Tico Santta Cruz detalha o processo criativo do projeto –
Após quase três décadas de estrada, o Detonautas inicia um novo capítulo em sua trajetória com o lançamento de Rádio Love Nacional, nono álbum de estúdio da banda, já disponível nas plataformas digitais. A banda se apresentou em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador, no início do mês, e faz show novamente na Bahia neste sábado, 21, na cidade de Prado.
Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, o vocalista Tico Santta Cruz detalha o processo criativo do projeto, que reúne 11 faixas inéditas e marca uma fase de experimentação sonora ao misturar rock, pop, tecnobrega e batidas eletrônicas.
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“‘O Rádio Love Nacional’ é um álbum que nasceu de uma ideia que não estava prevista. A gente tinha terminado de fazer o acústico ‘Detonautas 20 Anos’, que lançamos em 2023, e eu tinha feito, ao longo desse período, entre 2023 e 2025, apenas uma música inédita”, afirma.
“Eu meio que interrompi meu ciclo de criatividade porque isso é normal, às vezes a gente entra numa entressafra de criação. E eu deixei essa música pronta, que era ‘Potinho de Veneno’, mas ainda não tinha mostrado nada para ninguém”, completa Tico.
A partir dessa faixa, o projeto ganhou novos rumos. Inicialmente, a banda chegou a apresentar um projeto de regravações à gravadora, mas a proposta foi redirecionada. Segundo Tico, o processo resultou em um momento de grande produtividade criativa.
“Vieram dez outras músicas, além de algumas que não foram aproveitadas, e a gente entrou num fluxo muito criativo, muito positivo, o que foi muito legal para criar essa nova etapa do Detonautas. E isso também se deve muito ao fato de termos escolhido os produtores corretos. Foi meio que uma coisa imprevista, mas que deu muito certo.”
Mistura de gêneros amplia identidade sonora
Com produção assinada por Pablo Bispo e Ruxell, o álbum explora uma diversidade de ritmos que dialoga com diferentes referências da música brasileira contemporânea.
“Fomos experimentando algumas ideias de beats, principalmente porque o Ruxell é o cara do beat, que já fez muitos trabalhos legais com a Gloria Groove, com a Pabllo Vittar, trabalhando com referências do pop brasileiro de alto nível. Aí começamos a experimentar algumas batidas, e isso foi conduzindo o projeto”, explica.
“Uma música foi puxando a outra, e fomos entrando no espírito, entendendo que esse álbum tinha uma pluralidade muito grande. Ele não é um álbum de um estilo específico, mas um álbum com uma variação de estilos muito interessante”, disse.
Entre os estilos explorados, o tecnobrega aparece como uma das influências mais marcantes. “O álbum passa pelo tecnobrega, inclusive, a própria batida de ‘Potinho de Veneno’ foi inspirada nesse estilo. Depois a gente vai para o rock brega, para o bregão de boteco que eu posso mencionar referências do Reginaldo Rossi e de outros artistas do universo que a gente foi beber da fonte para criarmos a nossa sonoridade dentro do rock.”
“A gente tem reggae, a gente tem metal com trap. Então fomos misturando um monte de coisa que faz parte do nosso universo, que está dentro da nossa sonoridade, mas ao mesmo tempo não estava sendo explorada da forma adequada. Nesse disco, com esses produtores, a gente conseguiu equalizar bem e o resultado foi excelente”, explica.
A primeira música criada foi fundamental para definir o direcionamento artístico do álbum. “‘Potinho de Veneno’ é uma música que tem uma característica muito própria. Eu estava muito debruçado na biografia da Rita Lee, mergulhado nesse universo de uma artista com muitas nuances do rock brasileiro, mas também com características quase carnavalescas.”
Espiritualidade atravessa letras e conceitos

Além da experimentação sonora, o disco também se destaca pela presença de referências espirituais e simbólicas nas composições.
“Eu, Pablo e Bispo temos as religiões de matriz africana muito presentes nas nossas vidas. Então há muitas referências em várias músicas, através do simbolismo dessas religiões. São metáforas que foram sendo desenvolvidas, principalmente na faixa ‘Capa Preta’.”
“‘Capa Preta’ trata de uma entidade do Candomblé e da Umbanda. Também temos inúmeros outros simbolismos relacionados a Orixás dentro das músicas, em que o próprio refrão aparece quase como uma oração”, explica.
