quinta-feira, março 5, 2026
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Mostra de cinema chega a Salvador com seleção de filmes raros

Sarah Maldoror (1929 – 2020) é uma das grandes cineastas desbravadoras, não apenas pela sua condição feminina, mas por ser uma das primeiras mulheres a filmar em solo africano.

Apesar de nascida na França, de pai guadalupense e mãe francesa, seu cinema está intimamente ligado ao Pan-africanismo, o que a coloca como uma das pioneiras dos cinemas africanos.

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Depois de passar por São Paulo e Rio de Janeiro, é a vez da Mostra Sarah Maldoror aportar em Salvador. O projeto é do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e terá lugar na Sala Walter da Silveira, uma vez que a sede da instituição ainda não está pronta. Toda a programação é gratuita.

O evento começa hoje e segue até o dia 24 de março, de terça-feira a sábado. Além das exibições dos filmes em cópias restauradas, haverá uma série de atividades formativas, com debates, cursos e uma leitura dramática.

“A Sarah está nesse trânsito entre a Europa, o continente africano e o Caribe. Mas sua identidade é também questionada em muitos desses lugares. E isso acaba aparecendo na sua própria produção pelos interesses que ela vai cultivar de formas muito variadas”, pontuou Izabel de Fátima Cruz Melo, uma das curadoras da Mostra e professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

Aliás, quando Melo assistiu, em 2016, ao curta Monangambé (1968), de Maldoror, em uma mostra de cinema em São Paulo organizada pela pesquisadora Lúcia Monteiro, ela logo associou o filme ao curta Alma do Olho, do pioneiro do cinema negro no Brasil, Zózimo Bulbul (1937 – 2013).

Ali nascia o gérmen da mostra que chega agora ao CCBB, uma esforço conjunto de Melo, Monteiro, mais a inclusão de Letícia Santinon como curadoras. Na abertura, hoje às 18h, serão exibidos justamente os dois curtas citados, mais o longa-metragem Sambizanga (1973), um dos principais filmes de Maldoror.

O longa acompanha o calvário da esposa de um membro do movimento de libertação de Angola em busca do marido depois que ele é preso. Com esse filme, Maldoror colocou em evidência as lutas anticoloniais na África, a partir da experiência angolana, engajando-se no Pan-africanismo.

Mãe do cinema africano

A curadora Lúcia Monteiro também conversou com A TARDE e destacou a diversidade da produção de Maldoror. “Ela foi uma mulher com uma vida longa e muito bem aproveitada. Morreu com 91 anos [em 2020, vítima da covid-19]. Chegou a Paris com 20 anos, foi trabalhar com teatro, depois estudou cinema, se envolveu na militância anticolonial”, explicou a curadora.

“Ela fez ficções, documentários, reportagens para a TV e teria feito muito mais se tivesse tido mais financiamento e reconhecimento. Então essa mostra tem o papel de ampliar nossa concepção de quem foi Sarah Maldoror”, arrematou.

Há, na programação, filmes de ficção que a diretora fez para a televisão francesa, como é o caso de Uma Sobremesa para Constance (1981), bem como O Hospital de Leningrado (1983), também filmado na França, além de uma série de curtas-metragens.

As festas populares aparecem em filmes como Carnaval no Sahel (1979) e Em Bissau, O Carnaval (1980). Ela teve uma grande proximidade com o pensador, poeta e político militante martinicano Aimé Césaire (1913 – 2008), sobre quem dirigiu dois médias-metragens que também estão na programação, além de outros curtas sobre pensadores e militantes da negritude.

As curadoras chamaram atenção para o importante papel das duas filhas de Maldoror no trabalho de preservação e divulgação da obra da mãe. “Annouchka de Andrade e Henda Ducados possuem uma associação com o intuito de preservar esse legado, não só dos filmes, mas de uma série de documentos que ela deixou. Elas têm uma presença muito ativa nesse processo e nos ajudou bastante a acessar as cópias dos filmes”, disse Melo.

Olhar ampliado

Ao todo, a mostra traz 19 filmes dirigidos por Maldoror e outras 14 produções entre aquelas em que ela trabalhou como assistente de direção, e também filmes de outros cineastas que, de alguma forma, dialogam com a obra e o pensamento da cineasta.

No primeiro caso, destaca-se A Batalha de Argel (1966), do cineasta italiano Gillo Potencorvo, sobre as lutas anticoloniais na Argélia, que contou com a assistência de Maldoror. Ela também ajudou o cineasta Ahmed Lallem a dialogar com mulheres argelinas no pós-independência para o filme Elas (1966).

Já no segundo “grupo” de produções, destaca-se o diálogo feito com a filmografia da cineasta cubana Sara Gómez, que aparece na programação com três curtas-metragens que investigam questões sociais em paisagens do interior da ilha de Cuba.

Completam a programação da Mostra, diversas atividades de discussão e formação em torno da obra de Maldoror. Já na próxima sexta, haverá a leitura dramática de um roteiro não filmado pela cineasta chamado As Garotinhas e a Morte, conduzido pela cineasta baiana Safira Moreira, em parceria com os artistas Jamile Cazumbá e Nyron Higor.

A filha de Sarah, Annouchka de Andrade, estará presente em Salvador e participará de um debate sobre a relação de Maldoror com os cineastas africanos, junto com a professora da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Amaranta César, no próximo sábado.

Já os pesquisadores Nathanaël Arnould, Debora Butruce, Eduardo Morettin e Marcelo Ribeiro vão conduzir o “Curso de Preservação – Restaurar arquivos em vídeo da televisão”, na próxima terça-feira.

Retrospectiva: “O Cinema anticolonial de Sarah Maldoror”

  • Data: 5 a 24 de março
  • Local: Sala Walter da Silveira (Rua General Labatut, 27 – Barris)
  • Entrada Gratuita: Ingressos disponíveis na bilheteria
  • Classificação indicativa: Consultar a classificação indicativa de cada sessão no site do CCBB



Fonte: A Tarde

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