Praticamente 2 de cada 3 pessoas na Bahia estão um pouco ou muito familiarizadas com a Inteligência Artificial (IA). Seja em pesquisas escolares, relatórios, planilhas, petições, movimentações financeiras, serviços públicos e até na saúde, ela chegou para ficar.
E para avaliar como a IA está impactando a vida dos baianos, a mais nova pesquisa AtlasIntel/A TARDE aplicou 1.718 questionários online entre os dias 20 e 25 deste mês. Os resultados desse levantamento você confere a seguir. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o índice de confiança é de 95%.
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Cenário tecnológico na Bahia
A penetração da Inteligência Artificial em solo baiano revela um público que, em sua maioria, já teve algum contato com a tecnologia, mas ainda guarda reservas quanto ao domínio pleno das ferramentas. De acordo com o levantamento, o nível de intimidade dos baianos com a IA divide-se da seguinte forma:
- Um pouco familiarizados: 41,5%
- Muito inteirados: 23,7%
- Pouco afeitos à tecnologia: 31,2%
- Desconhecem o tema: 3,6%
Desigualdade de gênero e o protagonismo jovem
Os dados expõem também uma disparidade acentuada entre homens e mulheres no estado. Entre aqueles que se consideram totalmente integrados aos recursos de IA, o público masculino lidera com folga: 32,1% dos homens afirmam ter total afinidade, o dobro do registrado entre as mulheres.
No recorte por faixa etária, a Bahia segue a tendência global de adoção precoce pelas novas gerações. O entusiasmo tecnológico é liderado pelos jovens:
- 16 a 24 anos: Mais de 46% de integração;
- 25 a 34 anos: Mais de 46% de integração.
Ela está em tudo
Elvis Tanajura é o chefe tecnológico da Ciberian Tecnologia. Para ele, “mesmo que sem saber, o usuário já usa questões de IA, exemplos práticos são: ligações telefônicas, Chatbots via WhatsApp, Streams, filtros de spam de email, sugestão de compras em marketplace, anúncios exibidos em páginas acessadas ou até uma animação sugerida no seu celular com fotos do dia. A própria foto tirada com o celular ele já faz correções com IA muitas vezes sem o usuário solicitar”.
Quanto maior a idade, menor a familiaridade, diz a pesquisa. De 35 a 44 anos, 30% se dizem à vontade com a IA.
O percentual cai para 12% entre as pessoas de 45 a 59 anos e acima dos 60 anos apenas 2% se dizem muito familiarizados com a Inteligência artificial. Escolaridade e renda são outros recortes bastante ilustrativos.
Recorte socioeconômico do uso de IA no estado
A adoção de ferramentas de Inteligência Artificial na Bahia não é uniforme, revelando uma forte correlação entre o nível de instrução e a penetração da tecnologia no cotidiano. Segundo os dados da pesquisa, a familiaridade com a IA cresce proporcionalmente ao tempo de estudo:
- Ensino Fundamental: 13,5% de interação;
- Ensino Médio: 28,9% de incidência;
- Ensino Superior: 33,1% de utilização.
O fator renda na exclusão digital:
O abismo tecnológico torna-se ainda mais evidente quando analisado o poder aquisitivo dos entrevistados. Nas faixas de renda mais baixas, a IA ainda é uma realidade distante. Entre aqueles que ganham até R$ 2 mil, apenas 16,8% integram a ferramenta à rotina, índice que cai para 12,5% na faixa entre R$ 2 e 3 mil.
O cenário muda drasticamente conforme a renda sobe:
- R$ 3 a 5 mil: 24,8% de uso;
- R$ 5 a 10 mil: 33,1% de uso;
- Acima de R$ 10 mil: 66,8% de familiaridade.
Neste último grupo, o índice de adoção é mais que o dobro em relação à classe média intermediária, consolidando a IA como uma ferramenta de alta penetração entre as “elites financeiras”.
A diferença de adoção da Inteligência Artificial também apresenta nuances geográficas significativas entre os polos regionais da Bahia. Enquanto algumas cidades lideram no engajamento profundo, outras se destacam pelo alcance massivo da tecnologia entre a população.
