Clube do Livro Orí lança jornada inédita pelo épico de Ana Maria Gonçalves –
Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, publicado em 2006, ocupa um lugar central na literatura brasileira contemporânea. A obra, que inspirou o enredo da Portela no Carnaval de 2024, reconstrói a história do Brasil a partir da experiência de Kehinde, mulher negra africana trazida à força para o país durante o período escravocrata. Apesar da relevância, a extensão do livro costuma afastar leitores com rotinas mais corridas.
É justamente para enfrentar esse desafio que surge o Travessias do Orí, projeto baiano que propõe um percurso coletivo de leitura, com mediação e acompanhamento contínuos, pensado para sustentar a leitura de Um Defeito de Cor ao longo do tempo. A iniciativa aposta na leitura compartilhada como estratégia para tornar a experiência mais acessível, profunda e estimulante.
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Realizado em formato on-line, o Travessias do Orí organiza a leitura a partir de um cronograma estruturado, com encontros de mediação e espaços de escuta e troca entre os participantes.
Ao todo, serão oito encontros, realizados entre 5 de março e 18 de junho, alternando datas quinzenais, em média, aos sábados, às 10h30, e às quintas-feiras, às 19h30. O valor para participação em todo o percurso é de R$ 89,90, com acesso a todos os encontros e materiais do projeto.
“As escolhas de mediação, o tempo dedicado à leitura e os encontros existem para sustentar esse processo”, explica a idealizadora e mediadora Thaiane Machado.
Segundo ela, a proposta não é oferecer resumos ou explicações fechadas sobre o livro, mas criar condições para uma leitura aprofundada, coletiva e responsável, fortalecendo a formação leitora e ampliando a compreensão histórica e social da obra.
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Origem do ‘Travessias’
O Travessias do Orí nasce como um desdobramento do Clube Ori, coletivo de leitura criado por Thaiane Machado em julho de 2025.
Segundo a mediadora, ao longo da trajetória do clube, que realiza leituras mensais voltadas a obras que discutem diáspora africana, escravização e seus impactos na sociedade contemporânea, surgiu a necessidade de trabalhar um livro que dialogasse de forma mais direta com o território brasileiro e, especialmente, com Salvador.
Foi nesse contexto que Um Defeito de Cor se apresentou como escolha central. Pela extensão do romance, Thaiane explica que não seria possível inseri-lo na dinâmica regular do clube, o que motivou a criação de um projeto paralelo.
“Como é um livro muito extenso, a gente resolveu fazer um projeto à parte”, afirma, destacando que o nome Travessias do Orí surge da intenção de associar a leitura guiada às experiências presenciais que aprofundam os territórios retratados na narrativa.
A proposta, segundo ela, parte do desejo de evidenciar o quanto as histórias narradas por Ana Maria Gonçalves estão próximas da realidade local.
A leitura do romance, ambientado em espaços como a Baía de Todos-os-Santos e o centro histórico de Salvador, tornou-se um convite para refletir sobre a escravização e a diáspora não como eventos distantes, mas como processos que atravessam diretamente a história da cidade e da população negra até os dias de hoje.
Vivências fora das páginas
“Ler é viajar sem sair do lugar”, diz a frase célebre atribuída a Mario Quintana. No Travessias do Orí, porém, a leitura também se transforma em deslocamento físico. A proposta do projeto é justamente convidar o leitor a sair do lugar e experimentar os territórios que atravessam a narrativa de Um Defeito de Cor.
Como desdobramento do percurso de leitura, o projeto promove vivências presenciais em Salvador, ampliando a experiência leitora para além do espaço tradicional do livro. As atividades são independentes da leitura on-line, mas funcionam como extensões do processo formativo, aprofundando temas, paisagens e memórias acionados pelo romance.
A primeira delas, a ‘Travessia das Águas’, acontece na Ilha dos Frades, território diretamente ligado à narrativa. É pela Baía de Todos-os-Santos que Kehinde chega ao Brasil ainda jovem, após a travessia atlântica forçada.
O percurso pelo mar convida à reflexão sobre o oceano como espaço de violência, ruptura e sobrevivência, mas também como elemento estruturante da história contada no livro. A vivência será realizada no dia 1º de março, com saída do Terminal Náutico do Comércio, às 8h, ao custo de R$ 239,90.
Já a ‘Travessia da Memória’ propõe um deslocamento pelos territórios urbanos atravessados pela personagem ao longo da narrativa.
Locais como o Pelourinho, o Corredor da Vitória e o Campo Grande aparecem no romance como espaços de trabalho, circulação e resistência negra.
A atividade convida os participantes a lerem a cidade como território histórico, conectando a ficção literária às marcas urbanas que permanecem no presente. A vivência acontece no dia 18 de abril, com saída do Terreiro de Jesus, às 9h, pelo valor de R$ 149,90.
Segundo a idealizadora do projeto, o desejo de levar a leitura para fora dos espaços íntimos, como casas, bibliotecas e livrarias, acompanha sua trajetória como mediadora.
“A gente precisa expandir esses horizontes. Esses lugares existem, têm história, e o livro dialoga diretamente com eles. Não fazia sentido ler uma obra tão marcada por Salvador sem experimentar esses territórios”, afirma.
Para ela, as vivências presenciais não têm o objetivo de apenas ilustrar a narrativa do livro, mas de estabelecer uma interlocução direta com a história dos lugares e com a experiência de quem participa. “Esses encontros são uma forma de extrapolar a narrativa, mas também de nos enxergarmos dentro desses espaços, entendendo o quanto essas histórias estão próximas da nossa realidade”, destaca.
O conjunto das vivências é opcional e voltado a quem deseja ampliar a experiência leitora para além da página, reforçando o caráter contínuo do projeto e sua proposta de levar a literatura para fora dos espaços tradicionais.
As inscrições estão disponíveis no site www.oriclubedolivro.com.br.
Ao final do percurso, Thaiane evita criar expectativas fechadas sobre os efeitos da experiência, mas aponta um desejo central: que a leitura de Um Defeito de Cor desperte o interesse por outras literaturas afrocentradas.
“É uma oportunidade de ampliar repertórios, conhecer autoras e autores negros, brasileiros e da diáspora africana, e perceber o quanto essas histórias ainda dizem muito sobre quem somos hoje”, conclui.
Travessias do Orí – Leitura Guiada de “Um Defeito de Cor” / De 05 de março a 18 de junho, online (via Google Meets) / Encontros quinzenais, aos sábados às 10h30, às quintas-feiras, às 19h30 / R$ 89,90 / Vivências presenciais / Travessia das Águas (Ilha dos Frades): Dia 01/03 (domingo), Saída do Terminal Náutico (Comércio), às 08h (retorno à 16h) / Valor: R$ 239, 90 por pessoa / Travessia das Memórias (Centro de Salvador): 18/04 (sábado), Saída do Terreiro de Jesus (Pelourinho), às 09h / R$149,90 por pessoa / Ponto de encontro: Largo da Vitória – 09h; 2ª parada: Pelourinho (Terreiro de Jesus); 3ª parada: Campo Grande (Praça do Campo Grande) – 11h / Vendas On-line: oriclubedolivro.com.br / Informações pelo Whatsapp: (71) 99172 4578
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
Fonte: A Tarde



