sexta-feira, março 27, 2026
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“Brasa” é coisa do demônio

Caríssima leitora, não sei se a senhora percebeu, vez que nem os comentaristas da Globo sacaram, mas no jogo de futebol entre Brasil e França, no qual os franceses ganharam com mérito por 2 a 1 (e podia ter sido mais), a seleção francesa jogava sorrindo, se divertindo, enquanto os jogadores brasileiros pareciam sofrer do mito de Sísifo, carregando pedra. Se trocassem de uniforme, a senhora, com certeza, acharia que nossa seleção era a outra. E, por falar em uniforme, veja que os torcedores brasileiros responderam a uma enquete sobre a nova camisa da Seleção Brasileira. Veio à tona um debate antigo, mas cada vez mais atual: até que ponto a tradição pode ser sacrificada em nome da inovação — e, sobretudo, do mercado?A empresa fornecedora não se cansa e tem apostado em mudanças estéticas mais ousadas nos uniformes da Seleção Brasileira de Futebol. Mas toda ousadia tem limites, ainda mais quando se trata do manto sagrado verde e amarelo. Noventa e três por cento da torcida reagiu negativamente, apontando descaracterização, excesso de elementos gráficos e perda da identidade visual que tornou a camisa amarela um dos maiores símbolos do futebol mundial.Eles entendem que a camisa atual, lançada dias atrás, se distancia do que representa a essência do futebol brasileiro: simplicidade, elegância e história. Críticas destacam que os novos modelos parecem mais alinhados a tendências globais de design esportivo do que à tradição construída ao longo de décadas. Um sentimento de nostalgia ganhou força. Vieram à memória os modelos históricos, especialmente o da Copa do Mundo de 1962. A camisa daquele período é frequentemente exaltada como um exemplo máximo de equilíbrio estético: o amarelo vibrante, a gola verde discreta e a ausência de excessos criavam um visual limpo, que se tornou atemporal. Foi com esse uniforme que o Brasil conquistou seu bicampeonato mundial, consolidando uma identidade visual que se tornaria referência global.Camisas de Copas anteriores também seguem sendo reverenciadas. Modelos das décadas de 1950 carregavam um design minimalista, em que cada detalhe tinha função e significado. Não havia necessidade de reinventar o símbolo — ele já era poderoso por si só. A combinação entre tradição e desempenho dentro de campo transformou esses uniformes em verdadeiros ícones culturais.O contraste com os dias atuais levanta uma questão inevitável: a quem interessam essas mudanças? A resposta passa, inevitavelmente, pelo mercado. O futebol moderno é uma indústria bilionária, e os uniformes se tornaram peças-chave nesse ecossistema. A cada novo ciclo — seja de Copa do Mundo ou temporada — lançar um design diferente é uma estratégia para impulsionar vendas. A lógica é simples: novidade gera consumo. Quanto mais distante do modelo anterior, maior o estímulo para que torcedores adquiram a versão mais recente. Mesmo que seja horrível, como o novo uniforme amarelo. O padrão azul até que ficou bonito.Além disso, há o interesse de atingir novos públicos, especialmente consumidores mais jovens e mercados internacionais. Designs mais arrojados e alinhados com tendências globais buscam dialogar com uma audiência que vai além do torcedor tradicional brasileiro. No entanto, essa estratégia comercial nem sempre encontra respaldo na paixão da torcida. Não sou fanático por futebol, embora adore o estressante Bahia e o instigante Flamengo, mas acho que a camisa da Seleção não é apenas um produto — é um símbolo cheio de memória e identidade. Alterá-la de forma drástica pode ser visto como uma ruptura com essa herança.O desafio, portanto, está em encontrar o equilíbrio entre inovação e tradição. A história mostra que a força da camisa brasileira sempre esteve na sua simplicidade e no que ela representa dentro de campo. Ignorar isso pode até gerar lucro no curto prazo, mas também alimenta um desgaste emocional com a torcida — algo que dinheiro nenhum consegue reparar completamente. Se bem que, com o baixo nível em campo dos jogadores, é melhor dar uma camisa diferente para que o velho uniforme não passe vergonha. Né não, minha senhora?Pior é que ninguém vai convencer a direção da CBF a mudar. E, claro, o lançamento do novo padrão foi feito às vésperas da Copa do Mundo, que começa em junho. Criaram um fato consumado, e a torcida que aguente o “Vai, Brasa”. Acredite: “Brasa” significa Brasil. Sem falar na arrogância. E já nem batemos essa bola toda para encetar tal gesto.* Escritor e jornalista. Membro da Academia de Cultura da Bahia.

Fonte: A Tarde

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