O cenário econômico de juros elevados e crédito mais restrito trouxe de volta ao centro das estratégias do varejo um velho conhecido do consumidor brasileiro: o carnê. Em meio à taxa básica em 15% ao ano, inflação persistente e redução dos limites dos cartões de crédito, o modelo de parcelamento direto com a loja ressurge como alternativa considerada mais acessível e previsível para famílias que precisam reorganizar o orçamento, e para empresas que buscam sustentar as vendas.
A rede de supermercados GBarbosa, com mais de 70 super e hipermercados e 92 unidades Eletro Show no Nordeste, é uma das que reforçaram a aposta no crediário próprio. A modalidade foi adotada no balcão das lojas, exclusivamente para a compra de eletrodomésticos e eletroportáteis. Na Black Friday do ano passado, por exemplo, o parcelamento em até 36 vezes foi um dos destaques, viabilizando a aquisição de geladeiras, aparelhos de ar-condicionado, TVs de tela plana e itens de linha branca.
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“O carnê é mais uma opção de pagamento que oferecemos aos nossos clientes para que possam realizar suas compras com toda comodidade e da forma que melhor atenda às suas necessidades e planejamento financeiro”, informou a rede, por meio de nota.
Fora dos períodos promocionais, o parcelamento ocorre em até 24 vezes fixas, via boleto bancário, sem necessidade de entrada. A primeira parcela pode vencer após 30 ou 45 dias da compra. Para contratar, o cliente deve apresentar documento oficial (RG, CNH ou CTPS) e, após pré-aprovação, comprovantes de residência e renda.
A empresa confirma que a procura pelo carnê voltou a ganhar espaço impulsionada pelo cenário de juros altos e restrições no cartão de crédito. A demanda é mais evidente em bens duráveis, especialmente eletrodomésticos e eletroportáteis. O perfil inclui consumidores que buscam parcelas fixas e previsibilidade financeira, além de públicos com menor bancarização.
Na prática, afirma a rede GBarbosa, o carnê tem sido estratégia eficaz para manter e ampliar o volume de vendas, sobretudo em campanhas de grande porte. Mesmo fora dessas datas, o parcelamento em até 24 vezes amplia o poder de compra e reduz barreiras de acesso, funcionando como motor de conversão em um contexto de crédito mais seletivo.
Para o economista Rodrigo Rocha, o carnê permanece relevante no Brasil justamente por dialogar com a realidade de parte significativa da população. “Entre as principais vantagens estão a facilidade de acesso sem burocracia bancária, parcelas que cabem no orçamento e juros geralmente menores que os do crédito rotativo”, avalia.
Ele observa que, diante da alta nos preços de bens essenciais e duráveis e das limitações impostas pelos cartões, o modelo contribui para maior controle financeiro das famílias. “O carnê tem datas fixas para pagamento, transparência nos valores e promove inclusão ao consumo em regiões de baixa bancarização”, afirma o economista.
Do ponto de vista das empresas, acrescenta o Rodrigo Rocha, a modalidade amplia vendas, fideliza clientes e garante maior autonomia na concessão de crédito. “O lojista alcança públicos que normalmente seriam rejeitados pelos bancos”, diz, apontando um nicho relevante em um país onde parte da população ainda enfrenta dificuldades para acessar o sistema financeiro tradicional.
Motor histórico
Se em supermercados regionais o carnê volta a ganhar força, nas grandes redes de varejo de eletro e móveis ele nunca deixou de ser peça-chave. No Grupo Casas Bahia, o crediário mantém penetração histórica entre 22% e 27% nas lojas físicas nos últimos dois anos. No ambiente digital, a modalidade também avança: no terceiro trimestre de 2025, a companhia registrou recorde de R$ 298 milhões em concessões por meio do crediário online, conforme relatório financeiro.
Segundo Vital Leite, diretor de Soluções Financeiras do grupo, o carnê é facilitador essencial para categorias de ticket mais alto, como linha branca e móveis, além de ser uma ferramenta de inclusão financeira para consumidores com pouco acesso ao crédito tradicional.
“Por meio do crediário digital, conseguimos levar acesso ao consumo para clientes em mais de 4.600 municípios, reforçando o papel social e estratégico da modalidade”, afirma.
Em um cenário de crédito bancário mais restrito, o executivo diz que o carnê se consolida como diferencial competitivo. A carteira de crédito da companhia cresceu 8,1% na comparação anual, alcançando R$ 6,2 bilhões no terceiro trimestre de 2025.
Para minimizar riscos, a política de concessão é descrita como disciplinada e conservadora, com uso de modelos de análise de risco e cobrança. A taxa de inadimplência acima de 90 dias ficou estável em 8,4%, enquanto o nível de perda sobre a carteira ativa foi reduzido para 4,5% no último trimestre reportado.
No Magazine Luiza, o carnê também passou por atualização tecnológica. Em 2024, a companhia lançou o carnê digital, oferecido nos canais online. A iniciativa busca ampliar o poder de compra dos clientes e fortalecer o meio de pagamento no e-commerce.
“O carnê nunca deixou de ser uma opção na realidade dos brasileiros. Evoluímos a modalidade para o ambiente digital”, afirma Jörg Friedemann, CEO do MagaluPay, vertical financeira da empresa.
Atualmente, o Crédito Direto ao Consumidor (CDC), nome técnico do carnê, representa cerca de 10% das vendas do Magalu nas lojas físicas e 2% nos canais digitais — estes ainda em fase piloto. Segundo Friedemann, a maioria dos clientes que aderem ao carnê são fiéis e recorrentes, mas têm alternativas mais limitadas de financiamento de médio prazo.
Para concessão, a empresa utiliza histórico do cliente, análises cadastrais, score de crédito, renda e nível de comprometimento financeiro, entre outras variáveis. A estratégia de expansão ganhou novo fôlego após o MagaluPay receber autorização do Banco Central para atuar como Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento, o que amplia as possibilidades de captação de recursos e diversificação das ofertas.
Tradição e estratégia
O retorno do carnê ao protagonismo revela não apenas uma resposta conjuntural à alta dos juros, mas também uma característica estrutural do mercado brasileiro: a importância do crediário como instrumento de acesso ao consumo. Em um país marcado por desigualdades de renda e bancarização incompleta, o modelo combina tradição e adaptação tecnológica.
Se para o consumidor ele representa previsibilidade e chance de adquirir bens essenciais sem depender exclusivamente do cartão de crédito, para as empresas funciona como ferramenta de fidelização e ampliação de mercado.
A expectativa das redes ouvidas é de manutenção ou crescimento da modalidade nos próximos meses, sustentada pelo contexto econômico e pela busca das famílias por maior controle financeiro. Entre boletos impressos e versões digitais integradas a aplicativos, o carnê mostra que, mesmo em tempos de fintechs e pagamentos instantâneos, ainda há espaço para soluções que dialoguem diretamente com o orçamento do brasileiro.
Fonte: A Tarde