Cidades com maior índice de “Hiper-conectados”:
O grupo de pessoas que se declara “muito antenada” com a IA mantém uma média consistente em diferentes regiões:
- Juazeiro, Paulo Afonso e Irecê: 27,7%
- Santo Antônio de Jesus, Ilhéus e Itabuna: 27,3%
O fenômeno da familiaridade em massa:
O destaque absoluto fica para o bloco formado por Santo Antônio de Jesus, Ilhéus e Itabuna. Embora o número de usuários avançados seja similar ao de outros polos, a base de usuários casuais é a maior registrada:
- 62,9% declaram-se “um pouco familiarizados”;
- 90,2% da população total destas cidades já teve algum contato com a ferramenta.
Os números contrastam com Salvador, onde apenas 13,4% se dizem muito familiarizadas com Inteligência Artificial e 33,9% apenas um pouco familiarizadas.
Prática supera barreiras
Pouco ou muito familiarizado, mais de 70% das pessoas usa com alguma frequência algum software de Inteligência Artificial. No intervalo de duas semanas, 19,2% disseram que usaram o recurso pelo menos uma vez, enquanto 18,2% recorreram à ferramenta mais de 10 vezes.
Apenas 28,4% alegaram não ter usado nenhum programa do tipo. Mais uma vez, os jovens se destacam nesse quesito, com 62,3% dos pesquisados entre 16 e 24 anos usando mais de 10 vezes em menos de 15 dias.
Leo Villanova, publicitário com mais de 30 anos de experiência em comunicação e marketing digital, é também estrategista de comunicação e IA Aplicada a Negócios. Para ele, “geralmente os jovens têm mais facilidade de experimentação e menos resistência”.
Já quem tem maior renda e instrução costuma ter mais acesso e exposição. Para romper isso, é preciso levar a IA para a prática e uso real no trabalho, principalmente para pequenos negócios e profissionais autônomos, com exemplos simples e aplicáveis. A melhor forma de aprender IA é usando IA
“Quando se tem mais acesso à tecnologia, tudo fica mais fácil. Os jovens estão com celular na mão o tempo todo sendo bombardeados por informações e isso desperta a curiosidade para o uso das novas tecnologias e tendências”, acrescenta Elvis.
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Pesquisa é só básico
E com que objetivo as pessoas mais procuram a IA? Para 58,6% a melhor utilização é pesquisar informações ou tirar dúvidas. Elaboração de textos aparece com 20,4%, empatado com a criação de imagens (20,3%) e um pouco acima do estudo (18,4%).
Destaque para os pesquisados com ensino superior, onde 2 de cada 3 (67,5%) utilizam a IA como recurso de pesquisa.
Mais de metade das pessoas que responderam à pesquisa possui pouco (28,4%) ou moderado (26,3%) entendimento sobre o funcionamento da IA. O levantamento aponta ainda que 39,1% das pessoas preferem ser atendidos por humanos nas suas relações de consumo e serviços, mas outros 33,1%, apesar da preferência, aceitam o uso da Inteligência artificial. Atendimento exclusivo por IA é a opção escolhida por apenas 0,4%.
Tem um conjunto de pessoas que desconhecem por ignorância e por falta de curiosidade. Já outras pessoas são avessas à mudança, mas o ponto principal é experimentar para saber de fato vai ter um retorno significativo em suas atividades do dia a dia
Léo Villanova destaca que muita gente usa ainda a IA como um “Google melhorado”. “É um uso inicial e, até mesmo esperado, já fomos “alfabetizados digitalmente” no Google. Acredito que esse avanço vai acontecer na criação de conteúdo, automação de tarefas e apoio à decisão na gestão das empresas. Hoje existe um “gap” (distanciamento) grande entre o que a IA pode fazer e o que as pessoas realmente usam e isso acontece por desconhecimento”.
