Escândalo sem fim do Banco Master, roubo dos aposentados do INSS e fundos de previdência, sumiço de emendas parlamentares em obras suspeitas, CPIs flamejantes no Congresso, infiltração do crime organizado no poder público e no mercado financeiro colocam o Brasil em um cenário que tem fomentado um clima antissistema entre a população em pleno ano eleitoral. Fatores que estão conjugados com a crise de confiabilidade e imagem sem precedentes no Supremo Tribunal Federal (STF), com a revelação das relações dos ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes com o ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro.
Se por um lado os indicadores macroeconômicos apresentam resiliência, por outro, o sentimento de “fadiga institucional” parece ter transbordado das bolhas digitais para o eleitorado médio. A mais recente sondagem de intenção de voto do instituto de pesquisa Genial/Quaest, divulgada no último dia 11, acompanha a tendência vista recentemente em pesquisas de outros institutos e sugere que a insatisfação dos eleitores com a percepção de corrupção institucional generalizada começa a ganhar contornos de uma insurgência silenciosa contra “tudo o que está aí”.
A situação, até o momento, parece beneficiar o principal nome da oposição dentre os pré-candidatos à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (PL), e acrescentar desafios adicionais para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma parcela crescente do eleitorado — incluindo setores que o apoiaram em 2022 — demonstra sinais de saturação com o que percebem como uma contaminação institucional generalizada em Brasília.
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Pesquisa eleitoral indica empate entre Lula e Flávio na preferência do eleitor
Pela primeira vez, a simulação de segundo turno da pesquisa eleitoral mostra um empate numérico de 41% x 41% entre Lula e Flávio. No último mês, a diferença de 5 pontos que favorecia o atual presidente desapareceu, ressalta a Quaest.
Desde que foi lançado pelo pai, Flávio conseguiu monopolizar o eleitor apoiador de Jair Bolsonaro (indo de 76% para 92% de conversão) e cresceu fortemente entre eleitores de direita (de 45% para 71%). Além disso, Lula assumiu protagonismo contra Lula ao quase dobrar seu desempenho entre o eleitor que se considera independente, subindo de 11% para 21% de conversão, aponta a Quaest.
A pesquisa traz outra notícia ruim para o governo Lula: aponta que o “medo” está mudando de lado: 43% dos entrevistados responderam que têm medo da continuidade do governo atual, enquanto 42% temem a volta da família Bolsonaro ao comando do país. Ademais, a corrupção saltou para o posto de segunda maior preocupação nacional (20%), atrás apenas da violência (27%) — outro fator que atua contra o status quo de quem está à frente do governo federal no momento do recorte.
Em cinco dos sete cenários estimulados de primeiro turno para presidente, o petista aparece empatado tecnicamente com Flávio Bolsonaro dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais. Lula só lidera fora da margem em dois cenários: quando os governadores Ratinho Junior (PR) ou Ronaldo Caiado (GO) aparecem como candidato do PSD na disputa.
No cenário com Ratinho Junior, Lula tem 37% das intenções de voto, contra 30% de Flávio Bolsonaro. Ratinho Junior registra 7%, enquanto o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), aparece com 3%, ambos tecnicamente empatados dentro da margem de erro. No cenário com Caiado, Lula marca 39% e Flávio Bolsonaro, 32%. Caiado aparece com 4% e Zema com 2%, também empatados dentro da margem de erro.
Esta pesquisa eleitoral da Quaest entrevistou 2.004 pessoas entre os dias 6 e 9 de março, e foi contratada pelo Banco Genial S.A. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95% (registro no TSE nº BR-05809/2026).
Cansaço com a política se reflete na pesquisa eleitoral
“O que começa a aparecer nas pesquisas é mais um cansaço com a política, algo que o Brasil vem vivendo há alguns anos”, afirma o cientista político Samuel Oliveira. “A sequência de crises institucionais como disputas entre Poderes, CPI, investigações, tensões entre Congresso, STF e governo, acaba sendo percebida pelo eleitor como um único pacote de desordem política“, diz ele.
Nesse ambiente, Oliveira observa que o presidente da República inevitavelmente absorve parte do desgaste. “Ele é visto como a principal autoridade do país, mesmo quando os problemas não nascem diretamente no governo federal”.
Para Oliveira, esse fenômeno também precisa ser lido dentro da polarização política que marca o Brasil desde meados da década passada, algo que não é exclusivo do Brasil. “Democracias no mundo vêm enfrentando ciclos semelhantes de tensão permanente entre campos políticos opostos. Nesse contexto, qualquer crise institucional tende a ser amplificada porque cada lado interpreta os fatos como prova de que o outro representa um problema estrutural para o país”, avalia o cientista político.
Clima antissistema tem potencial de beneficiar a oposição nas eleições
“No caso de Flávio Bolsonaro, existe um paradoxo. Ele se beneficia de uma parte desse ambiente porque seu sobrenome mobiliza um eleitorado que se identifica com a ideia de enfrentamento ao sistema político. Por outro lado, ele carrega também os passivos da própria família e do período em que o pai esteve no poder”, pontua Oliveira.
Na visão dele, Flávio Bolsonaro pode canalizar o sentimento de oposição ao governo atual. E faz uma observação relevante: pesquisas eleitorais são voláteis e capturam o humor político do momento, não o desfecho da eleição.
“O eleitor brasileiro costuma reagir muito rapidamente às condições econômicas. Se houver melhora perceptível em emprego, renda, inflação ou custo de vida e segurança, o ambiente político pode mudar de forma significativa”, acredita Oliveira, mantendo em perspectiva que, em eleições anteriores, mudanças no cenário econômico alteraram percepções de governo e intenção de voto no Brasil.
“Por isso, o que as pesquisas indicam agora pode ser menos uma consolidação de tendência e mais um sinal de que o eleitor está mais impaciente e sensível ao contexto político atual, e esse é o dado mais importante, algo que ainda pode se transformar dependendo da evolução da própria política e do clima institucional”, afirma.
Fonte: Gazeta do Povo



