Michael Jackson desembarcou na capital baiana e reuniu uma multidão no Pelourinho –
Em 10 de fevereiro de 1996, há exatos 30 anos, Salvador foi cenário de um dos momentos mais emblemáticos de sua história cultural contemporânea. Michael Jackson passou pela capital baiana e mobilizou uma multidão no Pelourinho durante a gravação do clipe They Don’t Care About Us, em parceria com o Olodum e direção do cineasta Spike Lee.
Três décadas depois, o episódio segue como um marco da cultura pop mundial, da música negra e da projeção internacional do Centro Histórico de Salvador.
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Há 30 anos, o Pelourinho virou cenário global e Salvador ganhou o mundo
A chegada que parou Salvador
A vinda de Michael Jackson a Salvador foi tratada como um acontecimento histórico desde antes de o avião tocar o solo baiano. A edição do Jornal A TARDE daquele 9 de fevereiro de 1996 deixou claro que não se tratava de uma visita comum.
“O popstar Michael Jackson desembarca hoje, por volta das 11h30min, no aeroporto Dois de Julho, para passar dois dias em Salvador, onde grava cenas do videoclipe da música They Don’t Care About Us, com músicos do Olodum e direção do cineasta Spike Lee”, registrou o jornal, antecipando o impacto que a presença do artista causaria na cidade.
Desde as primeiras horas da manhã, fãs começaram a se concentrar no Aeroporto Dois de Julho, em uma expectativa que misturava curiosidade, euforia e a sensação de que Salvador estava prestes a entrar definitivamente no mapa da cultura pop mundial. O planejamento de segurança previa controle rígido da imprensa e do público, mas a própria atitude do astro contribuiu para transformar a chegada em um episódio caótico e memorável.
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De acordo com a cobertura de A TARDE, a chegada de Michael Jackson a Salvador rapidamente escapou de qualquer planejamento prévio. O esquema de segurança montado no Aeroporto Dois de Julho acabou desarticulado pelo próprio comportamento do artista, que rompeu o protocolo logo após o desembarque.
Em vez de seguir diretamente para o veículo que o levaria ao salão VIP, Jackson atravessou o pátio de estacionamento das aeronaves, área restrita ao público, e passou a acenar para os fãs que se aglomeravam no local.
O gesto foi suficiente para provocar um efeito em cadeia. Funcionários do aeroporto, passageiros e trabalhadores que atuavam no reabastecimento das aeronaves correram em direção ao cantor, enquanto a segurança tentava conter apenas a imprensa.
Do mirante, cerca de 500 pessoas acompanhavam a cena aos gritos, em um clima de euforia que transformou a chegada em um episódio caótico e imprevisível. Minutos depois, o carro que transportaria o astro conseguiu alcançá-lo e deixou o aeroporto sob forte comoção popular. A mobilização não se encerrou ali. Do lado de fora, fãs correram atrás do veículo que seguiu em direção ao Hotel da Bahia.
Segurança, exigências e bastidores
A estadia de Michael Jackson em Salvador foi marcada por um rigoroso esquema de segurança, contrastando com a simplicidade de suas exigências pessoais. Hospedado na suíte presidencial do Hotel da Bahia, localizada no 11º andar, o cantor permaneceu praticamente isolado durante toda a visita, com circulação restrita e acesso controlado até mesmo para funcionários do próprio hotel.
A prioridade era garantir privacidade absoluta ao artista, evitando qualquer tipo de contato fora do ambiente das gravações.
Apesar da imagem de superestrela global, os pedidos feitos por Michael Jackson chamaram atenção pela sobriedade. O cantor não solicitou equipe de cozinha particular nem cardápios elaborados. Entre as exigências estavam água mineral em temperatura ambiente, sucos naturais e frutas tropicais, além do café da manhã servido exclusivamente na suíte.

Há 30 anos, o Pelourinho virou cenário global e Salvador ganhou o mundo
Todo o andar foi reservado para ele e integrantes de sua equipe, enquanto os demais apartamentos permaneceram desocupados por decisão da administração do hotel, que também reforçou o efetivo de segurança e isolou a área externa do prédio.
Nos bastidores das gravações, o aparato de segurança se estendeu para além do hotel. Para o dia da filmagem no Pelourinho, a Polícia Militar mobilizou cerca de 250 agentes de diferentes batalhões, responsáveis por isolar completamente o Centro Histórico.
O trânsito de veículos foi interrompido nas imediações e apenas pessoas credenciadas tiveram acesso às áreas próximas ao set. A operação envolveu policiamento montado, batalhão de choque e apoio aéreo, refletindo a dimensão do evento e a preocupação em controlar a grande concentração de público esperada para acompanhar a gravação do clipe.
