domingo, março 1, 2026
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“Prevejo uma Páscoa mais cara e com ovos menores”, diz empresário

Empresário Marco Lessa, CEO da MVU Empreendimentos –

O empresário Marco Lessa pode ajudar a entender por que o chocolate de sempre anda mais caro nas prateleiras. Baiano de Guanambi, CEO da MVU Empreendimentos e criador do Chocolat Festival e do Origem Week, ele é um dos responsáveis por reposicionar o cacau brasileiro no mercado global. Marco explica que problemas climáticos na África, principal polo produtor da fruta, fizeram o preço da amêndoa quadruplicar desde o ano passado, o que impactou a indústria e o bolso do consumidor final. O Brasil, mesmo sendo produtor, é deficitário e ainda importa parte do cacau que consome. O resultado, de acordo com Marco, é uma Páscoa mais cara e com produtos menores. “O ovo de 1 kg vai virar 500g, o de 500g vai virar 300 g”, prevê. Marco desembarca em Salvador para o The Cake Class Experience, dias 19 e 20 de março, no Wish Hotel da Bahia, evento que discute inovação, empreendedorismo feminino e o futuro da confeitaria. Para ele, apesar da alta, há um caminho sem volta: “A partir do momento que uma pessoa consome chocolate de qualidade, com alto teor de cacau, há muita dificuldade de voltar para um chocolate comum de mercado”.

O preço do cacau disparou nos últimos meses. Como o cenário internacional desse ingrediente impacta o mercado brasileiro?

Tudo sobre Muito em primeira mão!

O cacau é uma commodity. Portanto, depende de fatores externos, alheios à vontade do produtor. Os principais produtores hoje estão na África, a produção depende de fatores climáticos e isso interfere naturalmente no preço e nessa oscilação. A África viveu problemas climáticos, produção baixa e lavouras antigas. Tudo isso impactou uma produção menor e um aumento do preço. No Brasil, a situação é muito peculiar. Vivemos em um país que, apesar de ser produtor, é deficitário na produção de cacau. Ou seja, ele produz menos do que consome, menos do que utiliza para mover as três principais indústrias de moagem do Brasil, que representam 95% da moagem brasileira. Por se tratar de uma commodity, não aproveitamos essa condição. E o que acontece? Compramos cacau da África que, muitas vezes, não tem a devida fiscalização. Naturalmente, quando se aumenta o preço do cacau pela commodity, o que vem acontecendo desde o ano passado, há um impacto lá na ponta, na entrega, em quem produz o chocolate, tanto no consumidor final quanto em quem transforma, em todos os aspectos.

No negócio do chocolate bean to bar, modelo de produção de chocolate em que a própria marca controla todas as etapas do processo, esse impacto é ainda maior?

Sim. Na minha composição de custo, o ingrediente mais importante quadruplicou de preço. Isso, claro, vai ser repassado e vai refletir para o consumidor. Mas essa análise não pode ser feita de maneira simplória, porque há vários aspectos envolvidos. Um pequeno produtor precisa de capital de giro para comprar cacau, fazer o chocolate e buscar seus clientes. A partir do momento em que eu aumento o pre&ccedi l;o, por mais que ele tenha um valor agregado, o cliente passa a não consumir da mesma forma. Naturalmente, ele não compra mais ou faz a opção por um produto mais barato, mesmo que de qualidade inferior.

O aumento dos produtos vai ter um impacto considerável no comportamento do consumidor nesta Páscoa?

Especialmente em um país de classe média, as pessoas costumam migrar para produtos mais baratos, consumir menos produtos ou versões menores. O ovo de 1 kg vai virar 500g, o de 500g vai virar 300g. A Páscoa tem uma particularidade: muitas vezes, o brinquedo que está dentro do ovo deixa o produto mais caro do que o próprio chocolate. É claro que a indústria vai ser criativa. Vão surgir mais ovos pel a metade recheados, vão ter outros ingredientes, vão ter ovos menores, uma embalagem diferente… tudo isso vai buscar um equilíbrio para que não interfira no preço. Eu prevejo uma Páscoa mais cara e com ovos menores, em que as pessoas vão migrar no perfil de consumo. Mas é importante salientar: a partir do momento que uma pessoa consome chocolate de qualidade, com alto teor de cacau, há muita dificuldade de voltar para um chocolate comum de mercado.

