quinta-feira, fevereiro 5, 2026
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Manifesto contra o feminicídio marca a Lavagem de Itapuã em Salvador

A festa também foi palco de uma manifestação contra o feminicídio –

A Lavagem de Itapuã acontece nesta quinta-feira, 5, em Salvador, reunindo fé, tradição e celebração popular.

Em meio ao cortejo centenário, que completa 121 anos em 2026, a festa também foi palco de uma manifestação contra o feminicídio, protagonizada por mulheres que aproveitaram a visibilidade da celebração para levantar vozes, expor dores e cobrar mudanças da sociedade.

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Com cerca de 40 atrações, entre blocos e fanfarras, a programação teve início às 2h, quando o Bando Anunciador percorreu as ruas do bairro entoando louvores em direção à Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Itapuã.

A alvorada foi saudada com queima de fogos e a tradicional lavagem das escadarias, realizada pelas baianas, cenário que também acolheu cartazes, frases e discursos contra a violência de gênero.

Marcha nasce no coração de Itapuã

Moradora do bairro, a maquiadora Natalia Cavalcante, de 36 anos, explica o motivo de levar o protesto para dentro da festa. “Sou moradora de Itapuã, nascida e criada aqui há quase 36 anos. Hoje estamos nessa marcha contra o feminicídio, que é um dado alarmante. Só na Bahia, em 2025, já são 103 mulheres mortas. A gente precisa lutar, porque isso é uma responsabilidade de toda a sociedade.”

Segundo ela, a reação do público durante o cortejo foi de atenção e apoio. “Precisamos estar juntas, fortes, contra o feminicídio. As pessoas estão olhando as frases, apoiando, incentivando. O pessoal ainda está chegando, porque marcamos agora a concentração e, assim que o cortejo passar, nós vamos marchar juntas contra o feminicídio.” A ação, ressalta, é inédita. “É a primeira vez que estamos realizando esse manifesto.”

A manifestação também contou com a presença da delegada aposentada da DEAM, Marilda Marcela da Luz, de 69 anos, que destacou a importância da mobilização popular.

“Sou delegada de polícia aposentada e, quando surgiu, nesta semana, essa iniciativa de Priscila, eu me engajei na hora. A gente precisa fazer alguma coisa. Essa causa está nas mãos da sociedade”, afirmou.

Para ela, o enfrentamento à violência passa pela mudança de comportamento coletivo. “Se a gente não tomar posição, não vai conseguir baixar esses níveis. É preciso mostrar para o homem que ele é filho de mulher e que também precisa entrar nessa luta.”

Marilda explica que ocupar a Lavagem de Itapuã foi uma escolha estratégica. “Essa foi a forma que encontramos de estar presentes na lavagem, aproveitando esse espaço para nos mostrar e para mostrar que a mulher não precisa continuar no ciclo de violência. Ela pode mudar esse roteiro.”

A ex-delegada também ressaltou a importância de políticas públicas contínuas. “Mesmo aposentados, delegados sempre têm a oportunidade de se posicionar junto à Secretaria de Segurança Pública. Sempre que surge alguma ação na área da segurança, nós estamos engajados, juntos, criando oportunidades para diminuir, para baixar as estatísticas. A gente não pode continuar vendo a mulher apenas como número.”

Dor pessoal que vira luta coletiva

A iniciativa da manifestação partiu da autônoma Priscila Vieira, de 55 anos, que pretende ampliar o movimento nos próximos dias. “A gente começou agora e vamos ver se conseguimos continuar no Carnaval. A ideia é, na quarta-feira, puxar essa manifestação para todas as mulheres.”

Ela conta que a adesão tem sido espontânea. “Está sendo bem fácil e feliz, porque tinha que partir de alguém. Então a gente se juntou.” A motivação, segundo Priscila, vem de uma tragédia pessoal. “Isso nasceu de uma história minha, de 35 anos atrás, quando uma amiga minha foi morta. Naquela época não tinha lei, não tinha nada. O agressor está solto até hoje, nada aconteceu com ele.”

O protesto também carrega nomes e memórias. “Então é por Cláudia, por Rita e por todas essas mulheres que estão tendo suas vidas ceifadas. É para gritar: parem de nos matar.”

A voz de quem sobreviveu

Entre os relatos mais fortes da manifestação está o da recicladora Daniela Santos Filgueira, de 48 anos, que compartilhou sua vivência de violência doméstica. “Eu fui vítima por cerca de quatro anos. Não era literalmente um cárcere privado, mas eu não podia falar com ninguém, não podia andar com ninguém. Sou recicladora, com muito orgulho, mas ele me batia, me violentava de todas as formas possíveis e impossíveis.”

Ela descreveu um dos episódios que marcaram sua decisão de sair de casa. “Quando eu fui embora, ele correu atrás de mim. Eu tenho esse hematoma no dedo porque ele jogou uma panela na minha cabeça para eu não sair de casa. Ele tentou me puxar no meio da rua. Foi uma violência enorme.”

Daniela afirma que transformar a dor em luta é uma forma de seguir. “Eu posso dizer, com sinceridade, que graças a Deus ele morreu, pagou com a própria vida. Mas eu sofri muito. Foi horrível. E, mais do que tudo na vida, liberdade é mulher. Essa manifestação hoje é uma forma de compensar essa dor.”

Ela encerra com um recado direto. “É para fazer com que todo homem tenha consciência de que mulher não é propriedade. Mulher não é objeto. Mulher não é brinquedo, não é um pedaço de pano que se compra para dizer ‘é meu’. Mulher é mulher.”

Festa segue até segunda-feira

Em 2026, a Lavagem de Itapuã homenageia a Ekedi Teresa Alves de Souza, do terreiro Ilê Axé Oyá Demim, de Lauro de Freitas, e o músico, pescador e fundador do Afoxé Korin Nagô, Ulisses dos Santos, de 84 anos.

A programação segue até a segunda-feira, 9, com shows na sexta-feira, 6, e no sábado, 7, às 20h, e no domingo, 8, às 18h, no palco montado na Rua do Tamarineiro. O encerramento será dedicado ao ritual de entrega dos presentes a Iemanjá, encerrando uma festa que, além da fé, abriu espaço para a luta por vidas de mulheres.



Fonte: A Tarde

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