O Pelourinho como palco global
No dia da gravação, o Pelourinho deixou de ser apenas um dos principais cartões-postais de Salvador para se transformar em um set cinematográfico de escala internacional. As ruas do Centro Histórico foram tomadas por equipamentos, equipes técnicas e um público estimado em cerca de 5 mil pessoas, que acompanharam de perto cada movimento da produção.

Três décadas depois, o eco daquele dia ainda ressoa na cultura baiana
Ao centro desse cenário estavam os cerca de 200 músicos do Olodum, cuja presença deu identidade sonora e visual ao clipe e consolidou a estética afro-baiana como elemento central da narrativa construída por Spike Lee.
O resultado daquela mobilização extrapolaria o momento histórico vivido pela cidade. Anos depois, o videoclipe de They Don’t Care About Us se tornaria a segunda produção mais assistida no canal oficial de Michael Jackson no YouTube, ultrapassando a marca de 1 bilhão de visualizações e projetando o Pelourinho para uma audiência global.
O espaço, carregado de simbolismo histórico e cultural, passou a ser associado mundialmente a uma obra de denúncia social, resistência e afirmação da cultura negra. Do ponto de vista técnico e estético, a dimensão da produção impressionou até profissionais experientes. O fotógrafo Xando Pereira, que acompanhou de perto as gravações, destacou o impacto visual criado por Spike Lee em entrevista ao Portal A TARDE.
“Foi sensacional. Você vê aquela produção de Spike Lee, que foi o diretor do clipe, e ele fez uma coisa no Pelourinho que eu nunca tinha imaginado que fosse daquele tamanho. Ele forrou todo o teto do Pelourinho com um tecido branco, leitoso, para difundir a luz”, disse.
Segundo Xando, a escolha técnica transformou completamente a relação entre o espaço histórico e a imagem captada pelas câmeras. “Eu já usava isso na fotografia, mas usava no máximo um lençol para fotografar um prato de comida, um peixe, uma pessoa, uma modelo. Mas ele fez aquilo no Pelourinho, em uma grande parte do Pelourinho. Então aquela luz ficou toda difusa. Foi muito legal e impressionante.”
Um set fechado, um clima eletrizante
O rigor no controle do set de filmagens fez com que o acesso ao Pelourinho fosse extremamente limitado durante a gravação do clipe. Mesmo profissionais da imprensa e fotógrafos credenciados enfrentaram restrições severas de circulação, o que contribuiu para a atmosfera de mistério em torno da presença de Michael Jackson.
Segundo o fotógrafo Xando Pereira, o próprio artista adotava estratégias para evitar exposição excessiva, recorrendo inclusive ao uso de dublês durante os ajustes técnicos iniciais. “Eu vi pouco Michael Jackson, porque até dublê ele tinha. O dublê estava vestido igual a ele e aparecia na janela para o diretor ir lá medir a luz.”
Diante das restrições impostas ao acesso ao set, profissionais de imagem buscaram alternativas para acompanhar as filmagens a partir de pontos fixos no entorno do Pelourinho. No caso de Xando Pereira, a opção foi alugar o andar superior de uma casa na área das gravações, o que permitiu observar e registrar parte da movimentação sem circular pelas ruas, que estavam isoladas pela produção e pela segurança.
A partir desse ponto, o fotógrafo acompanhou as filmagens ao longo do dia, registrando diferentes momentos do set. Após horas trabalhando no mesmo local, decidiu mudar a estratégia e buscar um enquadramento mais próximo, levando apenas o equipamento essencial. “Quando Michael Jackson veio para o lado da minha casa, depois que eu já tinha fotografado de todos os jeitos, resolvi descer com uma câmera só, uma lente só e um filme.”
O deslocamento resultou em um encontro inesperado. “Quando eu desci as escadas e parei no térreo, ele apareceu na frente da porta. É quando ele faz aquela cena em que levanta o braço com a camisa do Olodum.”
A cidade em estado de comoção
Desde as primeiras horas do dia, Salvador passou a viver um clima de euforia coletiva em torno da gravação do clipe. A movimentação intensa no Pelourinho começou ainda pela manhã, quando equipes técnicas ocupavam ruas, ladeiras e sacadas do Centro Histórico para a montagem do set.
