quarta-feira, março 18, 2026
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a história do baiano que mudou a realidade da família

Entre os corredores da USP, cursando direito e estagiando em escritórios de advocacia de São Paulo, está um menino vindo de Nova Ibiá, no interior da Bahia. Sem renda, familiares fora do estado ou mesmo uma escola particular, ele traçou seu próprio caminho rumo ao futuro que queria unindo dois fatores – sua força de vontade, e o apoio de uma ONG.

Entre os cinco mil habitantes de Nova Ibiá, o jovem costumava sentar-se na primeira fileira da sala de aula, movido por uma curiosidade incansável e pelo desejo de “alçar voos maiores”.

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Seu nome é Eduardo Bittancourt, filho de agricultor e de uma ex-empregada doméstica, ele encontrou no Instituto Ponte, uma organização social que atua como um ‘olheiro do futebol, só que para a educação’, a chance de mudar seu futuro, e conseguiu.

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A realidade de Eduardo em Nova Ibiá era, como ele mesmo descreve, “sufocante” e marcada pela “invisibilidade”. Seus pais, Ivonildo e Marineide, trabalhavam arduamente na roça e em diárias para sustentar a família, sem deixar de apoiar os estudos do filho na escola pública local.

Eduardo e seu pai na roça | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

“Pagar um curso de inglês ou uma escola particular era uma realidade totalmente fora de alcance”, relembra o estudante. No entanto, tudo começou a mudar no segundo ano do Ensino Médio, quando Eduardo descobriu o Instituto Ponte através de uma veterana.

Ao ver a proposta da ONG, ele chegou a duvidar: “Será que é verdade? Será que pode ser uma ONG tão boa assim? Será que é de graça?”. Após um rigoroso processo seletivo, Eduardo ingressou no projeto, recebendo não apenas suporte pedagógico em português e matemática, mas também orientação psicológica e profissional, que o ajudou a decidir trocar o sonho inicial da Medicina pelo Direito.

Eduardo e os pais

Eduardo e os pais | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

O que é o Instituto Ponte?

Fundado há 12 anos no Espírito Santo pela engenheira Barchira, o Instituto Ponte nasceu do desejo espontâneo de auxiliar famílias a aumentarem seu poder aquisitivo e alcançarem dignidade através do estudo, e hoje já apoia mais de 460 alunos espalhados por 19 estados brasileiros.

De acordo com Alice Ponte, representante da instituição, a ONG não faz assistencialismo, mas oferece um acompanhamento integral de cerca de 11 anos, que segue o aluno desde o 7º ano do Fundamental até a conclusão do Ensino Superior e a inserção no mercado de trabalho.

O suporte inclui:

  • Bolsas de 100% em escolas particulares de referência e cursos de inglês
  • Custeio de material didático, uniforme e transporte
  • Aulas de reforço, redação, hábitos de estudo e desenvolvimento pessoal
  • Acompanhamento socioemocional com psicólogos formados
Eduardo Bittancourt

Eduardo Bittancourt | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

Rumo ao sonho da USP

Com o Instituto, Eduardo começou a trilhar o próprio caminho segundo suas próprias decisões. No terceiro ano do Ensino Médio, o IP viabilizou uma bolsa no pré-vestibular Madan, onde ele estudava online das 16h às 21h40, após a escola regular.

O esforço resultou em aprovações em Direito na UFBA, na UFES e, finalmente, na USP, onde tanto sonhava estudar. “Meus pais choraram muito… meu pai estava na roça e ficou desesperado em saber que o filho ia para um lugar tão distante”, conta Eduardo.

Eduardo na USP

Eduardo na USP | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

No início, ele viveu por três meses na casa de um doador do Instituto, mas hoje, graças às bolsas e ao estágio no escritório Maneira Advogados, na área de tributário, ele já possui seu próprio canto e ajuda financeiramente os pais.

Eduardo no escritório onde trabalha

Eduardo no escritório onde trabalha | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

Primeiro de sua família a ingressar em uma universidade pública, Eduardo sentiu logo de início os efeitos que uma formação profissional de qualidade traz. “Eu já ganhava mais que meu pai e minha mãe juntos. Em um ano de faculdade, é surreal”, revela.

Eduardo na USP

Eduardo na USP | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

Morando com uma amiga, se sustentando e ajudando os pais, sobra renda até mesmo para realizar sonhos. Foi assim que, em um ano e com o esforço do próprio estudo e trabalho, Eduardo conseguiu ir ao desfile do Carnaval do Rio de Janeiro, que a vida inteira sonhou em conhecer.

