quinta-feira, março 26, 2026
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condenação surpreende defesa e abre nova batalha nos tribunais

Dr. Otto Lopes, advogado de Ederlan Mariano, apontado como mentor do crime –

A condenação dos três réus apontados como responsáveis pela morte da cantora gospel Sara Freitas marcou o desfecho de mais uma etapa de um dos casos mais impactantes da Região Metropolitana de Salvador. Apesar da decisão do júri popular, a defesa de Ederlan Santos Mariano, apontado como mentor do crime e condenado à maior pena, afirma ter recebido o resultado com surpresa e já articula uma nova ofensiva jurídica.

Em entrevista exclusiva ao portal A TARDE, o advogado de Ederlan Mariano, apontado como mentor do crime, Dr. Otto Lopes, questionou a decisão do conselho de sentença, a ausência de provas e destacou que o processo ainda está longe de um desfecho definitivo.

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“Na verdade, a defesa recebeu este resultado com surpresa, vez que contraria todas as provas dos autos, vai em sentido adverso do que foi apresentado ao conselho de sentença e, diferente do que estão dizendo, o julgamento ainda não acabou.”

“Ainda há as instâncias superiores. A defesa já interpôs recurso imediatamente após o julgamento no dia de ontem e confia que, nos tribunais superiores, com magistrados e desembargadores togados que têm o conhecimento da lei e da norma, diante de uma condenação que não é corroborada com nenhum elemento de prova nos autos, a decisão venha a ser reformada e surja a absolvição em todos ou em alguns dos crimes imputados a Aderlan, porque ele é inocente.”

Próximos passos: recursos podem levar caso ao STF

A estratégia da defesa agora se concentra nas instâncias superiores. Segundo o advogado, o recurso já foi apresentado e pode se estender até os tribunais mais altos do país, com possibilidade, inclusive, de anulação do julgamento.

“A interposição das razões do recurso foi realizada ontem, e agora cabe aguardar o julgamento no Tribunal de Justiça da Bahia. Se acaso não for julgado procedente conforme a defesa espera, caberá recurso ao STJ e ao STF, com grande possibilidade até de o júri ser anulado, porque um dos corréus foi apresentado em plenário com insuficiência de defesa, ao ponto de o próprio advogado de um corréu estar comemorando nas redes sociais a condenação do seu próprio cliente. E isso fere a ampla defesa, o contraditório, a plenitude de defesa que vigora no tribunal do júri e os direitos e preceitos constitucionais e fundamentais para que aconteça o exercício de uma defesa.”

Defesa contesta versão apresentada no julgamento

Um dos principais pontos levantados pela defesa é a credibilidade do depoimento de Weslen Pablo, conhecido como Bispo Zadoque, que confessou o crime e apontou Ederlan como mandante.

“A defesa tomou como surpresa, porque o próprio magistrado, a promotoria e o conselho de sentença perceberam que Zadoque contava uma versão sem pé nem cabeça, uma versão que destoava de todos os outros depoimentos que ele deu em delegacia e em juízo, e que trazia fatos que ele não consegue sustentar em nenhum momento. Se eu digo que você me ligou, eu tenho que provar que você me ligou.”

“Se eu digo que você me pagou, eu tenho que provar que você me pagou. Ainda que não tenha a ligação, é preciso informar por qual meio ela ocorreu, para que se possa requerer a quebra de sigilo telefônico e apresentar o recebimento ou a realização dessa ligação. E ele não faz nada disso.”

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“E, para proteger alguém que a gente não sabe, embora haja suspeitas, já que o nome foi citado em audiência algumas vezes, ele tomou a atitude de envolver Ederlan e um outro réu, de prenome Victor, de quem eu também não sou advogado. Mas, em especial Ederlan, que é meu cliente, em dois dias de julgamento não teve apresentada uma prova que o colocasse na situação criminosa.

