Longa é protagonizado por Fernanda Montenegro e Ary Fontoura –
Imagine um ‘Red – Aposentados e Perigosos’ no Brasil. Mas no lugar de Helen Mirren, Fernanda Montenegro. E no de Bruce Willis, Ary Fontoura. Também com a premissa de idosos ladrões, já está em cartaz a comédia de ação ‘Velhos Bandidos’, um projeto que nasce não apenas como uma promessa de grande bilheteria já que o brasileiro ama o gênero, mas também como uma homenagem viva à história da dramaturgia brasileira. Sob o comando de Claudio Torres, o longa reúne um “elenco de monstros sagrados”, como o próprio diretor define.
A trama nos apresenta a Marta (Montenegro) e Rodolfo (Fontoura), um casal de idosos que decide planejar um assalto a banco. Para executar o plano, eles recrutam os jovens Nancy (Bruna Marquezine) e Sid (Vladimir Brichta) – eu entendi a referência, já diria um conhecido super-herói da Marvel – , uma dupla movida por paixão e ambição. No encalço desse quarteto improvável, está o investigador Oswaldo (Lázaro Ramos).
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O filme teve um ponto de partida curioso. Inicialmente, Claudio Torres desenvolveu um roteiro intitulado ‘A Anja’, sobre uma entidade celeste que se revoltava e passava a punir homens maus na Terra. Foi a própria Fernanda Montenegro quem deu o “xeque-mate” criativo no filho: “Filho, vamos fazer algo mais terreno?”.
A partir desse pedido, Claudio se uniu aos roteiristas Fabio Mendes e Renan Flumian para adaptar uma história sobre roubo de ouro em Lisboa, transformando-a na perseguição bancária que vemos hoje.
“Fazia tempo que minha mãe estava fazendo papéis de velhas humildes, curandeiras, mulheres sofridas. Conduzi a história para ela estar poderosa, linda e ativa, que é como eu a vejo e o que ela é”, revela Claudio.
Mestres em cena
Para o elenco, o convite foi irrecusável. Bruna Marquezine descreve a experiência como a realização de um sonho, destacando o profissionalismo de Fernanda Montenegro: “O Claudio me falou: ‘Mamãe disse que você é uma atriz vocacionada’, e eu brinquei que iria tatuar isso. Ela nunca trabalha de modo automático, ela batalha por cada cena”.
Ary Fontoura, fenômeno nas redes sociais e mestre no ofício, destaca a eterna insatisfação positiva de Fernanda: “Fernanda nunca está contente com os resultados. Por ela, a busca da perfeição faria com que o filme tivesse apenas uma cena no meio de tantas. Mesmo assim, inacabada. Essa busca é o que torna o trabalho estimulante”.
O elenco de apoio é, por si só, um evento, contando com Reginaldo Faria, Vera Fischer, Teca Pereira, Hamilton Vaz Pereira, Tony Tornado, Laila Garin e Nathalia Timberg. Estrela-mor da comédia, Fernanda Montenegro diz que se emocionou por estar ao lado dos colegas mais veteranos, aos quais chamou de “família por opção”. Para a atriz, Velhos Bandidos é “uma comédia brasileira sofisticadamente dirigida e um elenco em plena criatividade e comunhão”.
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Química (e dendê) da Bahia

E mais do que nunca, a Bahia empresta seu charme ao filme com as presenças de Lázaro Ramos e Vladimir Brichta. Em entrevista ao Cineinsite A TARDE, a dupla de amigos destrinchou os bastidores, a química da equipe e a profundidade que se esconde sob a camada de humor do filme.
Para Lázaro, Velhos Bandidos se destaca pela qualidade da execução. “Esse filme é uma das melhores comédias que eu vi nos últimos tempos, como público também, e acho que ele se dá muito bem porque, primeiro, eu acho que tem uma direção primorosa ali do Cláudio, que tem uma condução da comédia que você gargalha, que você ri, não é aquele filme de comédia que você diz assim: ‘ah, é uma comédia, mas não dei muita risada’. Esse você produz o som, e acho que isso é muito mérito da direção”.
O ator não poupou elogios aos protagonistas mais experientes, e foi graças a essa admiração, que ele confessou ter aceitado o papel no “escuro”. “Assinei sem ler o roteiro. Quando o Cláudio [Torres] ligou para mim, ele falou ‘ah, eu vou fazer um filme com minha mãe’. Aí eu respondi: ‘faço’, e ele ‘não, deixa eu explicar o personagem’. Eu disse: ‘não quero saber, eu vou fazer’. Imagina, todas as vezes que eu trabalhei com Dona Fernanda, sempre foram momentos muito ricos e felizes e eu queria mais uma vez estar com ela. Então, entrei por isso”, contou.
A experiência no set foi, nas palavras de Lázaro, uma educação contínua. “Quando entro, descubro outras grandes vantagens. Estar com o meu irmão Vladimir, a gente ria muito no set, é difícil fazer cena com a gente, porque a gente fica meio disperso, celebrando esse encontro, a gente adora trabalhar junto e isso se estende por todo o elenco. Sendo que, estar num filme que tem um elenco de nonagenários, e que são exemplos para a gente, de carreira, de vitalidade, de compromisso com a profissão, de maneira de fazer comédia, aí foi a parte que eu tomei aula todos os dias”, completou.

