“Piranha” e “Corno”: quando o barraco entre amigos revela o lado obscuro dos relacionamentos –
O pau quebrou entre um casal durante reunião com meia dúzia de amigos. Não houve agressão física, porém as amabilidades trocadas eram de tal calibre que feriam a todos com seus estilhaços. Alda estava de carona com os gladiadores fora da cidade, tarde da noite, e a violência sem aviso prévio deixou as testemunhas paralisadas, conseguindo somente balbuciar tímidos apelos para que se acalmassem.
A mulher rosnava, acusando o marido de louco e paranoico, mas era contida nos insultos, decerto por respeito aos demais. Quando ele começou a berrar xingamentos de escandalizar todo o bairro e arredores, exigindo a abertura do portão, o anfitrião deixou que se fosse – urrando, bufando e trocando as quatro pernas.
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A carona sugeriu à motorista que se despedissem. Encontraram o homem cem metros adiante e ele entrou no carro, pianinho. Seguiram em silêncio até que Alda perguntou se o vento da janela aberta estava incomodando. Bastou para que o indivíduo retomasse os impropérios, só que agora a ofendida revidava furiosamente. Ficou sabendo que ela era ninfomaníaca; que ele é que não dava conta; que ela ia sair ainda aquela noite e dar gostoso pra todos que aparecessem; que é isso que você sempre faz mesmo, sua puta!; que ambos eram fracassados e dignos de lástima; e vá tomar aqui! vá tomar acolá!, cuspindo lugares pentelhudos de que Alda jamais suspeitara a existência.
Como é que duas pessoas que se amam podem se maltratar assim? – perguntou, quase morrida.
O bêbado relinchou que a intervenção tornara as coisas piores. A piranha declarou que agora o fim era definitivo. Havia transado com outro seis anos antes – fato sem importância, normal no círculo que frequentavam –, mas de que se arrependia, em especial se tivesse imaginado passar o resto da vida sob tortura. Porque o marido, além de não perdoar e esquecer, se recusava ao diálogo, saindo de cena toda vez que ela tentava um entendimento.
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Já perto de casa, o corno abriu a porta, avisou que ia se jogar, e a vaca sifu caso ele se machucasse. Ela freou e não viu como se atirou com suavidade mas primorosamente retorcido.
O que é que essa criatura vai fazer, meu Deus? Amanhecer na rua? – Alda se afligia. Estarrecida com o espetáculo, em sendo firme na convicção de que, se você escolheu uma pessoa para compartilhar sua vida entre os 8,12 bilhões de habitantes da Terra, ela merece a delicadeza aplicável a todos os amores-perfeitos e outras flores. Ainda que eventuais mazelas possam machucar pétalas e desvelos, lidar com isso não comporta abusos. Como é possível nutrir rancor tão brutal pelo/a conje, capaz de explodir com ímpeto de molotov após algumas cervejas?
Manhã seguinte, preocupada com o bem-estar emocional da messalina e o paradeiro do chifrudo, ligou no zap.
– Rafa está aqui! – respondeu a voz melodiosa.
Ah. E tomou conhecimento de que recebeu café-da-manhã com hífens e delícias na cama. O próximo certamente será servido quando o equino voltar a se manifestar após uma bebedeira. Durante os tempos de concórdia, permanece efervescendo com mansidão.
De minha parte, penso que o Universo recolheu os desequilibrados todos e os despejou sobre este planeta. Não que eu seja exceção, porém é certo que pendo mais pro lado da carona desavisada, não entendendo como uma relação pode admitir tanta porrada e continuar satisfatória. A julgar pelo relato de Alda, o casal em questão considera os coices indispensáveis à harmonia de seu convívio – o que só confirma que existe mesmo gosto ou inclinação pra tudo.
No entanto, alguns lombos acabam dando um basta: Jill viveu por mais de 40 anos com um sujeito de quem recebia patadas cotidianas. Sempre se submetendo, embora fosse a provedora da família e sustentasse o filho dele de um casamento anterior. Eu me perguntava se nunca reagiria, além de vez por outra atirar um prato de comida no quadrúpede e só sujar a parede. Aos 73, arrumou um namorado, se picou pro outro extremo do país e diz estar feliz da vida. O eleito tem suas complicações, mas trata ela bem e não revela à mesa, diante de convidados, que a tipa leva séculos pra gozar. Um deles era eu, e até hoje procuro onde enfiar minha cara.
Pode ser que agora demore menos, mas dispenso a informação; sou meio escabreada com essas coisas.
*ró-Ã é autora do livro Dor de facão & brevidades
Fonte: A Tarde