O fotógrafo Xando Pereira lembra que a dimensão do evento já era perceptível logo cedo. “A cidade ficou polvorosa. Eu cheguei no Pelourinho nesse dia às 7h30 da manhã e já estava aquela produção enorme montando o set para a filmagem.” À medida que o horário avançava, o espaço se tornava cada vez mais tomado pelo público. “Quando começaram as filmagens, o Pelourinho estava lotado.”

Gravação ecoou além da música e atravessou décadas
Mesmo com o isolamento da área e o rígido controle de acesso, o entusiasmo popular não foi contido. Moradores, curiosos e fãs se aglomeravam nos limites do perímetro de segurança, acompanhando à distância cada movimentação da produção. O clima era de alegria, marcado por gritos, aplausos e tentativas de aproximação. “Foi uma gritaria, uma algazarra incrível”, relatou Xando ao relembrar o ambiente que tomou conta do Centro Histórico naquele dia.
Antes mesmo da chegada de Michael Jackson ao set, os ensaios comandados por Spike Lee já mobilizavam o Pelourinho e atraíam a atenção do público. A preparação envolvia testes de enquadramento, marcações rítmicas e ajustes de cena com os músicos e integrantes do elenco local.
Crianças se espremiam nas grades e sacadas, repetindo em coro que o cantor estava prestes a chegar, enquanto o cineasta circulava pelo espaço avaliando ângulos e conduzindo a equipe.
A atmosfera de expectativa também atraiu figuras conhecidas da cena cultural e midiática. Entre os que acompanharam as gravações estavam o ator e vereador Antônio Pitanga e a jornalista Glória Maria, que observou por longos períodos o andamento dos trabalhos no Pelourinho.
Polêmicas e debates raciais
A visita de Michael Jackson ao Brasil, em 1996, foi acompanhada por controvérsias que colocaram em debate temas como raça, imagem e representação social. Uma das primeiras resistências surgiu no Rio de Janeiro, onde autoridades tentaram impedir as filmagens no Morro Dona Marta, sob o argumento de que o clipe poderia reforçar uma imagem negativa da cidade ao expor a realidade das favelas.
Na Bahia, a polêmica assumiu outro contorno. A parceria entre o Olodum e Michael Jackson passou a ser questionada por setores do movimento negro e da opinião pública, que viam contradição entre o discurso de valorização da identidade negra defendido pelo bloco e a imagem de um artista frequentemente acusado de buscar o embranquecimento de sua aparência por meio de cirurgias plásticas e tratamentos estéticos.
Diante das críticas, o diretor cultural do Olodum, João Jorge, adotou uma postura pública de enfrentamento ao debate, relativizando a discussão estética e defendendo o valor artístico e político da parceria. Ele lembrou que Paul Simon “é um branco que abriu muitas portas ao bloco”, após gravar com a banda, e afirmou que “não se deve discutir o embranquecimento e sim olhar Jackson como artista”.
João Jorge também destacou que o clipe tinha direção de Spike Lee, um cineasta negro reconhecido por assumir “posturas radicais e polêmicas contra a discriminação racial”, o que, para ele, reforçava o caráter político e simbólico do projeto.
A assessoria do Olodum acrescentou ainda outro elemento ao debate ao ressaltar ações concretas do cantor em apoio à comunidade negra. Entre elas, a doação de US$ 30 mil feita por Michael Jackson a uma universidade de Atlanta voltada a estudantes negros, em um momento em que a instituição enfrentava dificuldades financeiras.
Um legado que atravessa décadas
Quase três décadas depois, o fotógrafo Xando Pereira avalia a passagem de Michael Jackson por Salvador como um marco duradouro para a cultura baiana e para a projeção internacional do Olodum.
“Foi muito importante para a cultura baiana e para a divulgação do Olodum. O Olodum deu um pulo gigante. Já era conhecido, mas ficou muito mais conhecido”, afirmou.
Segundo ele, alguns símbolos criados naquele contexto ultrapassaram o momento da gravação e ganharam alcance internacional. “O símbolo da paz e amor da camisa do Olodum. Michael Jackson, foi para o Rio e ainda usou a camisa do Olodum quando gravou lá.” A imagem ajudou a consolidar a associação entre o bloco afro e um discurso global de resistência e afirmação cultural.
Para Xando, a memória daquele dia permanece ligada não apenas ao impacto profissional, mas também ao significado histórico do evento para a cidade. “Foi muito emocionante ver aquela produção ali no Pelourinho, na minha cidade, onde eu nasci. Isso me marcou.” Ao avaliar o legado deixado pelo encontro entre Salvador, o Olodum e o maior astro da música pop mundial, ele resume: “É muito, muito bom. Que venham outros. E viva a música.”
Fonte: A Tarde



