Cena de ‘O Que Você É Sai Por Todos Os Lados’, dirigido por Larissa Lacerda –
O XXI Panorama Internacional Coisa de Cinema começou nesta quarta-feira, 25, em Salvador e Cachoeira, com um dado que chama atenção: metade dos filmes exibidos nesta edição são dirigidos por mulheres. O festival segue até 1º de abril na capital e até o dia 29 no Recôncavo Baiano, reunindo mais de 130 produções entre curtas e longas-metragens, além de debates e atividades formativas.
Em um cenário de expansão do audiovisual brasileiro, mas ainda marcado por desigualdades de acesso e circulação, o Panorama se consolida como um espaço estratégico para a exibição de obras fora do circuito comercial.
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Ao mesmo tempo, a programação deste ano evidencia um movimento de fortalecimento do protagonismo feminino, tanto na direção quanto nas narrativas.
Entre os destaques da programação estão filmes como ‘A Cor da Patroa’, de Milena Anjos, ‘O Que Você É Sai Por Todos Os Lados’, de Larissa Lacerda, e ‘Rambutan’, de Erika Fromm. As produções colocam em cena experiências atravessadas por gênero, afetos, maternidade, identidade e memória, ampliando o repertório de histórias protagonizadas por mulheres.
Mais do que uma coincidência, a presença feminina na programação reflete transformações recentes no setor.
Segundo a curadora do festival, Marília Hughes, esse cenário está ligado tanto às políticas públicas quanto à atuação de mulheres dentro da própria cadeia do audiovisual. “Temos um cuidado constante de manter um olhar sensível para temas e filmes que abordam questões do feminino. E isso começa pela própria curadoria, que é formada por mulheres”, afirma.
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Mesmo com o aumento da presença feminina na direção, essa ocupação ainda não se traduz, necessariamente, em condições igualitárias de trabalho. As experiências compartilhadas pelas profissionais do setor apontam para um cenário de avanços, mas também de permanências, com desafios que atravessam diferentes dimensões do fazer audiovisual.
Entre avanços e desigualdades no audiovisual
O crescimento da presença feminina no audiovisual é perceptível, mas ainda convive com desafios estruturais que atravessam o setor.
Para a curadora do Panorama, Marília Hughes, esse movimento está diretamente ligado a transformações recentes no campo cultural e às políticas públicas voltadas à inclusão.“Isso reflete diretamente as políticas públicas e os debates que vêm sendo feitos nos últimos anos. Os festivais acabam espelhando esse movimento. Ainda assim, quando olhamos para o circuito comercial, essa equidade não se mantém.”
A fala evidencia um contraste: enquanto festivais conseguem ampliar a diversidade de vozes, o mercado tradicional ainda apresenta barreiras significativas. Esse cenário também é percebido por quem está na realização dos filmes.
Para Milena Anjos, a ocupação de espaços não garante, por si só, condições dignas de trabalho. “São muitos desafios, porque, infelizmente, o audiovisual ainda é uma área bastante masculina. Eu acredito que isso tem mudado muito nos últimos dez anos e o cenário vem se transformando, mas ainda não é o ideal.”
A diretora destaca que as desigualdades atingem também as condições de trabalho e remuneração. “As mulheres que ocupam esses espaços nos diferentes segmentos da cadeia do audiovisual hoje, ainda recebem menos. Então, não é só sobre ocupar um lugar, é sobre ocupar e ganhar dignamente; é sobre ocupar e ser respeitada da mesma forma”, afirma.
Milena também chama atenção para a necessidade de analisar o contexto em que essas produções são realizadas. “Às vezes, a gente vê alguns números e pensa: ‘poxa, agora mesmo, dentro do Panorama, 50% dos filmes exibidos são de diretoras mulheres’. Esse número é importantíssimo, mas também é fundamental investigar em quais condições essas mulheres estão produzindo. Muitas vezes, elas tiram do próprio bolso para realizar suas histórias”, pontua.
Apesar disso, ela reconhece avanços recentes no cenário institucional. “Temos alcançado muitos espaços que antes não eram acessíveis para nós. Hoje, temos uma Ministra da Cultura mulher, uma Secretária do Audiovisual vinculada ao Ministério da Cultura também mulher, além de diversas mulheres ocupando cargos dentro do país”, diz.
Para Erika Fromm, que iniciou a carreira nos anos 1990, a mudança é visível quando comparada ao início de sua trajetória. “Eu acho que a gente já conquistou muita coisa. Eu comecei nos anos 90 e, naquela época, eu achava que seria, no máximo, uma secretária de produção. Quase não existiam mulheres no cinema, eram pouquíssimas dirigindo filmes”, relembra.
Ela acrescenta que, naquele período, a direção era vista como um espaço predominantemente masculino. “Nos projetos em que eu trabalhava, eu ocupava, no máximo, funções de produção. E acabei internalizando essa ideia de que dirigir era coisa de homem. Parece absurdo dizer isso hoje, mas era assim: os homens assumiam os projetos de direção”, completa.
