A liberação de fazendas para a criação de salmão, um dos peixes mais queridos pelos brasileiros, pode trazer danos para um famoso destino turístico apelidado de “Fim do mundo“.
No final de 2025, em uma votação apertada (8 a 7), parlamentares da província de Terra do Fogo, na Argentina — região mais ao sul da América do Sul —, decidiram por autorizar a produção industrial de salmão. A lei deveria ser regulamentada pelo governo provincial até este domingo, 15.
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Ecossistema intacto
O que chama atenção é o fato de o local ser conhecido mundialmente pelos seus ecossistemas praticamente intactos. A região se destaca ainda pela sua vida selvagem, com a presença de animais como leões-marinhos, golfinhos e baleias-francas-austrais que utilizam o local como rota migratória.
Além disso, aves como albatrozes, corvos-marinhos e pinguins usam o mar para se alimentar e se reproduzir. No entanto, a aprovação da lei pelos parlamentares pode fazer com que esse equilíbrio natural fique sob ameaça.
Contradição
Outro fato que salta aos olhos dos que acompanham o assunto de perto é que, em 2021, foi aprovada uma lei com efeito oposto: a proibição da criação de salmão na Terra do Fogo. À época, a legisladora Mónica Urquiza, do Movimento Popular Fueguino, recebeu na sede da Câmara cidadãos e ativistas que apoiaram a medida.
Atualmente, Urquiza é presidente da Câmara Legislativa local e teria mudado de postura, impedindo a entrada da população para o debate. “Parlamentares que até sexta-feira passada se diziam contrários ao projeto votaram a favor”, afirmam pesquisadores ligados ao tema polêmico.
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O que dizia a lei anterior?
A lei anterior permitia a produção de salmão apenas em pequena escala, com limite de 50 toneladas por ano por fazenda. Com a nova lei, não há limite. A atividade fica proibida apenas no Canal de Beagle, que separa a ilha principal, ao norte, das ilhas menores ao sul.
O governador Gustavo Melella, do partido de esquerda Forja, segundo o Nexo Jornal, foi quem apresentou uma emenda para liberar a atividade, embora anos antes tenha apoiado a proibição das fazendas de salmão. Em entrevista em 2021, ele afirmou que a província não deveria introduzir novas espécies e alertou que, se algo desse errado como no Chile, o desastre seria irreparável.
Promessas
Como justificativa para a agora aprovação do projeto está a promessa de crescimento econômico e geração de pelo menos quatro mil empregos — a Argentina enfrenta uma crise econômica prolongada, marcada por inflação elevada, instabilidade monetária e aumento da pobreza.
No entanto, especialistas apontam que a mudança de posição do governo pode estar ligada à eliminação das tarifas de importação sobre produtos eletrônicos — medida federal introduzida em maio de 2025 que afetou essa indústria da Terra do Fogo e, segundo estimativas, pode resultar na perda de quase um terço dos mais de dois mil empregos do setor na província.
Salmão está no centro de uma polêmica que pode trazer danos a destino turístico
Impactos ambientais
Introduzido no Chile há mais de um século, o salmão — nativo do hemisfério norte — vem sendo responsável por diversos impactos ambientais, especialmente pelo fato de ele ser carnívoro e se alimentar de peixes nativos.
Conforme biólogos, cerca de 70% dos peixes nativos do Chile enfrentam problemas de conservação. O temor é que esse cenário passe a ocorrer também na Argentina.
O Fórum para a Conservação do Mar Patagônico (FMP), que reúne 30 organizações de Argentina, Chile, Brasil e Uruguai, lista outros impactos da criação de salmão:
- Fuga de peixes que prejudicam a fauna local;
- Acúmulo de resíduos que reduzem o oxigênio da água e aumentam a proliferação de algas nocivas;
- Uso intensivo de antibióticos, associado ao surgimento de bactérias resistentes em humanos
Fiscalização
A nova lei determina que o governo provincial realize uma avaliação ambiental para definir as áreas adequadas à criação de salmão e exige que cada fazenda apresente seu próprio estudo de impacto ambiental.
A aplicação da norma caberá às secretarias de Pesca e Aquicultura e de Meio Ambiente.
Contudo, alguns cientistas e ambientalistas duvidam que o governo local consiga monitorar as fazendas. O temor é de que essa responsabilidade dividida entre duas entidades provoque conflito entre interesses econômicos e ambientais.
Fonte: A Tarde



