O produtor cultural baiano Marcus Vinícius de Souto Santos, 41 anos, viveu uma realidade que diz estar longe de qualquer romantização da guerra. Após meses lutando na Ucrânia contra forças russas, ele retornou ao Brasil.
Segundo ele, o período no front foi acompanhado por episódios de tortura dentro de batalhões, desaparecimento de soldados e famílias que, muitas vezes, nunca recebem notícias oficiais sobre o paradeiro de seus parentes.
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Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, Marcus descreve um cenário brutal na linha de frente da guerra e afirma que muitos combatentes estrangeiros enfrentam situações que vão muito além do risco de combate: punições dentro das tropas que ultrapassam qualquer limite.
Marcus relata ainda que presenciou a prisão de um combatente brasileiro acusado de tentar desertar e revela que o homem sofreu violência severa nas mãos de integrantes da própria companhia.
Marcus exibe insignia que usava durante a guerra
Nisso que ele foi preso, aí sim, houve as torturas com ele. Torturas bem pesadas. Tipo: arrancavam as unhas dele com alicate, davam choque no testículo. Quebraram quatro costelas de Arcanjo.
Ainda segundo o ex-combatente, as agressões eram praticadas por brasileiros que também integravam a companhia.
“Acordavam e não tinha nada para fazer, iam até a cela onde ele [Arcanjo] estava deitado e urinava na cara dele. Faziam até ele beber urina”, detalhou.
Marcus revelou que as agressões contra Arcanjo ocorreram após ele tentar fugir, algo que é considerado como deserção dentro das unidades.
Descumprimento de regras e punições
Marcus Vinícius comentou ainda sobre a postura de alguns soldados em missões, dizendo que muitos furavam a regra do batalhão, saíam para beber, usavam droga e voltavam embriagados.
Muitos brasileiros estão indo pra lá achando que é Disneylandia, é Hollywood. Sair, beber, ir pra boate.
“Muitos brasileiros estão indo pra lá achando que é Disneylandia, é Hollywood. Sair, beber, ir pra boate. Existe muitos pró-russos dentro da Ucrânia infiltrados para colher informações. Aí o brasileiro chega lá, quer fazer foto, selfie, ‘estou na guerra’”, explicou ele.

Marcus no aeroporto da Polônia
O ex-combatente afirmou que muitas dessas atitudes colocam a vida dos demais soldados em risco.
“Através disso pegam sua localização, mandam drone de reconhecimento, fazem a mapeação do batalhão e depois vem drone FPV que chega e acaba com tudo”.
“Existe um tipo de punição. O remasso, como a gente chama. O que é um remasso? É uma pessoa que apanha de cinco a seis. Você está pagando pelo erro que você cometeu”, revelou ele.
“Esse rapaz que morreu recentemente, possivelmente ele foi vítima desse remasso. O Bruno eu conheci. Ele saiu para beber, ingeriu muita bebida alcoólica e voltou para o batalhão”, contou Marcus ao citar o ex-colega de front, Bruno Gabriel Leal da Silva, 28 anos.
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Bruno foi encontrado morto, no dia 29 de dezembro de 2025, em uma base militar em Kiev, na Ucrânia. Segundo relatos, ele foi morreu após ser torturado.
O chefe do batalhão Advanced, o qual Marcus, Arcanjo e Bruno integravam, o brasileiro Leanderson Paulino, é investigado pela Polícia Federal.
Corpos abandonados no campo de batalha
Para Marcus Vinícius, além das agressões, outro episódio marcante foi ter que deixar para trás os corpos de alguns companheiros caídos em combate. Ele relembra que, devido à intensidade dos ataques, muitas vezes não há como resgatar os mortos.

Brasileiros estão morrendo em uma guerra que não é sua
“De der sorte de resgatar seu corpo, que muitas das vezes não acontece. Porque quando você é abatido em combate não tem como resgatar por conta de artilharia em cima, muitos drones em cima, muito tiro, granada”, conta.
Ele revelou ainda que, em diversas áreas de combate, os corpos permanecem abandonados por longos períodos. “Os corpos ficam lá. Os porcos comem esses corpos”, lembrou.
Famílias sem notícias
A falta de informações oficiais também é um dos aspectos que mais marcaram o ex-combatente. Segundo ele, muitas famílias só descobrem a morte de um soldado por meio de colegas.
“Às vezes a família fica sabendo através da gente mesmo. Companheiros que um passa contato pra família. Eu já dei várias notícias. É doloroso. É muito doloroso”, lamenta.
“Ou você mata ou você morre”
Marcus descreve o cotidiano no front como uma luta permanente pela sobrevivência. Em uma das situações mais extremas que viveu, afirma ter enfrentado soldados inimigos em combate corpo a corpo.
Ou você mata ou você morre.
“Ou você mata ou você morre. Bem, a primeira experiência [morte] foi de faca. A gente estava segurando uma posição e fomos cercados. Não tinha muito o que fazer, não podia fazer zoada”, lembrou, ao revelar ter matado o adversário a facadas.

