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Após décadas de esvaziamento, Salvador aposta na revitalização do Comércio

Região histórica de Salvador, Comércio passa por revitalização –

Por séculos, o Comércio foi o coração econômico de Salvador. Porta de entrada da cidade e centro das decisões financeiras da Bahia, o bairro vive hoje um dos momentos mais decisivos de sua história recente. Após décadas de esvaziamento, a região começa a dar sinais de que pode entrar em um novo ciclo de requalificação urbana, cultural e logística — sem perder sua memória.

Mas os desafios são imensos. Transformar o Comércio em um bairro vivo, pulsante e ocupado ao longo do dia — e da noite — é um dos principais deles.

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“É preciso romper com a lógica histórica de um território que funcionava apenas no horário comercial e que, por muitos anos, ficou esvaziado à noite”, diz a vice-prefeita e secretária de Cultura e Turismo de Salvador, Ana Paula Matos. Para isso, observa, é necessário atuar de forma integrada, com planejamento urbano, políticas culturais, habitação, mobilidade, segurança e serviços públicos.

A presidente da Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), a arquiteta Tânia Scofield, também destaca o desafio da ocupação noturna. Para ela, implementar um programa no Comércio é muito mais difícil do que em qualquer outro ponto de Salvador.

“No caso específico daqui, é revitalizar mesmo, é dar vida. Porque aqui a vida acaba às 5 horas da tarde. Acabou o expediente, as pessoas vão para casa.”

Para mudar essa realidade, a prefeitura tem buscado alternativas. Entre elas, está a decisão de levar secretarias municipais para a região.

“Esse movimento já provocou impacto imediato no fluxo de pessoas, dinamizando o comércio local, aquecendo os serviços e devolvendo vida às ruas. Onde antes havia prédios vazios, hoje há servidores, cidadãos em busca de serviços e uma cidade em funcionamento”, afirma Ana Paula Matos.

Tânia Scofield dá um exemplo prático de como a presença dos órgãos públicos contribui para dar vitalidade à região.

“É incrível como o fato de ter cerca de 80% dos órgãos da Prefeitura aqui no Comércio fez com que restaurantes e lojas fossem abertos. Eu vejo isso pela minha equipe: quando saem para o almoço, voltam com compras. Tudo isso reativa, de fato, o comércio”.

POLO DE ECONOMIA CRIATIVA

O que também tem contribuído para repovoar a região é a transformação do Comércio em um polo de tecnologia e economia criativa. Impulsionado por projetos de inovação, o bairro passou a atrair startups, empreendedores e profissionais ligados às novas economias, ajudando a ampliar a circulação de pessoas.

Os principais expoentes desse movimento são o Doca 1 – Polo de Economia Criativa e o Hub Salvador, localizados próximos um do outro, na Avenida da França. Inaugurado em 2022, o Doca 1 foi estruturado para ser espaço que integra inovação, cultura e lazer, reunindo ambientes de trabalho, eventos e atividades com vista para a Baía de Todos-os-Santos.

Já o Hub Salvador, instalado em 2018, é considerado um dos centros de inovação do país, oferecendo coworking, auditório e estúdio audiovisual, além de conectar startups, profissionais e empresas em torno do empreendedorismo e de soluções digitais.

“O reconhecimento do Comércio como o primeiro destino criativo da cidade foi um passo importante para fortalecer sua identidade cultural e conectar Salvador a uma rede internacional de territórios que apostam na criatividade, na cultura e na economia urbana como motores de desenvolvimento”, afirma Ana Paula Matos.

Hub Salvador em funcionamento no Porto de Salvador, no Comércio | Foto: Valter Pontes / SECOM-PMS

CONSTRUÇÃO DE MORADIAS

Outro eixo fundamental para revitalizar o Comércio, na avaliação de ambas as gestoras, é a moradia. “Estamos promovendo a requalificação de casarões históricos para transformá-los em habitação para servidores públicos. Isso significa trazer moradores para o Comércio, garantindo ocupação permanente e fortalecendo o sentimento de pertencimento”, explica a secretária de Cultura.

Segundo Tânia Scofield, o município conta com dois programas de restauração de casarões históricos na região. O primeiro prevê o retrofit de imóveis localizados entre a Igreja do Pilar e o prédio da Associação Comercial da Bahia (ACB). Essa área, explica, é formada basicamente por três vias: as ruas do Corpo Santo, Santos Dumont e Portugal. O projeto já está pronto e a expectativa é que, até junho, seja assinado o contrato de financiamento com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para a recuperação dos casarões.

A presidente da Fundação Mário Leal Ferreira explica que a proposta é o reaproveitamento integral de 25 casarões existentes na região, datados dos séculos XVII e XVIII. A ideia é preservar completamente as fachadas — já que muitos desses prédios possuem grande valor histórico e arquitetônico — e realizar intervenções internas por meio de retrofit.

Segundo ela, os projetos já contam com pré-aprovação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o que permite adaptar os espaços internos, em muitos casos bastante deteriorados, para novos usos. “A intenção é que esses imóveis sejam reconfigurados, sobretudo, para fins habitacionais, garantindo a preservação da identidade histórica ao mesmo tempo em que se dá nova vida aos prédios”.

Nos casarões antigos, de até três pavimentos, serão ofertados aos servidores municipais “apartamentos” do tipo estúdio, além de unidades de um, dois e três quartos. Scofield explica o foco nos servidores municipais: “Não tem nada melhor do que trabalhar próximo à sua casa”, argumenta, acrescentando que pesquisas realizadas com o funcionalismo ajudaram a embasar essa percepção.

