domingo, fevereiro 22, 2026
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Amizades de 30 anos também acabam…e às vezes é libertador

A sabedoria dos carecas: entre o Umbral e as redes sociais –

Quando Chico Xavier publicou o livro Nosso Lar, em 1944, relatando as aventuras do desencarnado André Luiz – que dizem ser pseudônimo do cientista Carlos Chagas – muitos o consideraram loucura total, como se o bondoso e desengraçado mineiro tivesse se deliciado com LSD durante a psicografia.

Para quem não sabe, o romance descreve a vida no Além, na qual os espíritos, após sofrerem terríveis sofrimentos, caso os mereçam, nos Abismos da Terra e/ou numa região denominada Umbral, são transportados à tal colônia e tratados em hospitais. Ao receberem alta, vão morar em casas de família, comem, bebem água e sucos, namoram e se casam, sempre heterossexualmente. Trabalham em atividades diversas, recebendo “bônus-horas” que lhes permitem frequentar concertos e outros eventos culturais. A colônia de desencarnados é regida por diversos Ministérios, numa organização exemplar, apenas perturbada pelo tráfico de carboidratos e proteínas exercido por espíritos do Mal.

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A quem o questionava, Chico respondia: Você já esteve lá pra saber? Calava qualquer um, mas um atrevido argumentaria: se todos somos reencarnados, claro que sim! Perguntei a um querido amigo espírita se aquilo não era maluquice e obtive como resposta: “Na verdade, este mundo imita o espiritual”. E é?

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Ninguém acreditaria no tempo que perdi e sofri na vida, assombrada com as opiniões divergentes de cada boca. Se alguma coisa eu puder deixar de legado, é o conselho de que ninguém se deixe incomodar pelas diarreias orais alheias, inclusive as minhas. Diferentemente do que ocorre em Nosso Lar, nenhum encarnado se entende. E mesmo os desencarnados precisam lidar com máfias.

De Chico para o escritor Alain de Botton, ainda belo apesar de também ter perdido os cabelos: diz que se saísse com uma mulher e ela lhe dissesse ser de fácil convivência, imediatamente pularia fora, porque estava claro que essa pessoa não se conhecia. Concluí que a experiência de vida dele tem sido bem diversa da minha.

Não há dúvidas de que somos complicados, mas discordo do ilustre de Botton de que isso nos faça, necessariamente, pessoas de difícil convívio. No tocante a mim, o escritor sairia em disparada até o Umbral mais próximo, pois me considero e sou considerada uma criatura afável, não somente por quem convive ou já conviveu intimamente comigo mas também por vizinhos, colegas de trabalho e a população em geral. Conheço outras pessoas com essa mesma característica, por mim herdada da parte de mãe. Isso não significa a inexistência de eventuais conflitos e sim a real possibilidade de harmonia, ainda que imperfeita.

Por outro lado, já amarguei gente que implica com tudo e exige demais e de mais de todo mundo, sem conseguir se enxergar – portanto tirânica. Intolerante, dona da verdade e incapaz de se colocar na pele do outro. Essa trupe é de trato praticamente impossível, e imagino que Alain de Botton a colecione em número muito maior que eu.

Faz alguns meses, precisei me afastar de um ser com quem cultivei amizade durante 30 anos, porque a esta altura da vida não preciso de ninguém me declarando afeto enquanto lança mísseis em direção a minha testa. Eu era uma das poucas pessoas que lhe restavam – as mais espertas se escafederam há longo tempo.

Soube que se refere a mim nas redes como “ex-amiga insuficientemente letrada”, para uma plateia cada vez mais escassa. Minha instância consciente tá pouco se lixando, porém noite dessas tive pesadelos insistentes com ele, despertando assustada quando a fera avançava contra mim.

Quem se conhece, Mr. de Botton? Temo que você possa ter fugido de gente bem bacana, por levar fé em quem declara seus espinhos em nome de uma honestidade no mínimo nebulosa. Querendo impressionar, porque ser da paz parece incompatível com a natureza humana. Você é gato, e felinos costumam fazer aquele chiiii! quando se encontram com estranhos de sua espécie.

Fico é curtindo minhas horas a escrever. A partir de um determinado momento, reconheci ser este o meu papel, como um pedreiro por vocação cimenta um tijolo sobre o outro e constrói edifícios.

No mais, as crônicas que me acometem parecem, às vezes, vir de inspiração além de mim, entidades das quais ró-Ã é mera e feliz ferramenta, quem sabe produtos da peruca de Chico Xavier.

*ró-Ã é autora de Dor de facão & brevidades



Fonte: A Tarde

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