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livro reúne mais de 200 composições do bloco afro

Antologia musical do Ilê Aiyê será lançada dia 7 –

Primeiro bloco afro do Brasil, fundado em 1974 no Curuzu, o Ilê Aiyê construiu ao longo de mais de cinco décadas uma narrativa própria sobre identidade, pertencimento e resistência negra. Agora, essa tradição oral ganha materialidade no livro Cantos de Ancestralidade – Antologia Musical do Ilê Aiyê, que transforma em registro escrito um repertório que há anos educa, emociona e afirma.

Organizada pela jornalista Valéria Lima, neta de Mãe Hilda Jitolu, com pesquisa de Catarina Lima, a publicação reúne mais de 200 composições do bloco e será lançada no dia 7 de abril, na Senzala do Barro Preto, durante o encerramento do projeto Música e Educação.

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A atividade será gratuita e aberta ao público e a programação inclui apresentação de Val Benvindo, participação de Antônio Carlos Vovô, apresentação da Band’Erê, presença de compositores do bloco e convidados como Arany Santana e Lindinalva Barbosa.

Pela manhã, o evento conta ainda com atividades formativas e culturais envolvendo estudantes, familiares e integrantes da Escola Mãe Hilda de Jitolu, reforçando o caráter pedagógico da iniciativa.

Herança território memória

A trajetória do Ilê Aiyê está enraizada no Terreiro Ilê Axé Jitolu, fundado por Mãe Hilda Dias dos Santos, liderança fundamental na organização comunitária e na valorização da cultura negra em Salvador. Foi nesse espaço que o bloco se estruturou, tendo o terreiro como centro de criação.

A mesma visão de educação e cuidado com a comunidade deu origem à Escola Mãe Hilda de Jitolu, criada em 1988 para garantir ensino a crianças do bairro em um contexto de exclusão escolar. A escola, que entende o terreiro também como espaço de aprendizagem, teve suas atividades interrompidas durante a pandemia de Covid-19 e foi reativada a partir das ações do projeto Música e Educação.

Esse legado é hoje ampliado pelo Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu, que atua na promoção de direitos, formação e preservação da memória, com foco na experiência de mulheres negras.

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Da oralidade ao livro

A publicação nasce desse compromisso com a memória e com a educação. “Criar um documento que reúna a musicalidade do Ilê, é preservar a memória de mulheres negras também, nós somos parte dessa história”, afirma Valéria.

A iniciativa também dialoga com sua trajetória pessoal. “Desde que eu entrei na Faculdade de Jornalismo, lá em 2004, disse: ‘eu vou contar a história da minha família’, eu tinha como ideal, de fato, preservar a história dessa família”.

O livro reúne composições que transformam o acervo musical do Ilê em instrumento pedagógico escrito. “A ideia é exatamente essa, reunir em um único livro as composições que falam de África, que falam de Brasil e que falam de personalidades negras, que são parte da história da memória negra, do imaginário coletivo negro desse país e materializar isso para que seja utilizado como material didático nas escolas”, explica Valéria.

Música que educa

Para Antônio Carlos Vovô, presidente do bloco Ilê Aiyê, o livro sintetiza o papel histórico da música dentro do bloco. “Reunir mais de cinco décadas de canções em uma obra como essa é registrar a própria história do Ilê Aiyê a partir da música, que sempre foi nossa principal forma de comunicar, educar e afirmar a identidade do povo negro”, comenta.

Ele reforça a dimensão política dessa produção: “Aqui, não utilizamos muitos discursos formais; são as músicas, especialmente as músicas-tema, que cumprem esse papel. Há um cuidado muito grande com o que se diz nas letras, que falam exclusivamente do povo negro de forma afirmativa, ressignificando tudo aquilo que historicamente foi dito de maneira depreciativa”.

O livro integra o projeto Música e Educação, que articula cultura e ensino para fortalecer a educação antirracista. O projeto é desenvolvido pelo Bloco Ilê Aiyê, pelo Instituto da Mulher Negra Mãe Hilda Jitolu, Olodum e pela Casa da Ponte – Orquestra Afrosinfônica, em parceria com a Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB) e com apoio do Ministério da Educação, por meio da SECADI.

A iniciativa promoveu formação certificada para professores da rede pública e privada, reunindo educadores de Salvador e do interior da Bahia em torno da implementação da Lei 10.639/2003.

Pesquisa e permanência

Durante a organização da obra, a riqueza das composições se revelou em novas camadas. “No processo de pesquisa e de leitura das letras de música do Ilê, por mais que a gente já conheça muita história do bloco, mas deixa latente o quanto de sabedoria e de riqueza de informações que as letras de música trazem para a gente”, afirma Catarina Lima.

Ela destaca a vitalidade criativa do Ilê ao longo do tempo. “O quanto que ainda se faz, se constrói letras tão bonitas, com tanta riqueza de informações, só as poesias, como que os compositores conseguem criar e recriar em cima de algo que já existe há tanto tempo, porque o Ilê existe há mais de 50 anos e continuam tendo músicas poesia”, reforça a pesquisadora.

Para Arany Santana, a publicação reafirma o papel do Ilê como agente formador. “Que possamos seguir inventando novas formas de educar, resistir e existir. Nesse percurso, o material reunido no livro se apresenta como uma potente ferramenta na defesa da luta antirracista e na promoção da inclusão do ensino da história africana e da diáspora africana nos currículos escolares contemporâneos”.

Encerramento do Projeto Música e Educação e Lançamento do Livro Cantos de Ancestralidade – Antologia Musical do Ilê Aiyê / Dia 7 de abril (sábado), a partir das 14h / Senzala do Barro Preto – Curuzu

*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.



Fonte: A Tarde

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