Ameaça ao emprego
Outra preocupação recorrente quando o assunto são programas inteligentes é o risco da substituição de trabalhadores e o medo do desemprego. Para 35% a IA substitui em parte as suas funções, 21,7% acreditam que não substitui, 17,7% pensam que a tecnologia ameaça outros trabalhadores e apenas 10,7% entendem que a IA substitui em grande parte ou totalmente o seu trabalho.
No quesito confiança, mais de 80% têm ressalvas com relação ao conteúdo fornecido pela inteligência artificial, sendo 54,8% que confiam um pouco e 16,9% que confiam muito pouco. Não confiam (11,7%) e confiam totalmente (11,6%) ficaram no mesmo patamar.
“Estive recentemente num evento de inovação em Austin (Texas, Estados Unidos) e em diversas palestras se discutiu o futuro do trabalho e do emprego. Nesse sentido, as tarefas repetitivas vão ser executadas de fato por IA, teremos equipes híbridas, formadas por pessoas e por agentes de IA, mas alguém vai ter que validar os dados gerados, vai ter que verificar a veracidade das fontes e analisar o encadeamento das ideias”, esclarece Elvis.
“Existe um grande espaço para capacitação e a tendência não é ‘substituição’, mas integração. A IA não deve eliminar profissões de forma tão direta, mas vai transformar muitas funções. E isso não quer dizer que vamos trabalhar menos, pelo contrário, acho que os profissionais serão mais exigidos, a cobrança aumenta”, acrescenta Léo
Você não vai perder o emprego pra uma IA, mas pode perder pra alguém que usa IA melhor do que você
Ferramenta de gestão
Entre os que apoiam o uso da IA na tomada de decisões em serviços públicos, a pesquisa AtlasIntel/A TARDE aponta um equilíbrio. Neste questionamento, 17% apoiam e 7,8% apoiam fortemente e 14% se opõem, sendo 11% que se opõem fortemente. Para 24,7% o uso da IA na gestão pública não faz diferença.
O Governo da Bahia já trabalha num plano para ampliar e padronizar o uso da Inteligência Artificial na gestão pública.
“A Secti integra o Comitê de Governança Digital do Estado e está à frente da elaboração do Plano de Inteligência Artificial da Bahia. O processo vem sendo construído de forma colaborativa, com a participação de pesquisadoras e pesquisadores baianos, além do apoio de diferentes secretarias e órgãos do governo, e contará também com audiência pública para ampliar a escuta da sociedade”, diz Marcius Gomes, secretário estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação.
O mesmo ocorre no Governo Federal. Vicente Aguiar, consultor do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e do IBGE, trabalha há um ano na implantação da IA no instituto responsável pela produção e armazenamento de todos os dados socioeconômicos do país, com foco em soberania de dados.
“O IBGE conhece mais o Brasil do que o Google”, afirma Vicente, que está envolvido no desenvolvimento de uma LLM (Large Languiage Model, ou modelo de linguagem em grande escala) nacional para compartilhamento com órgãos públicos.
Desta forma, os dados deixariam de ser compartilhados com empresas do chamado vale do silício, as conhecidas ‘big techs’. “Não alimenta banco de dados nem melhora a IA”, explica Vicente, lembrando que todo conteúdo gerado por IA utiliza informações armazenadas em seus bancos de dados.
Os temores da Era Digital
Apesar do avanço tecnológico, o uso massivo da Inteligência Artificial desperta preocupações estruturais na população baiana. O maior receio dos entrevistados está diretamente ligado à integridade da informação: 68% dos respondentes temem a disseminação de notícias falsas (fake news) potencializada por algoritmos.
Privacidade e viés algorítmico:
A desconfiança não se limita à desinformação. O levantamento também aponta que a preocupação com a segurança de dados e a justiça nas decisões automatizadas é compartilhada por metade da população:
- Violação de Privacidade: 51% temem o uso indevido de dados pessoais.
- Decisões Tendenciosas: 50% demonstram preocupação com o “viés algorítmico” em processos críticos, como contratações, concessão de crédito e aplicação da lei.
- Vigilância Governamental: 48% alertam para o risco do monitoramento estatal por meio da IA.
Fonte: A Tarde



