Assaltos e furtos variados, roubos de carga, tráfico de drogas, contrabando, corrupção de agentes públicos, falsificações, golpes virtuais, jogo ilegal, cobrança de taxas ilegais, domínio imobiliário, do comércio e de serviços como internet em amplos territórios, exploração de serviços públicos de transporte e muito mais. As facções criminosas em específico e o crime organizado brasileiro como um todo custam até R$ 1,3 trilhão por ano ao país.
Esse custo estimado de atividades ligadas ao crime organizado no Brasil equivale a nada menos que 11% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional em 2024 — e funciona como um “imposto oculto” nas costas de todos os brasileiros. Os principais beneficiários e cobradores deste imposto do crime sobre a economia brasileira são as facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV). Mas não são as únicas.
Crimes e violências no geral contra a sociedade custam R$ 373 bilhões por ano; mercados ilícitos e pirataria (incluindo tráfico de drogas), R$ 468 bilhões; economia subterrânea e sonegação (incluindo contrabando), R$ 300 bilhões; perdas ambientais e ligadas ao desmatamento, R$ 200 bilhões; e roubo de cargas e ouro ilegal, custam outros R$ 3 bilhões por ano. É o que revela um cálculo conservador feito pelo Instituto Igarapé divulgado no final do ano passado com dados da Amazon 2030, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), CPI/PUC-RJ, Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ETCO/FGV, FNCP, Ibama, Istituto Escolhas, MapBiomas, NTC & Logística, Polícia Federal (PF) e polícias estaduais.
O percentual de cerca de 11% do PIB sobre o custo do crime ao Brasil havia aparecido em outros estudos antes, como do Ipea. De acordo com o levantamento, as polícias de todo o país nunca apreenderam tanta droga: foram 1,6 mil toneladas de maconha e cocaína apreendidas em 2023 contra 2,1 mil toneladas das mesmas drogas apreendidas em 2024, um aumento de 30% apenas neste período.
Perfil dos crimes muda e casos de estelionato disparam
O perfil dos crimes também tem mudado, revela o estudo. Embora o número de homicídios tenha caído 24,9% na década encerrada em 2023, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, outros crimes – como estelionatos (especialmente eletrônicos), violência contra crianças e adolescentes, apreensão de drogas sintéticas e tentativas de fraudes – continuam a crescer.
Se em 2018 o Brasil registou 1,5 milhão de roubos, em 2024 esse número caiu para cerca de 700 mil, menos da metade em um período de seis anos. Os casos de estelionato, por sua vez, subiram de 400 mil para 2,2 milhões de registros no mesmo período, um aumento de 550%.
Segundo estimativas do Ipea, cada morte violenta custa em média R$ 1 milhão aos cofres públicos, considerando gastos com sistema de saúde, previdência, segurança, processos judiciais e perda de produtividade. Assim, mesmo em queda histórica, só os homicídios (mortes com intenção de matar) custam ao país um total anual que ultrapassa R$ 46 bilhões.
No ano de 2023, os governos federal, estaduais e municipais desembolsaram R$ 124,8 bilhões em segurança pública, com os estados sendo responsáveis por mais de R$ 101 bilhões desse total. O Sistema Único de Saúde (SUS), por sua vez, gastou R$ 41 milhões em 2022 apenas com internações por ferimentos causados por armas de fogo, um número que não inclui atendimentos ambulatoriais, cirurgias de emergência, reabilitação e os custos psicológicos para vítimas e familiares.
PCC e CV custam ao Brasil o equivalente à economia de Portugal
“A economia criminosa do Brasil não aparece em nenhum balanço nacional”, afirma Robert Muggah, do Instituto Igarapé, no ensaio em que divulga os números do custo do crime, publicado no site The Conversation. “Os custos da violência, do contrabando, da evasão fiscal e dos crimes ambientais, no entanto, são um imposto oculto que chega a centenas de bilhões de reais por ano, um entrave ao crescimento que rivaliza com os orçamentos de muitos países.”
Na análise do pesquisador, nenhum estudo isolado consegue captar a totalidade da economia criminosa do Brasil. “Ainda assim, reunindo os números oficiais mais conservadores, é possível obter um balanço aproximado”, afirma.
O balanço inclui centenas de bilhões de reais perdidos por ano devido ao crime e à violência; quase meio trilhão devido ao contrabando e à pirataria; e uma economia paralela no valor de R$ 1,7 trilhão que corrói a base tributária; bilhões a mais desviados por meio de roubo de cargas e mineração ilegal; e outros R$ 190 bilhões a R$ 200 bilhões por ano em energia e produção agrícola perdidas devido a crimes ambientais. “Mesmo com estimativas cautelosas, esses domínios juntos somam de R$ 1,3 trilhão a R$ 1,5 trilhão anualmente, da ordem de 12% a 14% do PIB do Brasil, aproximadamente o mesmo tamanho das economias de Portugal ou da República Tcheca”, compara Muggah.
O setor de logística do país oferece uma ilustração particularmente clara de como o crime atua como uma sobretaxa oculta sobre os produtos de uso diário. De acordo com dados compilados pela Associação Nacional de Transportes, o Brasil registrou 10.478 roubos de carga em 2024, com perdas estimadas em R$ 1,2 bilhão. Somados os custos de roubos e fraudes relacionados ao combustível, as perdas anuais sobem para R$ 29 bilhões.
Fonte: Gazeta do Povo