Não foi apresentado nada que demonstrasse que ele tenha cometido o crime, porque ele de fato é inocente. A gente não pode condenar com base em presunções, apelo midiático ou clamor social. A história está repleta de casos como esse, inclusive recentemente aqui em Salvador, Bahia, quando um motorista de ônibus quase foi linchado, acusado de matar uma criança, e depois a própria Polícia Civil comprovou que ele era inocente. Então, a gente tem que ter muito cuidado para não estar comemorando a condenação de um inocente e, daqui a alguns anos, estar pedindo desculpas por meio de retratação.”

Pressão social e papel da mídia entram no debate

A defesa também levantou questionamentos sobre a influência da comoção pública no resultado do julgamento, especialmente por se tratar de um caso de grande repercussão.

“Tenho certeza de que os jurados já vão pressionados, até pelos próprios familiares que têm ciência de que haverá julgamento, e pela própria sociedade, ainda mais se tratando de uma cidade pequena, onde as pessoas se conhecem. É uma responsabilidade tamanha e, às vezes, com medo de sofrer retaliação, a pessoa acaba votando para agradar a sociedade, como eu disse ontem no próprio julgamento, uma sociedade que não conhece os autos.”

“É um processo que tramita em segredo de justiça. Apenas as pessoas que estavam ali acompanhando o procedimento conhecem, e há a chamada resposta à sociedade. Agora, a gente tem que entender que pressão popular e pressão midiática não são fundamentos para condenar ninguém. Destaco que não tenho nada contra a imprensa, apoio o poder da imprensa, confio na imprensa, mas a gente tem que ponderar aquilo que é apresentado e cobrado com o que está nos autos.”

Processo pode se arrastar por anos

De acordo com a defesa, o caso ainda deve ter um longo caminho pela frente no Judiciário.

“Vai se prolongar por muitos anos, porque há possibilidade de esse júri, inclusive, ser anulado e, sendo anulado, retornar para novo julgamento, pelos fundamentos que já destaquei. Além disso, ainda há as instâncias, como o STJ, o STF e o próprio Tribunal de Justiça da Bahia. Então, o júri é um processo que, na verdade, vai durar por anos. Ontem foi apenas mais uma fase dele, que já dura três anos.”

Condenações somam quase 100 anos de prisão

O julgamento foi realizado no Fórum Desembargador Gerson Pereira dos Santos, em Dias d’Ávila, e terminou na noite desta quarta-feira, 25, após dois dias de sessões.

Os três réus foram condenados pelos crimes de feminicídio por motivo torpe, ocultação de cadáver e associação criminosa:

  • Ederlan Santos Mariano: 34 anos e 5 meses (apontado como mentor do crime)
  • Victor Gabriel Oliveira Neves: 33 anos e 2 meses
  • Weslen Pablo Correia de Jesus (Bispo Zadoque): 28 anos e 6 meses

Com a decisão, todos os quatro envolvidos no caso — incluindo Gideão Duarte de Lima, condenado anteriormente — passam a responder com penas definidas pela Justiça.

Sete jurados participaram do julgamento e responderam a 42 quesitos antes da definição das penas pelo magistrado.

Crime chocou a Bahia

Sara Freitas foi assassinada em 24 de outubro de 2023, após ser atraída para um falso evento religioso. A cantora foi morta com 22 facadas, e o corpo foi encontrado em Dias d’Ávila.

O caso ganhou grande repercussão e mobilizou familiares, autoridades e a opinião pública ao longo das investigações e do julgamento.

Julgamento teve dois dias de tensão e divergências

A sessão foi marcada por momentos de tensão, depoimentos fortes e divergências entre defesa e magistrado.

No primeiro dia:

  • 17 testemunhas foram ouvidas
  • A mãe da vítima relatou conflitos no relacionamento da filha
  • Houve divergências entre defesa e o juiz responsável
  • Zadoque confessou o crime e apontou Ederlan como mandante

No segundo dia:

  • Ocorreram debates entre acusação e defesa
  • Foram realizadas réplica e tréplica
  • O júri votou e a sentença foi definida no fim da noite
  • Defesa e acusação em lados opostos

Enquanto a defesa sustenta a inocência de Ederlan e aposta na reversão da condenação, a acusação considera a decisão histórica.

O advogado da família da vítima classificou o resultado como a maior pena já aplicada em um caso de feminicídio no Brasil.



Fonte: A Tarde

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