terça-feira, março 31, 2026
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A dívida dos negreiros

Equipamento montado com apoio do MPT foi inaugurado nesta sexta-feira, 27 –

Impossível restituir a vida ou reduzir o sofrimento de quem foi sequestrado com fins de escravidão, pois o tempo, senhor da razão, não tem retorno. Mas os descendentes dos milhões de africanos acorrentados em navios têm direito à reparação, incluindo indenização pelas riquezas das quais foram privados.

A recomendação das Nações Unidas, em iniciativa de finalidade moral, é pelo pedido formal de desculpas, como reconhecimento das violações. Demorou, mas antes tarde: a confissão dos países negreiros reflete no absurdo contraste contemporâneo da fartura dos europeus ante a fome africana.

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Os corpos de pessoas usurpadas serviram de moeda para financiar o mercantilismo e as primeiras indústrias, repercutindo no atual desequilíbrio. O efeito da agressão aos direitos humanos pode ser estimado em proporção ao tempo – 400 anos – e volume de tráfico – 13 milhões de pessoas.

Sem exagero, basta ilustrar: se o Oceano Atlântico secasse e fosse possível caminhar na rota, as pisadas produziriam o som do crepitar das ossadas das vítimas. Não é figura de metáfora nem se trata de imaginar, a constatação encontra guarida na realidade de milhões de cadáveres despejados ao mar durante a travessia.

A admissão do genocídio não deixa de ser um avanço no campo simbólico das narrativas, abrindo caminho para a criação de um fundo internacional. Como não é de surpreender, o novo Eixo do Mal representou a resistência reacionária, tendo Estados Unidos, Israel e Argentina votado contra.

As superpotências escravocratas dos séculos 16 a 19, Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Holanda, revelaram ambiguidade, sem fazer mea culpa. A estratégia discursiva pode representar uma futura proteção na hipótese de avançar o debate ético sobre como se faz para praticar justiça reparadora.

Nesta perspectiva, o ajuste de contas implica combinar um ressarcimento pela pilhagem produzida com a dor e o sofrimento de nações e etnias agredidas. Entre as mutiladas, estão os yoruba, banto, fon e jeje, ancestrais do povo baiano.



Fonte: A Tarde

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