domingo, março 1, 2026
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O pior medo da humanidade

Entre todos os grandes medos que assolam a humanidade, apenas um é capaz de superar o da morte: o pavor da barata. Os maiores filósofos, certamente, já levantaram essa questão existencial e estão aí para comprovar – só não me pergunte quem ou onde, isso não importa. A verdade é que quase nada é pior do que se deparar com o tal inseto asqueroso à sua frente… e se t iver asas, bem, então nada é pior mesmo.

Ok, talvez isso valha mais para as mulheres do que para os homens, é verdade. Pela minha pesquisa meramente especulativa, sem qualquer base substancial, 90% de nós mulheres têm medo de barata. Os outros 10% afirmam não ter receio, mas têm nojo, o que acaba dando quase no mesmo. Que me desculpe a luta pela igualdade dos sexos, mas os homens não deveriam ter direito a esse medo; deles não espero nada menos do que matar baratas.

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Aí está outro problema: a maioria não sabe exterminá-las de verdade. Muitas vezes não é nem falta de boa vontade. O que acontece é que o bicho é ardiloso. Baratas são seres fingidos, excelentes atrizes, eu ousaria dizer. Experimente dar uma pisada nela pra você ver. Ela até vai parecer esmagada, mas se esconda e fique só observando. Quando você menos esperar, ela vai sair andando como se nada tivesse acontecido. Portanto, minha regra é: jamais confie em uma barata, especialmente se lhe parecer morta.

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Anos de observação e muitos gritos depois, eu falo isso com total conhecimento de causa. Jamais matei uma, mas treinei meu marido para matar bem matada. Ele faz questão de me mostrar o que resta da dita cuja só para eu comprovar a missão cumprida. Não sossegaria se não tivesse essa certeza, afinal. E não só isso: ele aprendeu também a identificar o odor característico que antecede a presença indesejada. Meu faro não erra, e o dele agora também não.

Veja bem, não sou totalmente dependente do meu marido assim – ainda que eu já tenha esperado mais de uma hora em cima da mesa da cozinha até ele voltar do trabalho. Também já apelei diversas vezes para um amigo que morava perto de mim, chamei meu pai, acionei grupo de amigas que vieram ao meu socorro e até já parei o namorado de uma vizinha que passava pela minha porta, pedindo, por gentileza e piedade, q ue entrasse em meu apartamento para aniquilar o bicho. Basicamente, dependo de qualquer um que consiga matar uma barata pra mim.

Enquanto seres humanos normais se fazem as grandes perguntas existenciais do sentido da vida, eu apenas questiono: por que cargas d’água existem as baratas, meu Deus?! Aposto que o mundo seria melhor e até mais pacífico sem elas, nem que fosse um pouquinho. Desconfio que seja alguma forma de punição que persegue a humanidade desde o “pecado original”, ou coisa parecida, só pode.

Tudo bem, eu sei que é um medo irracional e normalmente passado de geração em geração, ou seja, de mãe pra filha. Foi o meu caso, pelo menos. Eu dava risada, quando era criança, dos sustos que minha mãe levava, até o dia em que uma voadora pousou na minha perna. A cena do trauma está gravada, mas ainda não foi resolvida. “Pense bem, o que, de concreto, ela poderia fazer com você?”, alguém pergunta. Não sei. Mas não sou eu que vou pagar pra ver.

*Luisa Sá Lasserre é autora do livro de crônicas “Pensei, mas não disse” (Ed. Patuá)



Fonte: A Tarde

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