quarta-feira, março 18, 2026
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esta é a melhor série de espionagem dos últimos anos

Faz tempo que James Bond já não é mais o mesmo. No último filme (007 – Sem Tempo para Morrer, 2021), deu tudo tão errado, mas tão errado, que – alerta de spoiler – ele morreu. (Sem choro, gente. Logo, logo vão escalar um novo ator e iniciar outra sequência de filmes). Agora, se tá ruim assim para o agente 007, a nobreza do MI6 (serviço secreto britânico), imagine só para os agentes de baixo escalão, os menos cotados. Como são seus casos? Eles cuidam de algum caso? O que fazem? Como fazem? Essa é a premissa da série de livros Slough House, do escritor Mick Herron, que a Intrínseca está lançando agora no Brasil.

De uma vez só, a Intrínseca lançou o primeiro e o segundo livros no mercado brasileiro: Slow Horses e Leões Adormecidos. Enorme sucesso editorial, os livros de Herron estão sendo adaptados em uma cultuada série da Apple TV+, Slow Horses (título do primeiro livro). Na série em streaming, cada temporada (com seis episódios cada) adapta um livro. Já saíram oito livros e cinco temporadas. A sexta está prometida para estrear em setembro ou outubro próximo.

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Apesar de legítima, a comparação com James Bond no primeiro parágrafo não é correta. Slow Horses está muito mais próxima dos dramas de espionagem de John Le Carré do que das aventuras exóticas que Ian Fleming criou para o 007. Seus personagens são, para começo de conversa, fracassados que foram rebaixados para um anexo (distante) de Regent’s Park, a sede do MI5. (A título de esclarecimento: MI6 e MI5 são as duas agências de espionagem britânica. A primeira atua no exterior, fora da Grã Bretanha, e a segunda, dentro, assim como suas correspondentes norte-americanas, CIA e FBI).

No MI5, os agentes que falharam em suas missões ou fizeram alguma besteira em campo – seja qual for – são transferidos para a Slough House (Casa do Pântano), um imóvel decrépito com quatro andares próximo à estação Barbican de metrô: o fim da linha para os agentes secretos, onde são relegados a serviços burocráticos.

Sem moral entre os agentes efetivos, esses ‘exilados’ são chamados de slow horses (pangarés). O chefe da Slough House e dos slow horses é Jackson Lamb, um veterano agente acima do peso, de hábitos pouco higiênicos, flatulência constante e aspecto seboso (cabelo ensebado, roupas sempre manchadas das porcarias que come).

Dentro da casa do pântano

No primeiro livro, somos apresentados à Slough House pelo novato que chega lá para cumprir seu castigo, o agente River Cartwright, que falhou em uma simulação de atentado à bomba em uma estação de metrô, o qual, caso fosse real, teria matado mais de mil pessoas. River, porém, tem pedigree: seu avô, David Cartwright, é uma lenda viva do MI6, com muitos anos de serviço infiltrado do outro lado da Cortina de Ferro durante a Guerra Fria. David e Jackson Lamb são velhos conhecidos e guardam, claro, segredos dos velhos tempos, os quais River nem desconfia.

Além de Jackson e River (e seu avô), o primeiro livro nos apresenta à equipe dos pangarés, um adorável elenco de fracassados cheios de segredos e habilidades. Pessoas como Catherine Standish, uma senhora de meia idade, alcoólatra e traumatizada, que Lamb trata como secretária e diarista. Roddy Ho, o hacker arrogante e anti-social. Sidonie ‘Sid’ Baker, uma agente competente, que ninguém sabe direito porque está ali. Min Harper, que foi rebaixado após esquecer uma pasta repleta de segredos de estado no metrô – e por aí vai.

Todos na Slough House estão lá por algum motivo, e no livro, vamos conhecendo os personagens e as razões de seus exílios pouco a pouco. A princípio, ninguém ali se gosta, ninguém ali aprecia a companhia um do outro e tem sempre uma palavra rude na ponta da língua.

Acontece que, volta e meia, Diana Taverner – jocosamente chamada de Lady Di –, a vice-diretora do MI5, pede algum favor à Jackson Lamb e sua equipe. Foi ao prestar um desses favores que Sid conseguiu roubar um pen drive de um jornalista com conexões com a extrema direita inglesa. Em consonância, um grupo neonazista sequestra um jovem de origem paquistanesa e ameaça decapitá-lo durante uma transmissão ao vivo, dentro de algumas horas.