E por falar no mineiro com coração baiano, Vladimir Brichta brincou sobre as cenas de embate com Lázaro Ramos, mas fez questão de ressaltar que a diversão no set não é garantia de um bom resultado se não houver substância por trás. “A parte mais fácil foi justamente uma cena de briga. O meu personagem tinha que bater nele, foi muito fácil, eu sou mais forte que ‘Lazinho’”, brincou.
“Foi um encontro muito feliz, realmente foi muito prazeroso trabalhar, no entanto, as pessoas falam: ‘ah, é muito divertido o trabalho, vocês vão ver, a gente se divertiu muito’, mas a gente se divertir em cena não garante que seja um bom trabalho, as pessoas falam muito isso, eu não concordo. Às vezes a pessoa pode estar se divertindo e o resultado não ser bom. Nesse caso, eu acho que o resultado é muito bom, não só porque a gente estava se divertindo, porque isso não é suficiente, mas porque havia um roteiro delicioso, divertidíssimo, inteligente do Cláudio, e uma equipe de excelência por trás, capitaneada por Fernandona e Ary”, continuou.
Para além do riso
Impossível se reunir com Vladimir e Lázaro sem comentar sobre o terceiro mosqueteiro: Wagner Moura. O baiano, vencedor de grandes prêmios no Globo de Ouro e em Cannes, e nomeado ao Oscar, percorreu uma verdadeira odisseia em sua consagração com o ‘Agente Secreto’. Vladimir analisou a potência atual do cinema nacional e os desafios do gênero comédia no cenário internacional.
“O cinema nacional vive um grande momento […] Mas a comédia, normalmente, não é um gênero que viaja tanto. É só festejado. Mesmo as comédias internacionais, sejam americanas, inglesas ou francesas, elas não viajam tanto. E se viajam, elas chegam pra gente via cinema e streaming, mas não necessariamente em festivais. Então, acho que o voo de uma comédia é um voo mais limitado, mas não quer dizer que as pessoas não vão assistir fora do país”, opinou.
‘Velhos Bandidos’ cumpre o seu papel principal: divertir. É um prato cheio para quem busca piadas despretensiosas e um ritmo ágil. No entanto, o espectador mais exigente pode notar um certo tom “cartunesco” na estética. O uso frequente de closes dramáticos a la ‘Avenida Brasil’ e uma trilha sonora propositalmente exagerada dá ao filme uma identidade visual vibrante, mas que pode soar excessiva para alguns.

O roteiro, embora engenhoso em suas reviravoltas, ocasionalmente se apoia em conveniências para manter a adrenalina lá no alto. Nada que comprometa a experiência, mas são falhas pontuais que o público mais atento aos detalhes narrativos poderá perceber sob o verniz da comédia.
Porém, o filme não se limita apenas ao “tiro, porrada e bomba”. Existe uma camada profunda que discute o etarismo de forma honesta. Para Vladimir Brichta, o título já traz uma ironia necessária: “O filme aborda a questão da idade de um jeito muito honesto, porque ele não ignora o fato de que quanto mais idade as pessoas têm, mais, naturalmente, estão próximas da morte. Mas isso não é um limitador para viver, sonhar e realizar coisas com intensidade e paixão”.
Claudio Torres define sua abordagem como “Tropicalista”: uma apropriação da gramática do cinema de ação americano aplicada à irreverência e à garra brasileira. “É uma mistura antropofágica e, por causa disso, brasileira”, conclui o diretor.
Com participações especiais de nomes como Vera Fischer, Reginaldo Faria e Nathalia Timberg, ‘Velhos Bandidos’ chega aos cinemas como um lembrete de que a criatividade não tem data de validade. Como bem diz Fernanda Montenegro ao explicar o que a move após décadas de carreira: “Já que eu ainda acordo, canto!”.
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Confira o trailer de Velhos Bandidos
Fonte: A Tarde



