sistema de pagamentos instantâneos brasileiro que permite transferências e pagamentos em tempo real, criado pelo **Banco Central do Brasil**.
Quais foram as críticas da Casa Branca ao Pix?
A Casa Branca criticou o **Pix** por favorecer serviços de pagamento governamentais, o que prejudica empresas de cartões de crédito como **Visa** e **Mastercard**, levantando preocupações sobre práticas desleais.
Quais sanções os EUA estão considerando contra o Brasil?
Os **EUA** estão analisando a imposição de sanções, que podem incluir tarifas sobre produtos brasileiros, devido a preocupações com a tributação e práticas comerciais do Brasil.
O que é a ‘taxa das blusinhas’?
A ‘taxa das blusinhas’ refere-se à tributação fixa de **60%** sobre importações de baixo valor, que é criticada pelos EUA por dificultar a entrada de produtos estrangeiros no Brasil.
Como as relações entre Brasil e EUA foram afetadas pelas críticas ao Pix?
As críticas da administração **Trump** ao **Pix** causaram desgaste nas relações bilaterais, refletindo uma preocupação com práticas comerciais e a regulação do comércio eletrônico entre os países.
Fonte: A Tarde