E aí entra em cena uma das melhores características de Slow Horses: o humor ácido, tipicamente britânico. Quando tomam pé da situação, os pangarés se animam: nossa, precisamos fazer alguma coisa, eles confabulam, diante da TV que transmitiu a notícia. Ao que Jackson Lamb chega, dispersando a galera e mandando todos de volta às suas baias: “Tão malucos, aqui ninguém vai se meter nisso, deixem com o pessoal de Regent’s Park”.

E aí, qual a relação do tal jornalista de extrema direita com tudo isso? O rapaz sequestrado vai ser decapitado? Como cada pangaré foi rebaixado para a Slough House? Esses fatos tem alguma relação entre si? Ou tem relação com Jackson Lamb? E esse avô do River, o que ele andou aprontando em seu tempo com Lamb na Guerra Fria?

Tudo isso vai ser desenvolvido sem pressa por Herron ao longo do primeiro livro. Contar mais pode estragar as surpresas e reviravoltas que o livro (e a série da Apple) reservam ao leitor / espectador.

| Foto: Divulgação

Personagens, não técnicas

De estilo um tanto verborrágico, Mick Herron conduz Slow Horses, o primeiro volume da série, de forma quase lenta – ainda que a sequência de abertura, a simulação fracassada de River Cartwright, tenha um ritmo alucinante. Ele vai fundo nas descrições de cada membro da Slough House – e da própria Slough House, praticamente um personagem pelos próprios méritos. Ali pelo meio do livro, o leitor já se sente dentro da Casa do Pântano, sentindo seu cheiro de mofo junto com os agentes.

No posfácio, o comentarista político do Sunday Times, Tim Shipman, nota que, diferente de Ian Fleming (criador do 007) e de John Le Carré, Mick Herron não é um ex-agente de inteligência. Herron nunca sequer conheceu um espião na vida. Tampouco, Herron é jornalista, como outros autores citados no texto. Ele classifica o autor de Slow Horses em uma terceira categoria: “São escritores interessados em personagens, não em técnicas de espionagem”, escreve Tim.

Não à toa, a Slough House reflete a decadência do seu próprio líder, Jackson Lamb.

Mesmo extenso, com longas descrições de personagens e lugares, o primeiro volume pode ser lido de forma veloz, constituindo uma experiência muito divertida. Mesmo para quem já viu a série e sabe o que vai acontecer, vai encontrar muito ao que se apegar na leitura. Que venham as próximas aventuras dos pangarés de Jackson Lamb.

Os Agentes Secretos

Com o sucesso de crítica e público dos livros – este primeiro volume foi escolhido pelo jornal Daily Telegraph como um dos vinte melhores romances de espionagem de todos os tempos – Slow Horses logo teve seus direitos vendidos para ser adaptado ao audiovisual.

E que bom que caiu na mãos certas do humorista e produtor Will Smith (homônimo do ator norte-americano), que fez da série um sucesso – ainda que moderado, pois não se converteu em hype, a despeito do elenco espetacular liderado por Gary Oldman, em estado de graça na pele (sebosa) de Jackson Lamb, das temporadas sucessivamente estupendas e até da música-tema, Strange Game, cantada por Mick Jagger, um entusiasta da série de livros. Basta dizer que, todos os anos, a série da Apple TV+ tem várias indicações ao Emmy e ao Golden Globes – especialmente Gary Oldman – mas não leva nada. São ‘os agentes secretos’ da TV britânica (perdão pelo chiste).

Outro destaque é a fantástica Catherine Standish vivida por Saskia Reeves, com sua aparência frágil e ar de coitada, mas cheia de segredos e traumas, um personagem riquíssimo, que ela encarna com total habilidade.

Com cinco temporadas disponíveis na Apple TV+, Slow Horses é uma joia escondida naquele catálogo, um caminho sem volta, uma vez descoberto.

SLOW HORSES – SLOUGH HOUSE VOL. 1 / Mick Herron / Intrínseca/ 416 páginas/ R$ 79,90/ E-book: R$ 54,90

LEÕES ADORMECIDOS – SLOUGH HOUSE VOL. 2 / Mick Herron / Intrínseca/ 416 páginas/ R$ 79,90/ E-book: R$ 54,90



Fonte: A Tarde

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