“Quando eu cheguei na Sapucaí, que era esse sonho meu, eu falei: ‘meu Deus, realmente… Eu estou realizando o meu sonho’, sabe? Por mais que para algumas pessoas pode até ser bobeira, para mim é uma grande conquista”, conta.

“Poder experimentar coisas novas e imaginar aquele garotinho lá que gostava muito de ver os carros, aquelas coisas bonitas, vendo pessoalmente… é um sonho realizado”, se emociona.

Eduardo no desfile da Sapucaí

Eduardo no desfile da Sapucaí | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

Racismo e enfrentamento

Os sonhos de Eduardo não paravam de se multiplicar, se realizar e, em um movimento natural, se encontrar com os sonhos de quem veio antes dele. Como um homem negro, vindo do interior baiano, em São Paulo, a cidade não “pegou leve” com Eduardo – e ele provou, mais uma vez com o estudo, que ocuparia todos os lugares que quisesse.

Em seu segundo dia na capital paulista, foi abordado de forma truculenta pela polícia na Avenida Paulista sem qualquer razão, sendo obrigado a tirar a camisa em público. Esse episódio deu origem à sua apresentação no PonTED (um evento estilo TED do Instituto), intitulada “Vozes que ecoam ao encarar o racismo”.

No palco, Eduardo traçou um paralelo entre sua história e a de Luiz Gama, o abolicionista que frequentou a mesma Faculdade de Direito no século XIX, mas não foi aceito formalmente por ser negro.

Eduardo ganhando o prêmio do TEDTalks

Eduardo ganhando o prêmio do TEDTalks | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

“Luiz Gama caminhou para que a gente pudesse correr”, afirma Eduardo, que venceu a categoria universitária do evento em 2024. A partir de então, Eduardo levou cada vez mais firme consigo os ideais de crescer profissionalmente no eixo, mas ocupar todos esses espaços sendo exatamente quem é.

Por isso, além do Direito, ele agora escreve um livro sobre a memória cultural de sua região na Bahia, focado em cidades como Jequié e Nova Ibiá, inspirado por autores como Itamar Vieira Júnior.

Segundo Eduardo, ele “escreve o livro que gostaria de ler”, reunindo as histórias do lugar de onde veio em um dossiê para que as próximas gerações não esqueçam da própria memória, e possam sonhar com seu futuro.

Eduardo Bittancourt

Eduardo Bittancourt | Foto: Arquivo Pessoal I Eduardo Bittancourt

Expansão no Nordeste

O sucesso de Eduardo é mais um de tantos casos que impulsionam o Instituto Ponte a focar cada vez mais no Nordeste, com a meta de que 30% de seus alunos sejam da região.

Por lá, surgem diversos exemplos marcantes, como o de Cauan Rocha, do Ceará. Em 2020, Cauan vivia em uma casa sem teto e sem porta, entrava pela janela e estudava com Wi-Fi emprestado de uma vizinha.

Assim, ele se tornou medalhista da OBMEP, Olimpíada Brasileira de Matemática e, através do IP, hoje cursa Engenharia de Software no Inteli, em São Paulo, com tudo custeado, traçando seus rumos em direção ao futuro que sonha, assim como Eduardo.

Como participar?

Atualmente, o Instituto Ponte está com inscrições abertas para o seu maior processo seletivo da história, com 130 vagas. Estudantes baianos e de todo o Brasil podem se candidatar gratuitamente até o dia 22 de março pelo site instituto.org.br.

Os critérios de seleção são:

  • Estar entre o 7º ano do Ensino Fundamental e o 2º ano do Ensino Médio
  • Ter rendimento escolar acima de 80%
  • Renda familiar de, no máximo, 1,5 salário mínimo per capita

O processo é longo, com sete etapas que incluem testes de lógica, provas, dinâmicas e entrevistas, terminando apenas em julho – mas Eduardo mesmo afirma que a maior dica para a aprovação é não desistir.

“Inscrevam-se, tentem, porque realmente muda a nossa realidade. A educação transforma vidas, assim como transformou a minha“, diz, incentivando milhares de jovens a entrarem no Instituto Ponte e conhecerem uma realidade completamente nova – exatamente a que quiserem sonhar.



Fonte: A Tarde

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