Morro de São Paulo é destino certo para israelenses de férias –
Um episódio envolvendo o furto de uma bandeira da Palestina, no último dia 12, colocou em evidência tensões políticas e culturais em Morro de São Paulo, destino turístico do município de Cairu, no baixo sul da Bahia. A ativista Lisi Proença, que visitava o local, afirmou ter sido hostilizada por dois moradores da ilha ao caminhar pela vila com o símbolo palestino.
Segundo ela, os homens teriam agido em defesa de turistas israelenses que passam férias na localidade. A segunda praia, onde aconteceu o ataque, é considerado como reduto desses visitantes. Israel e Palestina estão em conflito desde que o Estado de Israel foi criado em 1948, fato que provocou guerras e o deslocamento de muitos palestinos. Apesar de tentativas de paz, como os Acordos de Oslo, a disputa permanece até hoje marcado por disputas territoriais e muita violência.
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Segundo a ativista, apesar de ter percebido alguns olhares hostis, a situação seguia tranquila, inclusive, até houve quem pedisse para tirar fotos com a bandeira. Nesse momento, um homem se aproximou dizendo que também gostaria de tirar uma foto, porém, ao pegar a bandeira, ele a arrancou do mastro e foi embora caminhando.
“Eu estava indo para uma atividade em uma rua de Morro de São Paulo e minha amiga me levou para passear e conhecer as praias. Estava carregando minha bandeira da Palestina, estava com uma blusa escrito Free Palestine, sempre estou com coisas da Palestina, o lenço que coloco no pescoço. E, quando eu estava passando por lá, uma menina pediu pra tirar foto com a bandeira, eu passei para ela. Aí veio um moço e pediu pra tirar foto também, quando dei a ele, arrancou a bandeira do mastro e saiu andando”, relata Lisi, lembrando que foi atrás do suspeito na tentativa te retomar o pertence, em vão.
Ainda conforme ela, logo após furtar o objeto, o suspeito o entregou para outro homem. “Fui atrás dele, pedi que ele me devolvesse, gravei tudo para a minha segurança também. Ele disse que não ia me devolver, entregou pra um outro amigo dele, depois eles foram até o meio dos soldados israelenses que estavam lá tirando férias na beira da praia e ficou lá sentado com a minha bandeira e disse que não ia me devolver”, completou.
Lisi contou ainda que, diante da recusa da dupla, precisou chamar guardas municipais que estavam na praia. Segundo ela, o homem que estava com a bandeira se negou a devolvê-la, mesmo após a solicitação dos agentes. Por isso, os guardas decidiram levá-lo à delegacia. No entanto, durante o trajeto, já distante dos israelenses, ele acabou devolvendo o objeto.
“No caminho para a delegacia, quando a gente já tinha saído do campo de visão dos israelenses, esse rapaz, amigo do que tinha me furtado, devolveu a minha bandeira para o policial, que me entregou. E aí ele [guarda civil municipal] perguntou: ‘você ainda quer registrar o crime?’ Eu falei que sim. Então, eu fui até a estação policial e, quando a gente chegou lá, a delegacia estava fechada. Então, eu não pude registrar a queixa. Está sem registro”, afirmou a ativista, revelando que, após o episódio, os envolvidos foram até a feira onde sua amiga trabalha e provocado confusão. “Eles ficaram lá xingando a menina que trabalha na mesma banquinha da feira que ela [amiga].
A ativista afirma que os dois responsáveis pelo furto são brasileiros. “São dois brasileiros. Um deles trabalha numa agência de turismo, que vende passeios. O outro menino, para quem, esse menino, que me furtou entregou a bandeira, acho que é um cara muito amigo dos israelenses, estava lá junto com eles”, declarou.
Apesar do ocorrido, Lisi diz que não se sente insegura no destino, mas aponta mudanças no perfil da vila. “Eu me sinto segura dentro de Morro de São Paulo, sim. Eu acho muito estranho uma praia totalmente descaracterizada de Bahia. Você chega lá, os cardápios em hebraico, uma coisa muito estranha”, concluiu a jovem.
Transformação no perfil turístico
A presença massiva de jovens israelenses em Morro de São Paulo se intensificou a partir de 2013, após a exibição da série Malabi Express, inspirada no livro autobiográfico do comediante israelense Miki Geva. A produção retrata a viagem de amigos ao Brasil após o serviço militar obrigatório e tornou a vila baiana um destino popular entre jovens recém-licenciados das Forças Armadas de Israel.
Em 2024, mais da metade dos turistas estrangeiros no local seriam israelenses. A mudança impactou a economia e a cultura da comunidade, que fica localizada na Ilha de Tinharé, com estabelecimentos adaptando cardápios para o hebraico e ampliando serviços voltados a esse público.
Os relatos da população revelam opiniões divergentes sobre o fenômeno. De um lado, comerciantes afirmam que houve crescimento nas vendas e maior movimentação financeira. De outro, publicações nas redes sociais mostram insatisfação de alguns moradores, que reclamam da conduta de determinados grupos de visitantes.