Diretora e produtora Erika Fromm
Mesmo com avanços, a diretora aponta que a ampliação de oportunidades segue como um desafio. “Os editais ainda são poucos. Às vezes, contemplam cinco projetos, e isso é muito pouco. Não dá conta da quantidade de gente produzindo”, avalia.
Narrativas íntimas e políticas na tela
Se por um lado a presença feminina cresce nos bastidores, por outro, ela também transforma as histórias que chegam às telas. Os filmes apresentados no Panorama evidenciam um cinema atravessado por experiências pessoais, afetos e questões políticas que partem de vivências concretas.
Para Larissa Lacerda, o ponto de partida de suas narrativas está diretamente ligado à sua própria existência. “A minha existência como mulher, e especialmente como lésbica, não é apenas um tema. É esse lugar de onde eu penso, sinto e crio. Hoje, as histórias que me interessam nascem dessa escuta do que foi silenciado, do que ficou nas bordas, do que não foi autorizado a existir plenamente”, afirma.
“Isso influencia tanto o que eu escolho contar, mas, sobretudo, como eu conto: há uma atenção à intimidade, à memória, aos afetos, e também uma recusa em separar o pessoal do político”, completa a cineasta.

Diretora e roteirista Larissa Lacerda
A diretora também destaca a dimensão coletiva dessas experiências e como elas atravessam suas escolhas narrativas. “Minhas narrativas partem muitas vezes da experiência em primeira pessoa, e parece que não sei fazer de outro jeito que não seja com todo o meu corpo implicado, reconhecendo a minha própria história como singular, porém, ecoando como parte de um campo coletivo, atravessado por traumas, lutas, outras histórias, outras mulheres, outras existências dissidentes”, explica.
No filme ‘O Que Você É Sai Por Todos Os Lados’, essa abordagem se traduz na investigação de memórias familiares e nos impactos do silenciamento sobre identidades dissidentes.
Para Larissa, o gesto de narrar também carrega uma dimensão política e afetiva. “Sim, eu sinto que o filme opera como uma tentativa de romper esses silêncios — mesmo sabendo que eles não se desfazem completamente, nem para mim. Haja terapia!”, comenta.
Ela complementa: “Quando essas histórias são contadas, algo se desloca. Existe um reconhecimento, uma possibilidade de identificação, uma abertura para que outras pessoas também possam olhar para suas próprias histórias. Contar é um gesto político, mas também afetivo.”
Já em ‘Rambutan’, Erika Fromm constrói uma narrativa que parte do cotidiano e das relações de cuidado para abordar temas mais amplos. “É um filme que fala da casa, desses aspectos considerados femininos mais clássicos — a maternidade, o cuidado. Eles cozinham, vivem essa rotina doméstica, enquanto aguardam o retorno da mãe, que desapareceu. É uma mãe solo que surtou — isso já está dado desde o início”, explica.
A diretora também reflete sobre como escolhas simbólicas carregam marcas de uma perspectiva feminina. “Para mim, mulher, o sangue também remete à menstruação, a esse marco da adolescência, dessa transformação do corpo. O menino não tem isso, então eu quis criar um elemento simbólico que marcasse essa passagem para ele”, diz.

Cena de Rambutan, dirigido por Erika Fromm
Milena Anjos reforça que a experiência de ser mulher atravessa todas as etapas do processo criativo. “Sendo uma mulher, sobretudo uma mulher preta, não existe outra forma de pensar e de ser. Tudo o que a gente cria, enquanto mulher, atravessa esse lugar. Então, isso influencia totalmente o meu processo criativo. Além das pautas que nós temos em comum, é um processo criativo diferente por conta da nossa existência no mundo”, afirma.
Ela também destaca como vivências pessoais impactam diretamente a criação artística. “Não tem como não falar sobre tudo o que nos atravessa dentro de uma produção. E, quando estamos em um processo criativo, nossas dores e delícias também nos atravessam”, completa.
Festivais como espaço de existência e circulação
Em um cenário de poucas janelas de exibição, festivais como o Panorama se consolidam como espaços fundamentais para a circulação de filmes, especialmente aqueles que dificilmente chegam ao circuito comercial.
Para Marília Hughes, a seleção em um evento desse porte já representa uma conquista significativa. “Um festival como o Panorama é muito importante porque, hoje, está cada vez mais difícil ser selecionado para festivais. As janelas de exibição são pequenas e não acompanham o volume de produções dos últimos anos, impulsionado, inclusive, pelas leis de incentivo”, afirma.
Ela destaca que o volume de inscrições evidencia esse descompasso. “Recebemos cerca de dois mil filmes e exibimos pouco mais de 130. Ou seja, muita gente fica de fora. Ser selecionado já é, por si só, uma grande conquista”, pontua.
Mais do que exibir, o festival garante algo essencial para quem realiza cinema. “O festival garante algo essencial: a possibilidade de existir diante do público. Fazemos filmes para serem vistos, para provocar debate, emocionar, gerar encontros. Quando isso não acontece, é muito frustrante, considerando todo o esforço que existe por trás de uma produção”, completa.
Para as diretoras, estar no Panorama também representa visibilidade e reconhecimento dentro do próprio campo audiovisual. Milena Anjos ressalta a importância do festival em sua trajetória.
