quarta-feira, abril 1, 2026
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Carros por app exibem diferenças de conservação

A qualidade e o estado de conservação dos carros por aplicativo em Salvador refletem um desequilíbrio entre exigências das plataformas e a capacidade financeira dos motoristas de manter a frota em bom padrão. A responsabilidade pela manutenção é integralmente dos condutores, enquanto o controle das empresas se apoia, sobretudo, em avaliações dos usuários. Na prática, isso tem resultado em experiências desiguais, com relatos que vão de veículos bem cuidados a situações de desgaste mecânico e falta de limpeza.

Motoristas ouvidos por A TARDE AUTOS apontam que os custos são elevados e constantes. O ex-condutor Rafael Veloso, hoje supervisor de vendas da Neoenergia/Coelba, afirma que “manutenção preventiva a cada 10 mil quilômetros gira em torno de R$ 500, além de combustível de qualidade e lavagem periódica”, destacando que “as manutenções, lavagens e limpezas ficam 100% por conta do motorista”.

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Apesar de considerar que a remuneração ainda permite manter o carro em operação, ele pondera que o retorno “poderia e deveria ser maior”, principalmente diante da desvalorização do veículo.

A dificuldade de fechar essa conta aparece de forma ainda mais direta no relato do advogado Victor Fernando Nogueira Alencar, que atuou por cerca de dez meses como motorista de aplicativo. Segundo ele, os custos básicos se concentram em “revisão e lavagem”, mas todo o processo de conservação recai sobre o condutor. “A manutenção é responsabilidade do motorista, as plataformas não exigem manutenção periódica”, afirma.

Ele é categórico ao avaliar a viabilidade financeira: “A remuneração atual não permite manter o veículo em bom estado”. O impacto direto disso aparece na prática: “Já deixei de fazer manutenção por falta de retorno financeiro”. Para ele, há diferença clara entre categorias, tanto em exigência quanto em retorno, e a solução passa por revisão na divisão dos ganhos. “Uma melhor porcentagem dedicada ao motorista ajudaria a melhorar a qualidade e conservação dos carros”, defende Alencar.

Cenário pressionado

Para o presidente da Associação de Motoristas e Motociclistas por Aplicativo da Bahia (Amaba), Douglas Carvalho, o cenário é estruturalmente pressionado. Ele afirma que “75% hoje é custo, 25% são ganhos reais” e que “as plataformas não fazem essa exigência”, deixando toda a responsabilidade da manutenção com o motorista. Segundo Carvalho, as taxas cobradas podem chegar a “40% ou até 50% por corrida”, o que compromete a capacidade de manter a frota em boas condições.

“Quando a gente parte para manter a qualidade do veículo, acaba se tornando inviável”, diz. A entidade defende regulamentação mais clara, definição de tarifa mínima e incentivos para renovação da frota. Segundo Carvalho, o limite de idade dos veículos aceitos na capital baiana é de 10 anos.

Percepção de quem usa

Do lado dos usuários, a percepção é de irregularidade. A autônoma Perla Cruz relata que já deixou de usar o serviço por causa das condições do carro e aponta problemas recorrentes. “Limpeza e organização são os principais”, afirma, citando também casos de falhas mecânicas percebidas durante a corrida. Ela diz que costuma registrar reclamações, mas “nunca houve retorno da plataforma”.

Outros passageiros confirmam a variação na qualidade do serviço. O produtor Renato Ato afirma que evita esse tipo de problema ao optar por categorias superiores, como Comfort e Black, onde a exigência tende a ser maior.

Já o analista de banco de dados Bruno Bomfim destaca que a conservação é a falha mais recorrente nos carros de categorias básicas. “Eu reparo nas condições do carro, e o problema que mais aparece é a conservação do veículo”, afirma, acrescentando que, mesmo assim, não costuma deixar de usar o serviço por esse motivo.

Já a designer de interiores Claudia Luz chama atenção para uma limitação no próprio sistema de avaliação das plataformas, que acaba misturando a qualidade do atendimento com o estado do veículo. “O atendimento é bom, o motorista é prestativo, mas o carro está sujo, e a avaliação acaba ficando negativa no geral”, afirma.

Segundo ela, falta uma opção mais específica para registrar problemas como limpeza e conservação, sem penalizar diretamente o condutor, já que, em muitos casos, o serviço prestado é considerado satisfatório, mesmo diante de falhas no veículo.



Fonte: A Tarde

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