quinta-feira, abril 2, 2026
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Arquivo Zumví transforma memória negra da Bahia em exposição inédita

São cerca de 400 imagens, distribuídas em dois andares do IML, que registram temas políticos, sociais e culturais –

Diretamente da Bahia para São Paulo. O Instituto Moreira Salles – IMS Paulista está exibindo até 23 de agosto deste ano Zumví Arquivo Afro Fotográfico, uma mostra que abarca registros dos movimentos sociais, do cotidiano e das manifestações culturais da população negra na Bahia.

A ideia é traçar um panorama do Zumví, um arquivo fundado em Salvador pelos fotógrafos Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, no ano de 1990, com o intuito de preservar e valorizar a memória da cultura afrobrasileira na Bahia, unindo fotografia e militância política através de registros fotográficos, justamente em um período em que a população negra raramente se fotografava.

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São cerca de 400 imagens, distribuídas em dois andares do IML, que registram temas políticos, sociais e culturais, como a atuação do movimento negro unificado, os blocos afro e afoxés, as festas populares e o universo do hip-hop e do reggae em Salvador. Tudo com entrada gratuita.

“É a maior exposição que o IMS está fazendo. Tanto é que estão ocupando dois andares para mostrar essa grandiosidade que é o acervo do Zumví. É a única oportunidade que a gente está tendo de mostrar o trabalho de todos esses fotógrafos afrodescendentes no Instituto Moreira Salles”, informa Lázaro.

Com curadoria de Hélio Menezes, assistência curatorial de Ariana Nuala, consultoria de Elson Rabelo e pesquisa de Vilma Neres, a mostra está organizada em 16 temáticas fotográficas, mas tem também documentos, cartas e um filme sobre o Zumví, dirigido por Íris de Oliveira.

Participam sete fotógrafos, já que além das imagens de Lázaro Roberto, a mostra exibe também registros de Aldemar Marques, Raimundo Monteiro, Meire Cazumbá, Gerimias Mendes, Rogério Santos e Jônatas Conceição.

A exposição traz ainda imagens de movimentos sociais como o protesto do centenário da abolição da escravidão, em 1988, a visita de Nelson e Winnie Mandela à Bahia, em 1991, e o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares, em 1995, além de muitos outros momentos marcantes.

Articulação e militância

Zumví significa a junção da expressão ‘zoom’ fotográfico, grafado, agora, em português, com o ‘vi’ – pretérito do verbo ver –, dando a ideia de que os acontecimentos históricos coletivos foram devidamente testemunhados e registrados.

Com sede no Pelourinho, o arquivo, atualmente, é composto por cerca de 50 mil fotogramas e documentos. Sua história é profundamente conectada aos movimentos sociais e às lutas travadas no contexto da redemocratização brasileira.

“Depois de muito tempo, eu vim saber que no Brasil eu sou o primeiro cara que cria um arquivo de pessoas negras, e que esse arquivo está na Bahia. Minha fotografia me deu consciência racial”, conta Lázaro.

Em seus mais de 35 anos de existência, o arquivo se ampliou por meio de doações, colaborações e parcerias, e dentre os três fundadores, Lázaro foi o único que persistiu e seguiu à frente do Zumví, que hoje conta com a colaboração do historiador José Carlos Ferreira.

“Dentro do Zumví, posso dizer que está a memória do movimento negro da Bahia, que é uma memória muito cara para a gente, porque a gente tem resgatado, nos últimos 50 anos, nossa história, nossa memória, algo que nunca antes foi contado para o povo negro”, atesta Lázaro.

“Então, a gente vem preservando essa memória que é muito requisitada por professores, universidades e pesquisadores. Eu acho que o Zumví está cumprindo o seu papel a partir do momento em que a gente luta, até os dias atuais, para preservar essa memória”, alinhava.

Identidade analógica

E mesmo depois de 40 anos de fotografia, Lázaro Roberto, 68, avisa que continua documentando, através da lente, novos movimentos e que ainda tem muitos projetos para serem executados.

“Por exemplo, a gente luta para fazer uma exposição do período em que Nelson Mandela esteve em Salvador. É o trabalho de três fotógrafos dentro do acervo. Para mim, é uma grande frustração porque até hoje a gente não conseguiu fazer essa exposição dentro de Salvador, cidade mais negra depois de África”, desabafa o fotógrafo.

Lázaro conta também que sua identidade ainda é a da fotografia analógica, e que sua formação é autodidata e vem das experiências cotidianas.

“Eu entrei na fotografia digital em 2016 e quero retornar para a analógica. Tenho aprendido com a vivência da própria rua. O que conheci no mundo da arte acho que escola nenhuma poderia me dar, escola pública nenhuma me ensinou”, finaliza.



Fonte: A Tarde

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