Aniversariante deste domingo, 29 de março, quando completa 477 anos, a cidade de Salvador carregou por muitos anos o título de capital do Brasil. A alcunha durou da sua fundação, em 1549, até o ano de 1763, quando o Rio de Janeiro se tornou a base administrativa do país, que ainda era uma colônia portuguesa.
O portal A TARDE, que produz uma série de materiais especiais em comemoração aos 477 da capital baiana, explica os motivos que levaram a mudança do status de Salvador para o Rio.
Tudo sobre Aniversário de Salvador em primeira mão!
Primórdios
Salvador foi fundada sob o nome ‘São Salvador da Bahia de Todos os Santos’, com a chegada de Tomé de Sousa, primeiro governador-geral do Brasil, ao Porto da Barra. Até os dias atuais, Salvador permanece com o recorde de cidade com maior tempo como capital do país, carregando o título por 214 anos.
Por que Salvador como capital?
A fundação e escolha do território para carregar a ‘coroa’ de capital da América Portuguesa no período colonial não foi por mero acaso, mas sim por estratégia. O processo envolveu uma série de fatores que foram considerados para o ‘martelo ser batido’.
Historiador formado pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), Rafael Dantas explicou ao portal A TARDE sobre a escolha. Segundo ele, a região já concentrava todo o poder político, econômico e religioso da colônia portuguesa.
Em determinados momentos entre os séculos XVI e XVIII, Salvador chegou a ocupar o posto de grande cidade do Hemisfério Sul, do ponto de vista mercantil, sendo base econômica da colônia portuguesa.
Pesou também a favor da escolha a questão geográfica, que facilitava a ligação com a Europa, com a África e com o oceano Atlântico.
Leia Também:
“Aqui concentrava o poder político, religioso, econômico, tinha a Baía de Todos os Santos, contato direto com a Europa, com a África, com o Atlântico, a segunda maior baía navegável do mundo […] A relevância de Salvador nesse processo foi tão grande, que a grande cidade do Hemisfério Sul no século XVIII com porto foi Salvador. Inclusive, o porto de Salvador liderou, em alguns momentos, as relações mercantis também do Hemisfério Sul”, pontuou o historiador.
Por que a mudança?
Salvador permaneceu como capital até agosto de 1763, quando perdeu o status para a cidade do Rio de Janeiro. A mudança, no entanto, foi fruto de uma transformação que ocorreu de maneira gradual na dinâmica econômica da colônia.
Descoberta do ouro
O cenário econômico passou por algumas transformações a partir do final do século XVII, impulsionado com o início da descoberta do ouro nas minas, onde está localizada a região Sudeste do país, o que se consolidou nos primeiros 50 anos do século seguinte (XVIII).
Essa descoberta alterou o fluxo econômico, trazendo também impacto geográfico. Por isso, a coroa portuguesa consolidou seus domínio em um novo território, trazendo, já no ano de 1763, a capital para o Rio de Janeiro, que havia sido fundado em 1565.
Leia Também:
“A partir do final do século XVII, no decorrer do século XVIII, outras regiões no vasto território luso aqui nas américas começam a despontar como importantes do ponto de vista econômico e, principalmente com a descoberta do ouro nas minas, e a descoberta do ouro vai criar uma mudança de fluxo, do ponto de vista econômico e geográfico. Vai se exigir uma nova atenção, uma mudança do ponto de vista dos interesses para outras regiões para além Nordeste”, explicou Rafael Dantas, que destacou ainda o fato do Brasil, naquele momento específico, ainda ter áreas ‘carentes’ da administração portuguesa.
“O Brasil naquele momento era um lugar que ainda tinha muitas áreas sem, de fato, uma gestão eficiente em seu território. Então, se o Nordeste estava no litoral ocupada pelos portugueses, as regiões interioranas, ali no ‘centrão’ do Brasil, ainda necessitavam de uma atenção específica política e de ocupação […] O deslocamento de uma capital para uma nova cidade, mas agora como uma capital, obedece também um planejamento de consolidar o domínio português em uma outra área além Nordeste, contexto do que era a América Portuguesa”, ressaltou.
Como Salvador reagiu?
Apesar da perda do status de capital após 214 anos, Salvador não perdeu relevância no cenário, permanecendo até o século XIX como um dos principais polos econômicos do país, junto com o Rio. A mudança, no entanto, não agradou a elite soteropolitana.
As elites baianas não gostaram dessa ideia, mas a mudança foi feita a partir de 1763. Salvador não perde destaque, as grandes cidades do Brasil nos séculos XVIII e XIX são Salvador e Rio de Janeiro […] A mudança já é uma sinalização das mudanças econômicas do Brasil como um todo
Capital de novo?
O deputado federal Leo Prates (Republicanos) apresentou, recentemente, um Projeto de Lei que transfere a capital do país, hoje Brasília, para Salvador. A mudança, entretanto, só acontecerá no período de comemoração da Independência da Bahia, no 2 de julho.
Aprovado pela Câmara dos Deputados, o texto agora precisa ser votado pelo Senado e passar por sanção presidencial.
Ao portal A TARDE, Leo Prates justificou a apresentação do projeto, afirmando que iniciativa reforça o papel importante da capital baiana no processo de independência do Brasil.
“O 2 de Julho já é uma data nacional, já instituído uma data nacional de suma importância para o Brasil, porque foi a consolidação da nossa independência, da nossa liberdade. E para nós, baianos, nós sabemos a importância que tem a data para o Brasil. E eu acho que nada mais justo. Está agora no Senado, e nós esperamos a aprovação rápida pelo Senado para que o presidente da República possa sancionar esse importante projeto”, explicou.
Enquanto o projeto de lei de Leo Prates busca reafirmar a importância política de Salvador no calendário nacional, a essência da primeira capital já era imortalizada séculos antes pela literatura. Testemunha ocular do apogeu e das contradições da sede do governo-geral, o poeta Gregório de Matos registrou em seus versos a alma da ‘Cidade da Bahia’. Para o ‘Boca do Inferno’, mais do que um centro administrativo de elite, a capital era um organismo vivo de intrigas, vaidades e contrastes sociais:
Gregório de Matos – Descrevo que era Realmente Naquele Tempo a Cidade da Bahia
A cada canto um grande conselheiro,
Que nos quer governar cabana e vinha;
Não sabem governar sua cozinha,
E podem governar o mundo inteiro.
Em cada porta um bem freqüente olheiro,
Que a vida do vizinho e da vizinha
Pesquisa, escuta, espreita e esquadrinha,
Para o levar à praça e ao terreiro.
Muitos mulatos desavergonhados,
Trazidos sob os pés os homens nobres,
Posta nas palmas toda a picardia,
Estupendas usuras nos mercados,
Todos os que não furtam muito pobres
E eis aqui a cidade da Bahia
Fonte: A Tarde



