Seis dias de festa, de alegria e muita energia baiana marcaram o Carnaval de Salvador. A folia chegou ao fim, deixando um gostinho de quero mais aos mais de 12 milhões de baianos e turistas que passaram pela capital baiana.
A experiência carnavalesca entretanto não aconteceu para todos. Dois casos de racismo em camarotes na capital baiana acenderam luz sobre um outro lado do Carnaval, um lado sombrio: o do racismo, um traço ainda forte e enraizado, que surpreendentemente ainda acontece na cidade com maior contingente de pessoas negras fora da África.
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No dia 17 de fevereiro, o psicólogo Manoel Neto, usou as suas redes sociais para desabafar sobre um episódio no Camarote Ondina, que de acordo com ele, aconteceu no dia anterior, 16 de fevereiro.
Em seu forte relato no Instagram, ele começa com a frase: “A felicidade do branco é plena, a felicidade do negro é QUASE”. A partir daí, o psicólogo começa a descrever o que teria acontecido naquela noite, logo após relatar que a festa estava confortável, com boa música e com a “energia de carnaval”.
Ele explica que passou um bom tempo conversando com os colaboradores do camarote e interagindo com quem “fazia a festa acontecer”. “Quando eu percebia um atrito vindo de pessoas negras, eu fazia questão de ir conversar, acalmar e dizer que a nossa felicidade — ao menos naquele dia — precisava ser plena. Acontece que, às vezes, um sonho é só um sonho”, escreveu ele.
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No relato de Manoel, ele explica que tentou passar por meio de uma multidão de pessoas, pedindo licença, quando um homem branco ignorou o pedido do psicólogo, mais de uma vez.
“Nessa hora me lembrei: sou um homem negro. Eles respeitam a minha agressividade e não a minha cordialidade. Forço a passagem e, olhando no rosto dele, digo furiosamente: “você vai me deixar passar? Quando eu pedi para passar, você deixa eu passar. Você não está me vendo? Ou eu vou ter que enfiar a mão na sua cara?” E, como em um passe de mágica, eu consigo passar. Eles respeitam nossa raiva; todo o resto é desumanidade”, relatou ele.
Confira post de Manoel Neto:
Uma discussão começa, e logo depois é encerrada com uma tentativa de desculpas por parte do homem branco. Manoel então continua o relato: “Pelo quê? Pela humilhação de não poder transitar em um espaço pelo qual paguei para estar? Por olhar nos meus olhos e ignorar o meu pedido? Por convocar em mim a única coisa que, para esse tipo de pessoa, se torna reconhecível – a agressividade de um homem negro?”, continuou ele.
No mesmo dia, Manoel Neto foi encontrado morto em sua residência, em Santo Antônio de Jesus. Em nota ao Portal A TARDE, a Polícia Civil disse que não comenta casos registrados como suícidio.
Manoel Rocha Reis Neto era graduado em Psicologia pelo Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Ele também era pós-graduado em Saúde da Família e atuava em clínica particular, com psicanálise lacaniana.
O caso chocou amigos e a comunidade de psicologia, que cobram maior atenção ao apoio à saúde mental e socioeconômica da população negra. Entre textos de despedidas e lamentos, especialistas baianos também comentaram sobre o caso, como a educadora social, Bárbara Carine.
“Independente da pessoa ser negra, ou independente de qualquer outra coisa , você não sabe as dores que o outro carrega na vida dele. Seja sempre cordial. Os maiores índices de suicídio no Brasil são de homens negros. Há um cruzamento do patriarcado com o racismo, que o animaliza e o instiga o seu senso de violência constantemente na sociedade. Não tem vida que suporte”, disse ela em suas redes sociais.
A reportagem tentou contato com a assessoria do Camarote Ondina, que lamentou a morte de Manoel e se solidarizou com familiares, amigos, pacientes e todos que estão sofrendo com essa perda irreparável.
“Reafirmamos nosso compromisso inegociável com o respeito, a diversidade e o combate a qualquer forma de racismo e discriminação. O Carnaval da Bahia é expressão da cultura negra, da pluralidade e da convivência, valores que norteiam a atuação do nosso espaço”, disse em nota.
Racismo contra funcionárias de camarote
No mesmo dia, um outro episódio criminoso marcou um outro camarote de Salvador. No dia 17 de fevereiro, um turista de 42 anos, natural de Santa Catarina, foi preso em flagrante por discriminação racial dentro do espaço, que até o momento não foi identificado.
O homem teria agredido verbalmente funcionárias que trabalhavam no espaço localizado no circuito Dodô (Barra-Ondina). Segundo os relatos das vítimas, o suspeito as chamou de “pretas”, “macacas” e “escravas“. Após a denúncia, ele foi identificado por uma equipe do camarote através de apoio da Polícia Militar, e encaminhado para uma delegacia atuante no circuito.
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Vale ressaltar que Salvador recebeu entre os dias 12 e 17 de fevereiro, 12 milhões de foliões no Carnaval de Salvador. Só de turistas, a capital baiana recebeu mais de 3,8 milhões de pessoas, de 80 países de todos os continentes. Entre eles, se destacaram argentinos, franceses, espanhóis, alemães e norte-americanos.
Em nota enviada pela Polícia Civil, a organização do camarote informou que o homem está proibido de participar de outros eventos organizados pelo grupo. A Delegacia Especializada de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa (Decrin) investiga o caso.
Casos de racismo no Carnaval não pararam
Um idoso de 60 anos foi preso, no sábado, 14, por suspeita de injúria racial contra uma pessoa que trabalhava em um bloco no Carnaval de Salvador, no circuito Osmar (Campo Grande).
Após ser alvo de agressões verbais com conteúdo discriminatório, a vítima realizou uma denúncia. Em seguida, equipes policiais utilizaram o sistema de videomonitoramento e localizaram o suspeito na Praça do Campo Grande, onde foi abordado e conduzido.
A cantora Carla Perez também foi acusada de racismo, após viralizar em vídeos na internet em cima de um segurança negro, logo após descer do trio que marcou a despedida do bloco infantil Algodão Doce.
Após a repercussão, Carla Perez justificou dizendo que subiu nos ombros do segurança para conseguir “contato físico” e “estar mais próxima das minhas crianças”, mas reconheceu a situação e pediu desculpas.
Fonte: A Tarde



