quinta-feira, março 19, 2026
spot_img
HomeÚltimas NotíciasPeixes contaminados trazem riscos à saúde de ribeirinhos na Amazônia

Peixes contaminados trazem riscos à saúde de ribeirinhos na Amazônia

Para milhões de ribeirinhos da Amazônia, o peixe é a base da alimentação diária. Um estudo da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA) traz um alerta para essa população: todas as espécies investigadas apresentam riscos à saúde por causa da presença de metais tóxicos, especialmente mercúrio e arsênio.

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND) coletaram amostras em áreas de pesca nos municípios de Faro, Juruti, Santarém, Porto Trombetas e Itaituba, no oeste do Pará. Eles examinaram se seis espécies amplamente consumidas (acari, aracu, piranha, pirarucu, caparari e tucunaré) possuíam arsênio, cádmio, mercúrio e chumbo.

Diferentemente de estudos anteriores, os pesquisadores acompanharam pescadores até os locais de captura para garantir a rastreabilidade das amostras.

Os resultados indicam que parte dos peixes, especialmente espécies carnívoras, apresentou níveis de mercúrio acima dos limites legais. Os cálculos de risco consideram os padrões locais de consumo de peixe. O risco à saúde foi considerado alto em todas as espécies e em todas as cidades. Em alguns casos, havia mercúrio em quantidade quase 30 vezes acima do limite de tolerância.

>> Siga o canal da Agência Brasil no WhatsApp

O estudo também aponta que 25% das amostras apresentam risco considerável de câncer, principalmente devido à presença de arsênio e cádmio. O acari, peixe bastante consumido na região, foi um dos destaques nesse quesito.

O mercúrio pode afetar o sistema nervoso, provocar danos renais, problemas respiratórios, abortos e prejudicar o desenvolvimento infantil. Contaminantes como o arsênio e o cadmio estão associados a um maior risco de câncer.

Os pesquisadores identificaram ainda uma coincidência que reforça o alerta. Dados da Secretaria de Saúde do Pará mostram aumento nos casos de câncer de pele entre 2022 e 2024 no Baixo Amazonas, especialmente em Santarém e Juruti — localidades onde o estudo encontrou maior risco associado ao arsênio. A pesquisa ressalta que a correlação observada exige investigação mais aprofundada.

Origem da contaminação

O estudo relaciona a presença dos metais tóxicos a múltiplas pressões ambientais na região. Entre elas estão o garimpo ilegal de ouro (que utiliza mercúrio), a mineração de bauxita (que produz resíduos conhecidos como “lama vermelha”), o desmatamento e a expansão da soja.

Essas atividades contribuem para a erosão do solo e liberam metais naturalmente presentes na terra para os rios. Esses contaminantes se acumulam ao longo da cadeia alimentar e atingem concentrações maiores em peixes predadores, como tucunaré e piranha.

Diferentes riscos

Segundo os pesquisadores, o risco é mais significativo para populações ribeirinhas, que consomem peixe diariamente. Para o restante da população brasileira, incluindo turistas, o consumo é considerado seguro dentro dos padrões médios nacionais.

O estudo conclui que proibir o consumo de peixe não é uma solução viável, já que isso agravaria a insegurança alimentar na região. Em vez disso, os autores defendem políticas públicas voltadas ao monitoramento contínuo da qualidade da água e dos alimentos, além de ações de vigilância em saúde.

A pesquisa reforça a necessidade de integrar questões ambientais e de saúde pública na formulação de políticas para a Amazônia, diante do avanço de atividades econômicas que impactam diretamente a qualidade de vida das populações locais.

 

 

Fonte: Agência Brasil

- Advertisment -spot_img

Mais lidos