“Recebi com muita felicidade e emoção. Como eu falei, é o meu primeiro filme como diretora. Eu já tinha feito co-direção em outras experiências de formação, já dirigi episódios de uma série que produzi, mas um filme inteiro, dirigido por mim sozinha, foi a minha primeira experiência”, conta.
Ela também destaca o peso simbólico do evento. “E o Panorama é um espaço importantíssimo. É o principal evento regional do audiovisual no estado da Bahia e um dos mais relevantes do Brasil. Eu sou viciada: vou a todas as edições, compro passaporte, assisto a tudo o que posso”, afirma.

Diretora, roteirista e produtora Milena Anjos
Para Erika Fromm, a exibição em Salvador tem um significado ainda mais especial, já que o filme foi rodado na Bahia. “Fiquei muito feliz. Eu sou paulistana, mas filmei na Bahia — sempre quis filmar lá. A ideia desse curta surgiu quando vi uma cena na praia onde a gente acabou gravando. Naquele momento, pensei: ‘nossa, é aqui’”, relembra.
A diretora reforça a conexão entre o filme e o território. “E, se me perguntassem em qualquer lugar do mundo onde eu gostaria de estrear esse filme, eu diria que seria lá. Porque eu queria estar perto da equipe, no lugar onde tudo foi criado, inspirado e produzido. Não faria sentido ser em outro lugar”, diz.
A diretora Larissa Lacerda também destaca o impacto da exibição no festival, especialmente pela relação com o território e com o público.
“Recebi com muita alegria, e também com um frio na barriga! Recebi com um senso de responsabilidade. É um festival muito importante, que mobiliza toda uma cadeia e amplia nossas possibilidades de alcance. É um festival de porte internacional que acontece aqui, no nosso território”, afirma.
Redes de apoio e desafios estruturais
Além da visibilidade, o fortalecimento de redes entre mulheres no audiovisual aparece como um elemento central para a permanência no setor. Ainda que essas articulações existam, elas nem sempre dão conta das múltiplas demandas enfrentadas pelas profissionais.
Para Milena Anjos, os coletivos têm papel importante, mas ainda insuficiente diante da complexidade do cenário. “Existe, sim, na Bahia, um coletivo de mulheres cineastas que é muito efetivo. Mas ser mulher envolve diferentes recortes. Existe mulher cis, mulher trans, mulher negra, mulher branca… Então, por mais importantes que sejam, um, dois ou três coletivos não dão conta de toda a dimensão do que é ser mulher no audiovisual”, afirma.
Ela ressalta que, além de produzir, as mulheres também precisam criar estratégias para se manter no mercado. “Além de dar conta de estar no mercado, produzindo com qualidade, precisamos criar estratégias para sobreviver nele. E isso já mostra o quanto é exigido de nós”, diz.
A diretora também aponta que essa responsabilidade não pode ser individualizada. “E isso não é um problema das mulheres, é um problema do sistema. A gente, em pequenos grupos, consegue se fortalecer — seja em coletivos ou até em grupos de WhatsApp, trocando dicas e experiências —, mas isso ainda é muito pouco diante do que precisamos”, avalia.
Ela defende que a transformação do setor passa por um compromisso coletivo. “Esse é um problema que vivemos, mas não deve ser resolvido apenas por nós. Precisamos chamar os homens para essa luta também. Eles ainda ocupam a maioria dos espaços no setor e precisam atuar de forma ativa nesse processo”, afirma.

Cena de ‘A Cor da Patroa’, dirigido por Milena Anjos
Para Erika Fromm, essas redes também se constroem, muitas vezes, a partir dos próprios festivais e destaca que os encontros presenciais fortalecem essas conexões. “O que acontece muito são esses encontros dentro dos próprios festivais. Eu participo de vários festivais de cinema feitos por mulheres, então acabamos criando nossos próprios grupos e nos apoiando bastante”, conta.
Apesar dos desafios, a diretora demonstra otimismo em relação ao futuro. “E eu acho que esse movimento tende a crescer cada vez mais. Sinceramente, acredito que vamos ocupar ainda mais esses espaços”, projeta.
A cineasta Larissa Lacerda também aponta que, além das redes de apoio, ainda há um desafio constante de legitimação dentro do setor. “Acho que o principal desafio ainda é o de legitimação. A gente precisa o tempo inteiro provar que sabe o que está fazendo, que pode ocupar determinados espaços, que pode liderar processos”, afirma.
“No meu caso, sendo uma artista que transita por várias funções — direção, fotografia, montagem — isso se intensifica, mas é o que tem tornado possível minhas realizações até aqui, a velha sobrecarga sobre nossos corpos”, completa.
Ela também chama atenção para a dificuldade de sustentação de determinadas narrativas. “Existe também um desafio mais sutil, que é o de sustentar certas narrativas: histórias íntimas, afetivas, lésbicas, muitas vezes não são vistas como relevantes, é muita mulher em cena. Existe um trabalho constante de afirmar que essas histórias importam, que elas são linguagem, que elas produzem pensamento e mundo”, completa.
Fonte: A Tarde



