sexta-feira, março 20, 2026
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Taxa de juros cai após dois anos; saiba o que muda no seu bolso

Apesar do início do corte, a Selic ainda permanece em um patamar elevado –

A queda da taxa de juros após quase dois anos inaugura um novo momento para a economia brasileira, mesmo que esteja cercado de cautela. O Banco Central reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano, no primeiro corte desde maio de 2024, após a taxa atingir o pico de 15%, o maior nível em duas décadas.

Embora o percentual pareça pequeno, o gesto é significativo. Ele sinaliza uma mudança de leitura da autoridade monetária sobre o cenário econômico: há espaço para estimular o consumo sem provocar um descontrole inflacionário.

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Em entrevista ao Portal A TARDE, o economista Antonio Carvalho, explica que a decisão representa um voto de confiança na estabilidade do país.

“A taxa básica de juros é a taxa referência da economia. Ela é utilizada como instrumento da política monetária para conter o aumento da inflação. Logo, uma redução na Selic representa um excelente sinal, quando o Banco Central entende que a economia brasileira está recuperando seu nível de estabilidade e de confiabilidade”, afirma.

O profissional acrescenta que a leitura do Banco Central vai além do presente. “Mesmo que haja aumento do consumo, este não pressionará os preços e resultará em aumento da inflação.”

Um novo ciclo, ainda com cautela

Apesar do início do corte, a Selic ainda permanece em um patamar elevado. O Brasil continua entre os países com juros reais mais altos do mundo, o que mantém a política monetária em nível contracionista.

Ainda assim, a expectativa do mercado é que esse seja apenas o começo. “Uma primeira redução é sempre um bom sinal. Como a economia funciona para lógica de juros futuros, espera-se que a redução de 0,25% inaugure uma sequência de reduções ao longo de 2026 e nos próximos anos”, explica Antonio Carvalho.

O próprio Banco Central já havia indicado essa possibilidade na reunião anterior, mas adotou um tom cauteloso diante das incertezas globais, especialmente com o avanço de conflitos no Oriente Médio e a alta do petróleo.

Impactos no bolso: crédito mais barato, aos poucos

Na prática, a principal mudança para o consumidor é a perspectiva de inflação mais controlada e crédito mais acessível. “A redução da taxa básica de juros significa, inicialmente, uma perspectiva do não aumento da inflação, o que já é bom, considerando que a inflação corrói o poder de compra e compromete a qualidade de vida”, diz o economista.

Ele também destaca outro efeito importante: “Significa também a redução do custo do dinheiro, com maiores possibilidades de empreendedorismo e geração de emprego e renda, podendo reduzir os preços dos produtos, pois, com crédito mais barato, a pressão por lucro e o custo de produção diminuem”.

Crédito começa a reagir nos próximos meses

A tendência é que os juros de produtos como cartão de crédito e cheque especial comecem a cair, ainda que de forma gradual. Já financiamentos de longo prazo devem sentir mais impacto.

Segundo o economista, esse movimento deve começar em breve. “A Selic é a taxa referência. É natural que as instituições financeiras a sigam para precificar seus produtos… Assim, espera-se que em abril já tenhamos reflexos dessa redução nos produtos bancários”, explica.

É hora de financiar? Especialista recomenda cautela

Apesar do cenário mais favorável, o momento ainda exige prudência. A recomendação, por enquanto, é observar os próximos movimentos antes de assumir dívidas de longo prazo.

A queda da taxa de juros também altera o cenário para investidores | Foto: José Cruz | Agência Brasil

“Com uma primeira redução sendo o sinal positivo para possíveis reduções sequenciais, recomendaria aguardar as próximas reuniões e a tendência das taxas de juros para realizar financiamentos”, orienta Carvalho.

Renda fixa perde força com a queda

A queda da taxa de juros também altera o cenário para investidores. Aplicações atreladas à Selic, como Tesouro Selic e CDBs pós-fixados, passam a oferecer retornos menores à medida que os juros recuam.

A poupança, por outro lado, mantém sua regra atual de rendimento, 0,5% ao mês mais a Taxa Referencial (TR), já que a Selic permanece acima de 8,5% ao ano.

“Os investimentos atrelados à Selic, terão seus rendimentos ajustados sempre que há ajuste (aumento ou redução). O que também pode se esperar das demais aplicações já que, de maneira geral, todas as taxas de juros (de investimentos, de financiamento e de retorno) têm na Selic sua referência central”, afirma o economista.

Inflação e cenário externo preocupam

O corte de 0,25 ponto percentual indica que o Banco Central enxerga uma inflação mais controlada no curto prazo. O próprio comunicado da autoridade monetária destacou que os juros elevados já cumpriram um papel importante no processo de desinflação.

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Ainda assim, o cenário exige atenção. “O corte indica certo grau de confiança no comportamento da inflação e no controle das contas públicas, no entanto, é uma espécie de ‘voto de confiança’ que só pode ser considerado tendência se houver sucessivos cortes nas próximas reuniões”, pondera Antonio.

Dados do Relatório Focus reforçam essa cautela. As projeções para 2026 foram revisadas para cima:

  • Selic: de 12,13% para 12,25% ao ano
  • Inflação (IPCA): de 3,91% para 4,10%
  • PIB: crescimento estimado em 1,83%

Os números indicam que o mercado ainda vê riscos no controle inflacionário e no ritmo de crescimento da economia.

Petróleo e guerra podem frear queda dos juros

O principal fator de risco no momento vem do cenário internacional. A escalada da guerra no Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos, tem pressionado os preços do petróleo, que já se aproximam de US$ 120 por barril.

Esse movimento impacta diretamente a inflação global, já que a energia está presente em praticamente todos os custos da economia.

“Sendo o petróleo uma commoditie essencial para a produção e o transporte e integrante da base de custos de todos os bens e serviços, é evidente que o aumento do preço internacional do barrilresulta no aumento dos combustíveis no mundo inteiro. o Brasil não está fora desse impacto negativo. Em um momento de perspectivas positivas com a primeira redução da Selic em quase dois anos, o preço do petróleo poderá ser um “balde de água fria” na redução da taxa porque este pode impulsionar a inflação”, explica Carvalho.

O Banco Central também destacou essas incertezas em seu comunicado, reforçando que permanece atento aos desdobramentos do cenário externo.

O que esperar agora?

A próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) está marcada para os dias 28 e 29 de abril. Até lá, o comportamento da inflação, do petróleo e da economia global será decisivo para os próximos passos.

A expectativa inicial é de continuidade na queda dos juros, mas sem garantias. “Pela redução desta semana, a esperança é de uma continuidade na curva de queda, mas, com o conflito e o impacto do preço do petróleo nos preços dos combustíveis é incerta a posição do Bacen e do COPOM, pois o futuro próximo da economia mundial é incerto”, conclui Carvalho.



Fonte: A Tarde

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