domingo, fevereiro 22, 2026
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um dos maiores filmes de ação acaba de ganhar uma nova versão brasileira

Remake brasileiro de ‘Quarto do Pânico’ chegou ao streaming com um fôlego novo –

O cinema brasileiro tem pouca tradição na realização de thrillers policiais e muito menos em fazer refilmagens de filmes estrangeiros. Pois a cineasta Gabriela Amaral Almeida apostou nas duas coisas ao lançar Quarto do Pânico, remake do longa homônimo dirigido por David Fincher em 2002.

Depois de passar pelo Festival do Rio ano passado, o filme chega agora direto no streaming. Pertencente ao catálogo do Telecine, pode ser acessado também através da GloboPlay, do Prime Video Channels e de outras operadoras de video on demand.

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Baiana radicada em São Paulo, a cineasta tem uma sólida carreira ligada ao cinema de gênero e ao terror, tendo dirigido obras como A Sombra do Pai e O Animal Cordial. Diferente desses filmes mais autorais, no entanto, Quarto do Pânico é um projeto de encomenda que chegou à cineasta por convite da Floresta, empresa produtora ligada à Sony Pictures que detém os direitos comerciais do filme de Fincher.

Para a versão brasileira, o roteirista Fábio Mendes trabalhou não apenas com o longa original, mas também com três versões diferentes do roteiro enviadas pela Sony. A estrutura básica é a mesma, mas o roteirista e a diretora fizeram algumas alterações, não apenas para atualizar a trama para os dias atuais com o avanço da tecnologia, mas principalmente a fim de oferecer uma leitura brasileira para uma história de invasão domiciliar.

Na trama, uma mulher (Isis Valverde) desenvolve certa fobia social depois que seu marido é assassinado ao seu lado durante um assalto na estrada. Sozinha com a filha adolescente (vivida por Marianna Santos), elas se mudam para uma casa com pesado aparato hi-tech. O lugar tem até um quarto de segurança que serve como abrigo em caso de assalto.

E é para lá que mãe e filha vão quando a casa é invadida por três bandidos, um deles tendo construído o tal quarto que mais parece um bunker de aço. Eles buscam uma soma de dinheiro e joias, pertencentes ao antigo proprietário, que estão escondidos justamente no quarto onde elas se protegem.

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Medo no feminino

| Foto: Divulgação

Dentro do quarto secreto, elas estão protegidas por uma estrutura super rígida e conseguem ver os bandidos na casa através de câmeras de vigilância espalhadas pela propriedade. Mesmo assim, mãe e filha precisam lidar com a ameaça constante, uma vez que os bandidos tentam a todo custo invadir o quarto.

Tudo isso já estava lá no filme de David Fincher – que era protagonizado por Jodie Foster e uma jovem Kristen Stewart. Mas no novo longa, o olhar da diretora reforça as dimensões do medo e da insegurança que muitas mulheres encaram diante das violências patriarcais.

Uma primeira diferença está na própria premissa do filme atual, que foca em uma mulher que perdeu o marido para a violência das ruas, enquanto, no longa original, a protagonista é uma mulher divorciada cujo ex-marido a trocou por uma mais jovem. Ainda assim, é a este homem a quem elas buscam recorrer por ajuda.

No filme brasileiro, as personagens precisam tomar as rédeas da situação, na medida em que enfrentam o temor pela própria vida, enquanto tentam entender o que os bandidos querem. O pai da mãe e avô da menina aparece como uma figura de suporte, mas não é ele quem vai resolver a situação.

A relação entre mãe e filha é outro fator acentuado aqui, elemento que já é recorrente na obra pregressa de Gabriela. A filha adolescente, mais destemida que a mãe, tenta fazê-la ser mais corajosa e pró-ativa diante da situação limite, vencendo o temor que a mulher carrega desde a morte trágica do marido.

Com isso, o filme também faz um comentário sobre a paranoia social da segurança pública diante da violência das ruas, algo que é uma realidade muito mais marcante na sociedade brasileira do que nos Estados Unidos. A distância de classes sociais entre bandidos e vítimas é mais um ingrediente que complexifica as relações interpostas na trama.

Subtexto racial

Imagem ilustrativa da imagem Veja hoje: um dos maiores filmes de ação acaba de ganhar uma nova versão brasileira

| Foto: Divulgação

Outro ponto que não pode passar despercebido aqui é o diálogo com as questões de racialidade. Benito, o invasor que conhece os segredos do quarto porque trabalhou na sua feitura (interpretado por André Ramiro), é um homem negro. Ele não possui tendências violentas e só está fazendo aquilo porque precisa do dinheiro para pagar o tratamento médico do filho.

Diferente dele, Charly (Marcos Pigossi) possui comportamento mais arredio e violento, tendendo à psicopatia, enquanto Raul (Caco Ciocler) foi chamado por Charly sem Benito saber e é mais calado, observador. Os três possuem atitudes e pensamentos distintos, lidam de forma diferente com os contratempos daquela missão, mas todos querem o dinheiro.

Porém, vai ficando cada vez mais evidente que Benito se solidariza com as duas mulheres na medida em que ele não pretende machucá-las – por um erro de cálculo, a invasão deveria acontecer com a casa vazia, mas as duas se anteciparam ao ocupá-la.

Um detalhe importante é que o marido morto e pai da menina era também um homem negro. Em determinada cena, quando Benito confronta a garota adolescente, o processo de identificação entre eles se torna mais complexo do que uma simples relação mocinha/bandido.

Isso, é claro, não faz dele mais inocente que os demais, mas o filme aproveita para identificar nesses personagens certas humanidades que se reconfiguram diante das posições sociais assumidas por eles diante das circunstâncias. No fundo, Quarto do Pânico acaba fazendo uma pequena radiografia social do país a partir das instâncias da ganância, da sobrevivência e do medo.

Quarto do Pânico / Dir.: Gabriela Amaral Almeida / Com Isis Valverde, Marco Pigossi, André Ramiro, Marianna Santos, Caco Ciocler, Clarissa Kiste, Leopoldo Pacheco / Disponível no Telecine, Globoplay, Prime Video Channels e outras operadoras de video on demand



Fonte: A Tarde

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