“Em várias outras faixas utilizamos metáforas e formas de nos conectar com essa parte espiritual, mas sem deixar isso tão explícito, para que as pessoas possam descobrir esses elementos à medida que forem conhecendo o álbum”, completou
Pluralidade do álbum
O conceito do disco também se reflete no título, que remete à ideia de uma estação com múltiplas frequências. “A gente imagina que, cada vez que você estiver ouvindo uma faixa, é como se estivesse em um programa de rádio, tocando uma sonoridade diferente, ou como se estivesse mudando de estação e se conectando a outras rádios.”
Para Tico Santta Cruz, o título do álbum também reflete uma escolha linguística que dialoga com o cotidiano brasileiro. “‘Rádio Love’ vem também desse sentido de usar, de certa forma, a nossa língua portuguesa junto com a referência do ‘love’, que é uma palavra em inglês, mas que, ao mesmo tempo, está muito inserida no nosso dia a dia, no cotidiano brasileiro. A gente tende a trazer palavras estrangeiras, principalmente da linguagem americana, para dentro da nossa fala”, explica.
“Mas a gente usa isso no melhor sentido: trazer uma linguagem de fora para a nossa utilização. Por quê? Porque estamos falando de uma metáfora de uma rádio que leva amor para as pessoas e, ao mesmo tempo, dissemina reflexões, canções com uma profundidade muito grande, dentro do que é o Brasil”, completa.
Segundo o artista, essa mistura de referências linguísticas também reflete hábitos culturais do país. “Você vai ouvir o brasileiro, mesmo quando ele não percebe exatamente o que está falando, usando termos de outras línguas, e isso faz parte do nosso cotidiano. Mas, ao mesmo tempo, a nossa contribuição é tentar fazer com que a gente valorize mais a nossa cultura”, afirma.
Reinvenção sem perder a essência

Mesmo após quase 30 anos de carreira, o grupo aposta na escuta e na abertura ao novo como forma de se manter relevante. Para Tico Santta Cruz, a reinvenção está diretamente ligada à continuidade do processo criativo. “Eu acho que conseguimos nos reinventar porque nunca paramos de criar em nenhum momento e sempre estivemos abertos a ouvir novas influências, principalmente das novas gerações.”
O vocalista também destaca que a maturidade da banda contribui para preservar sua identidade ao longo do tempo. “Manter a essência e a nossa forma de visualizar o mundo, vem com maturidade. Afinal de contas, o Detonautas é uma banda que já está há quase 30 anos na estrada. Ou seja, já temos outras gerações nos acompanhando e também estamos dialogando com novos públicos.”
Segundo ele, essa conexão com o público mais jovem é fundamental para manter a banda em movimento. “Acredito que isso se deve muito ao fato de estarmos abertos a novas experiências, principalmente ouvindo os jovens de hoje.”
Para Tico Santta Cruz, Rádio Love Nacional ocupa um lugar simbólico dentro da discografia da banda.
“O que eu vou falar pode parecer até um pouco pretensioso, mas eu acho que o ‘Rádio Love Nacional’ abre uma nova etapa do Detonautas. É muito parecido com quando a banda começou, lá em 1997, e lançou o primeiro álbum, o ‘Detonautas Roque Club’ homônimo. Ali houve uma mudança de patamar: saímos de uma banda independente para uma banda inserida na indústria musical brasileira, em âmbito nacional”, afirma.
Para o vocalista, o novo álbum ocupa um lugar simbólico dentro da trajetória da banda. “Eu acho que o ‘Rádio Love Nacional’, praticamente 24 anos depois, também abre uma nova porta e nos leva para outro lugar. É como se estivéssemos recomeçando a nossa trajetória, mas agora contando com um novo universo.”
“Eu vejo o ‘Rádio Love’ quase como o primeiro álbum do Detonautas, como uma chave que você gira para abrir uma nova fase, um novo momento, uma nova história”, completa.
Apesar da virada, Tico ressalta a importância do legado construído ao longo dos anos. “Tudo o que foi feito antes do ‘Rádio Love Nacional’ permanece e tem um valor imensurável, porque é o nosso legado. Mas a gente ainda tem muita coisa para construir, e eu acho que o ‘Rádio Love’ é esse primeiro passo para uma nova etapa, com canções diferentes, abordagens diferentes, uma literatura diferente, conceitos diferentes. E isso é muito legal, porque renova a expectativa de vida da banda.”
Fonte: A Tarde