Marcus conta que passou a ser considerado alvo pelos russos
“Tem que pensar rápido, o gatilho tem que ser rápido. Então o que restava fazer? Na faca. Era o mais óbvio que tinha. Na faca. A gente foi eliminando todos na faca. Se não fosse isso, eu não estaria nem aqui contando a história para você”, completa ele.
A fé como proteção no campo de batalha
Em meio ao ambiente de combate constante, Marcus afirma que a espiritualidade foi uma das principais formas de manter a sanidade.
Filho de Xangô, ele conta que sempre carregou consigo referências religiosas ligadas tanto ao catolicismo quanto às tradições do candomblé.

Foi em Deus, Nossa Senhora Aparecida e nos Orixás que Marcus encontrou forças para suportar a batalha
Iniciado na religião de matriz africana da nação Jeje aos 5 anos, o produtor cultural revelou que foi confirmado como ogã aos 13, por Doté Amilton, em um terreiro localizado no bairro do Curuzu, em Salvador.
“Sempre me apeguei a meu Deus, primeiramente, e nada acontece sem a permissão dele, e aos meus voduns, que está mais perto, que chega primeiro, e a Nossa Senhora também. Eles estavam sempre comigo no combate”, reafirma Marcus.
Ele revelou que a fé funcionava como uma forma de proteção psicológica diante da constante proximidade com a morte.
Temor de uma guerra no Brasil
Mesmo de volta ao Brasil, Marcus continua acompanhando o cenário internacional e acredita que tensões globais podem escalar para novos conflitos.
“Ressaltando uma coisa que está próxima a acontecer sobre os Estados Unidos e o Irã. A gente falou nisso há sete meses atrás quando eu estava lá na Ucrânia que isso poderia acontecer”, conta.
Ele avalia ainda que o Brasil pode acabar sendo diretamente impactado por conflitos internacionais, principalmente devido à aliança do país com a China, o que poderia envolvê-lo de forma indireta na guerra entre Estados Unidos e Irã.
O Brasil está envolvido, direta e indiretamente.
“O Brasil está envolvido, direta e indiretamente. Diretamente pelo seguinte, o possível apoio que o nosso presidente está com a China. Então já vai pegar por tabela”, especulou ele, sem se aprofundar na explicação.
“Eu pergunto a você, que estrutura o Brasil tem? Mas, se isso acontecer, se o país entrar em guerra, estamos aí, firme e forte”, afirmou.
Uma batalha que não compensa
De volta ao Brasil, Marcus tenta retomar a vida longe dos combates. Ainda assim, diz que as memórias da guerra continuam presentes.
Para ele, a experiência deixou claro que a guerra é muito mais cruel do que muitos imaginam, e que entrar em um conflito alheio simplesmente não compensa.
Número de mortos segundo o Itamaraty
Até o dia 13 de fevereiro deste ano, segundo dados do Ministério da Relações Exteriores, 24 brasileiros havia perdido a vida na guerra entre Rússia e Ucrânia. Outras 44 pessoas eram consideradas desaparecidas.
O Portal A TARDE entrou em contato com o Itamaraty para obter informações atualizadas sobre mortos e desaparecidos, além de detalhes sobre o apoio oferecido aos brasileiros no front e às famílias no Brasil.
Até o fechamento desta reportagem, no entanto, não houve resposta.
Canais de apoio e denúncia
1. Itamaraty (Ministério das Relações Exteriores)
O Itamaraty presta assistência consular a brasileiros em situações de emergência no exterior (morte, prisão, desaparecimento).
- Portal consular: www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/portal-consular
- Plantão consular (Emergências): +55 (61) 98117-4300 (WhatsApp para casos de crise e emergências).
- Assistência a brasileiros na Ucrânia: o contato direto deve ser feito com a Embaixada do Brasil em Kiev ou com o plantão em Brasília via e-mail: [email protected].
2. Polícia Federal (Brasil)
Para denunciar crimes cometidos por brasileiros no exterior (como os relatos de tortura citados) ou recrutamento ilegal:
- Site Oficial: www.gov.br/pf
- Denúncias online: através do portal Comunicação de Crimes no site da PF.
- Telefone (Sede em Brasília): (61) 2024-8000 (ou procure a Superintendência da PF em Salvador/Bahia para depoimentos presenciais).
3. Organizações Internacionais (Direitos Humanos)
Para casos onde as autoridades locais falham ou para monitoramento de crimes de guerra:
- Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV): Focado na localização de pessoas desaparecidas em zonas de conflito.
- Site: www.icrc.org/pt
- Anistia Internacional Brasil: Telefone: (21) 2221-5080 Site: anistia.org.br
4. Direitos Humanos (Nacional)
- Disque 100 (Disque Direitos Humanos): Serviço gratuito que recebe denúncias de violações contra brasileiros, inclusive no exterior, e encaminha para os órgãos competentes.
Fonte: A Tarde



