As cultivares paranaenses vêm consolidando o estado como referência nacional em melhoramento genético vegetal. Por trás de nomes técnicos e siglas está um trabalho contínuo de pesquisa que combina ciência, sustentabilidade e adaptação às condições reais da agricultura brasileira.
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Cultivares são variedades de plantas desenvolvidas a partir de cruzamentos e seleção genética para apresentar características superiores, como maior produtividade, resistência a doenças, tolerância a estresses climáticos e melhor qualidade comercial e nutricional. No Paraná, esse trabalho é desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR), que já disponibilizou mais de 240 cultivares registradas no Ministério da Agricultura, abrangendo mais de 30 espécies anuais e perenes.
Embora o feijão seja o caso mais emblemático — quase 40% das sementes utilizadas no país têm origem no estado — o alcance das cultivares paranaenses vai além dessa cultura.
Cultivares paranaenses também transformam café e cereais
O instituto acumula 15 cultivares desenvolvidas e integra o grupo fundador do Consórcio de Pesquisa Café. Um dos destaques é a IPR100, primeira cultivar de café arábica resistente a nematoides (espécie de vermes microscópicos), cultivada no Paraná e em outros estados, além de países da América Latina, África e Ásia.
“O desenvolvimento de cultivares com alta produtividade e resistentes às doenças e pragas e com diferentes ciclos de maturação dos frutos é um dos focos da pesquisa”, afirma a diretora de Pesquisa do IDR-Paraná e melhorista em feijão, Vania Moda Cirino. Segundo ela, as cultivares resistentes à ferrugem e outras doenças deixam de lançar cerca de 100 mil litros ou quilos de fungicidas por ano no ambiente.
“Com isso, o consumidor final também poderá tomar o seu cafezinho com menor quantidade de defensivos agrícolas”, acrescenta ela. A estimativa é que as pesquisas do instituto contribuam com cerca de 20% da produção total de café no Paraná, o equivalente a aproximadamente US$ 19 milhões anuais.
Nos cereais de inverno, o IDR-Paraná já lançou 36 cultivares de trigo, além de materiais de triticale, aveia granífera, trigo durum e centeio. Algumas variedades ultrapassaram fronteiras. “A pesquisa tem disponibilizado cultivares com alto potencial produtivo e qualidade industrial, adaptadas às condições do Paraná e também utilizadas em outros países”, destaca Vania.
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Melhoramento genético eleva produtividade mesmo com menos área
Os números ajudam a dimensionar o impacto econômico. Apenas no caso do feijão, o benefício estimado em 2024 com as cultivares paranaenses chegou a R$ 278 milhões, considerando aumento de produtividade e agregação de valor em diferentes regiões produtoras do Brasil.
“Esse benefício econômico leva em consideração o aumento de receita diretamente no agricultor, impactando o valor bruto de produção”, explica o assessor estadual do Programa Feijão, José dos Santos Neto. Ele ressalta ainda o efeito na cadeia de sementes.
“O IDR-Paraná possui 55 empresas privadas licenciadas para multiplicar as cultivares de feijão. Estima-se que os parceiros tenham um faturamento médio anual de R$ 100 milhões com a comercialização de sementes”, aponta ele.
Parte dos recursos retorna ao instituto por meio de royalties, permitindo reinvestimento no programa de melhoramento genético. “Esse é um exemplo de sucesso de parceria público-privada que gera resultados positivos para todos os envolvidos”, afirma Santos Neto.
O avanço genético também ajuda a explicar a transformação no campo. Nas últimas quatro décadas, a área cultivada com feijão no Paraná foi reduzida em mais de 30%, enquanto a produtividade média aumentou 137%. “O melhoramento genético foi um dos principais fatores que contribuíram com o incremento de produtividade de grãos nas últimas décadas, além da melhoria na qualidade comercial, tecnológica e nutricional”, afirma Vania.
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Cultivares paranaenses como estratégia para clima e segurança alimentar
Diante das mudanças climáticas, o desenvolvimento de cultivares tolerantes à seca e ao calor tornou-se prioridade. “Um dos principais objetivos dos programas de melhoramento genético do IDR-Paraná é o desenvolvimento de cultivares tolerantes ao estresse climático”, afirma Vania, ao citar materiais já adaptados a períodos de déficit hídrico e temperaturas elevadas.
O instituto mantém um Banco de Recursos Genéticos com mais de 25 mil acessos de 143 espécies vegetais, base estratégica para ampliar a variabilidade genética e reduzir a vulnerabilidade das lavouras. Essa estrutura sustenta um modelo de pesquisa que, segundo a diretora, prioriza sustentabilidade e menor dependência de insumos.
As próximas etapas incluem a incorporação de edição gênica, inteligência artificial, seleção genômica preditiva e metodologias de melhoramento acelerado. O desafio é aumentar a eficiência sem perder o foco na agricultura real.
“As principais apostas do IDR-Paraná para novas cultivares focam em sustentabilidade, menor dependência de insumos para a produção, resistência a doenças e pragas e tolerância a estresses climáticos, com elevada produtividade e melhor qualidade comercial, tecnológica e nutricional do produto”, aponta a diretora de Pesquisa do IDR-Paraná.
Fonte: Gazeta do Povo