Eventos como o Chocolate Festival ou o Origem Week ajudam na educação de um novo paladar para o consumidor?

Sim. Se o cara está acostumado com um chocolate com alto teor de cacau, ele vai comprar menor, vai comprar menos, mas vai migrar dentro da mesma categoria. Agora, reduzir drasticamente a qualidade ou mudar o hábito, eu acho muito difícil. Eu comecei a construir meus projetos em um dos momentos mais críticos da história do cacau brasileiro, com a vassoura-de-bruxa, no sul da Bahia. Eu tenho certeza de que aquele cenário de crise me ajudou a moldar essa visão de transformar o cacau em algo além de uma commodi ty. Eu nasci no sertão, em Guanambi, passei 15 anos da minha vida lá e me mudei para Ilhéus aos 18 anos, sem nenhum contato com cacau. Mas a consciência do impacto da praga nas lavouras foi uma motivação. Eu me perguntava de que forma a gente poderia ajudar e fazer com que essa região se transformasse. Isso se somou a um questionamento muito óbvio: por que nós só produzimos a matéria-prima? Por que não consumimos e não produzimos o produto final, o produto industrializado?

Quantos anos você tinha quando produziu o primeiro festival?

Tinha 22 anos. Eu me debrucei sobre o projeto, pesquisando. Fui a Gramado, São Paulo… Fui a alguns lugares que tradicionalmente produzem e consomem muito chocolate. Observei que tínhamos uma escola europeia de produção, ou seja, um chocolate com muito leite e açúcar, portanto com percentual muito baixo de cacau. A legislação sofreu alteração quando aconteceu a crise da vassoura-de-bruxa, reduzindo o mínimo de 35% para 25%. E isso também provocou uma reflexão em mim. Eu precisava aumentar o percentual de cacau no chocolate para fazer justiça à própria condição de matéria-prima principal. Não faz sentido o cacau ser a matéria principal de um produto em que predomina o açúcar. Aprofundando mais sobre esse tema, eu reconheci o cacau como símbolo da sustentabilidade do Brasil. Ele preserva o meio ambiente, na forma de plantio e de produção. Tem um impacto social muito grande: no Brasil, são cerca de 100 mil pessoas envolvidas; na região, eram 30 mil. É um produto de grande aceitação. O cacau é um superalimento, um dos mais completos que existem. Tem mil vezes mais antioxidantes do que o açaí e 25 vezes mais do que a uva. E ele nunca foi tratado dessa maneira. A indústria sempre o tratou como a matéria-prima necessária para alimentar esse negócio gigante do mundo que se chama chocolate.

O Origem Week tem o objetivo de se conectar com empreendedores do ramo da confeitaria?

Sim. Nossa intenção com esse projeto surgiu quando percebemos também o crescimento significativo do empreendedorismo nesse segmento da gastronomia. Eu entendi que precisávamos fazer um evento que não ficasse apenas ensinando receita. Receita você encontra na internet, compra em livro. Eu queria trazer pessoas que viveram uma jornada dentro desse segmento, em espetáculos distintos, com produtos diferentes, em loc ais diferentes, e que são bem-sucedidas para que contassem um pouco das suas histórias, dessem dicas e ajudassem esses empreendedores. Que os buscassem pelas mãos e os trouxessem para uma realidade que contribuísse para o seu desenvolvimento como empreendedor, como pessoa, como profissional. Mostrar que esse talento precisa ser canalizado dessa forma, para abreviar o tempo entre o sonho e a realização. Mais do que revelar os segredos de uma receita, a proposta é compartilhar a jornada de sucesso. Muitas dessas confeiteiras começaram como a maioria inicia: fazendo doce em casa, vendendo de porta em porta, fazendo um bolinho, um brigadeiro, descobrindo seu talento, preparando uma sobremesa elogiada por todos e, então, decidindo empreender. Naturalmente, as pessoas que são apaixonadas por gastronomia e confeitaria vão querer estar lá, tirar dúvidas, receber dicas e informações. Essa é a ideia. É um projeto que começa em Salvador, com a intenção de percorrer o Brasil nos próximos meses e anos, sempre trazendo conteúdo técnico, mas de forma muito especial. É importante compartilhar conteúdo de motivação e histórias que traduzam os anseios e os sonhos das pessoas que vão assistir.



Fonte: A Tarde

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