Enquadramento jurídico
Para o professor de Direito Constitucional da Ufba, Unifacs e Baiana, Miguel Calmon Dantas, doutor em Direito Público, advogado e procurador do Estado, a situação pode envolver diferentes tipificações legais, a depender das circunstâncias. Segundo ele, a situação pode ser tratada tanto como crime patrimonial quanto, eventualmente, como prática discriminatória.
A lei de racismo tipifica crimes que abrangem condutas discriminatórias e/ou preconceituosas em razão da etnia e nacionalidade: se caracterizada alguma conduta que se enquadre em algum dos tipos, pode ser crime de racismo,
Ele ressaltou ainda que divergências políticas não justificam violência. “A divergência política ou ideológica é livre numa sociedade democrática e não pode ser enfrentada por violência e nem ofensas”, explicou ele pontuando que “se a violação à liberdade de expressão de outra pessoa ocorrer com ofensas, ameaça ou agressão, haverá crime”.
Reflexos internacionais e polarização
O professor e advogado especialista em Direito Internacional, Zilan Costa e Silva, avalia que o conflito entre Israel e Palestina não representa risco militar direto ao Brasil, mas pode gerar impactos sociais internos.
“O risco mais sensível está no plano interno, na importação simbólica do conflito para uma sociedade já polarizada. Episódios como o furto de uma bandeira palestina em espaço público não configuram incidente internacional, mas revelam como disputas externas podem ser convertidas em antagonismos identitários domésticos”, afirmou.
O professor e advogado especialista em Direito Internacional, Zilan Costa e Silva, avalia que o conflito entre Israel e Palestina não representa risco militar direto ao Brasil, mas pode gerar impactos sociais internos
Ainda segundo o professor Zilan, o cenário exige cautela institucional e responsabilidade no debate público. Para ele,
o perigo reside na radicalização discursiva, na transformação de símbolos em marcadores de inimigo e na erosão da convivência civil. Em contextos de alta polarização, pequenos atos ganham dimensão desproporcional, alimentados por redes sociais e narrativas políticas. A resposta institucional adequada é reafirmar o primado do Estado de Direito, a liberdade de expressão dentro dos limites legais e a neutralidade estatal perante conflitos externos, evitando que paixões geopolíticas corroam a estabilidade interna.
Nota da Prefeitura
Em nota, a Prefeitura de Cairu informou que, ao tomar conhecimento do ocorrido, acionou a Guarda Civil Municipal para intervir e garantir a ordem no local, reforçando o compromisso com a convivência pacífica e a segurança de moradores e visitantes.
“A Prefeitura de Cairu informa que, ao tomar conhecimento do ocorrido no último dia 12, em Morro de São Paulo, adotou as medidas cabíveis dentro de sua competência. A Guarda Civil Municipal foi acionada para intervir e garantir a ordem no local, atuando de forma preventiva para evitar o agravamento da situação. O Município reforça seu compromisso com a convivência pacífica, o respeito às diferenças e a segurança de moradores e visitantes. Morro de São Paulo se consolida como um dos destinos mais seguros do Brasil, reconhecido pela hospitalidade, diversidade cultural e acolhimento”, diz a nota.
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Autoridades
A reportagem procurou a Polícia Civil e a Polícia Militar da Bahia para esclarecimentos sobre o caso. Por meio da assessoria de comunicação, a Polícia Civil informou que o incidente, ocorrido em 12 de fevereiro durante uma manifestação, na Praça Santo Antônio, envolveu a subtração temporária de uma bandeira, que posteriormente foi devolvida, e que as partes foram conduzidas pela Guarda Civil Municipal para esclarecimentos. A instituição destacou que, apesar da devolução do objeto, ainda é possível formalizar o registro de ocorrência para apuração dos fatos, o que não foi feito até o momento.
Nota da Polícia Civil
“A Polícia Civil da Bahia informa que tomou conhecimento do fato ocorrido em 12 de fevereiro, durante manifestação na Praça Santo Antônio, em Morro de São Paulo, município de Cairu. De forma preliminar, foi registrada a subtração momentânea de uma bandeira, posteriormente devolvida, tendo as partes sido conduzidas pela Guarda Civil Municipal para esclarecimentos.
A instituição esclarece que, mesmo com a devolução do objeto, é possível formalizar registro de ocorrência para apuração dos fatos, o que não ocorreu até o momento. Ressalta ainda que o registro pode ser feito presencialmente na unidade, em horário administrativo, ou por meio da Delegacia Virtual e do Plantão Central em Valença.
A Polícia Civil permanece à disposição para adoção das providências cabíveis, mediante a formalização da ocorrência”.
Já a Polícia Militar, que também foi procurada, não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço permanece aberto para eventual posicionamento.
Fonte: A Tarde