O outro programa, segundo a gestora, ainda não tem projeto executivo concluído, mas prevê a restauração de 21 casarões antigos, alguns deles completamente abandonados, na área entre o Taboão e o Pilar. “Já realizamos a licitação para contratar o escritório de arquitetura que vai elaborar o projeto”, afirma Scofield. Nesse caso, o público-alvo é diferente. “Esse projeto é exclusivo para pessoas que já moram no Centro Histórico em condições de risco”, explica.

PRESERVAÇÃO DO PATRIMÔNIO

Tânia Scofield observa outro aspecto positivo dos programas: além de ofertar habitação, eles também garantem a preservação do patrimônio histórico da região. “É nessa área onde estão alguns dos prédios mais bonitos dos séculos XVII e XVIII, mas que foram completamente destruídos pela falta de conservação por parte dos proprietários.”

Para viabilizar o uso dos imóveis, a prefeitura já publicou decretos de encampação — ato pelo qual o poder público retoma bens privados por motivo de interesse público, com pagamento de indenização. Em alguns casos, os imóveis serão desapropriados.

Pode parecer contraditório, mas a decadência do Comércio nas últimas décadas foi o que contribuiu para a preservação de seu patrimônio histórico, como pontua o historiador Rafael Dantas.

“É verdade que, a partir dos anos 1970 e 1980, houve o direcionamento do novo núcleo financeiro e político para a região do Iguatemi e da Avenida Paralela, com a construção do Centro Administrativo. Isso, por um lado, representou um declínio da região. Mas, por outro, contribuiu para a preservação do Centro Histórico de Salvador.”

Para ele, se a região do Comércio tivesse permanecido no radar do mercado financeiro, do comércio e do setor imobiliário, certamente muitos exemplares de casarões e estruturas históricas teriam sido perdidos. “De uma forma ou de outra, o movimento de declínio ajudou para que a região se mantivesse como está, preservando suas estruturas antigas”, observa.

INICIATIVA PRIVADA

Mas a revitalização do Comércio não pode depender apenas do poder público, como mostra a trajetória do cineasta e empresário francês Bernard Attal, que chegou a Salvador há mais de 20 anos para morar, atraído por um título de investimento do Porto de Salvador herdado de sua avó. Ele escolheu a capital baiana como casa e decidiu devolver à cidade o Trapiche Barnabé.

Bernard conta que morava no Santo Antônio Além do Carmo e, da janela, conseguia ver o imóvel histórico, que à época estava em ruínas e abrigava um estacionamento. “Eu via o Trapiche Barnabé da janela da minha casa. Era um conjunto de ruínas transformado em estacionamento, tomado pela vegetação.” Decidido, comprou o trapiche e iniciou o processo de restauração.

Ele conta que sua expectativa era concluir a reforma do imóvel em três, quatro anos. No entanto, o processo de restauração do Trapiche Barnabé acabou se estendendo por 15 anos, em razão das especificidades e exigências envolvidas na recuperação de um patrimônio histórico.

Segundo o francês, a tramitação junto a diferentes instâncias, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e a prefeitura, impõe uma série de etapas e controles que tornam o andamento mais lento. Attal avalia, porém, que essa burocracia é compreensível e necessária. “Acho normal, tem que ter alguns controles, mas isso faz com que tudo demore bastante”, afirma.

O Trapiche Barnabé só foi reaberto em julho do ano passado e, desde então, vem recebendo eventos importantes, como a peça “Um Julgamento – Depois do Inimigo do Povo”, que marcou o retorno do ator baiano Wagner Moura aos palcos após 16 anos.

A ideia, segundo Bernard, é que o espaço siga funcionando como um centro multifuncional voltado para arte, cultura, economia criativa e eventos. “O Trapiche tem isso: além de toda a arquitetura do século XVIII, possui vários espaços — muitos ao ar livre e outros fechados, de diferentes tamanhos — o que nos dá a possibilidade de fazer várias coisas.”

OUTROS IMÓVEIS HISTÓRICOS

O Trapiche Barnabé é uma das inaugurações mais recentes, mas integra um conjunto de imóveis históricos recuperados na região — e que passaram a abrigar diferentes usos.

“Hoje, o Comércio já concentra alguns dos principais equipamentos culturais da cidade, como a Casa das Histórias de Salvador, a Galeria Mercado e a Cidade da Música, que têm papel fundamental na reocupação simbólica do bairro”, afirma a vice-prefeita.

Trapiche Barnabé

Trapiche Barnabé | Foto: José Simões/Ag. A TARDE.

Segundo Tânia Scofield, ao longo dos anos a prefeitura implementou uma série de intervenções estruturais e de paisagismo.

“Nós recuperamos praças como a Praça da Inglaterra, a Praça Cayru e a Praça Marechal Deodoro, que as pessoas chamam de Praça da Mãozinha. Recuperamos a Avenida Miguel Calmon”, afirma. Ela cita como exemplo emblemático a Praça Cayru, que passou a se chamar Praça Maria Felipa e foi ampliada para “abraçar a Baía de Todos-os-Santos”.

Ela também destaca as obras voltadas ao patrimônio e à cultura. “Além disso, restauramos o Mercado Modelo, o Elevador Lacerda, fizemos a Cidade da Música, recuperando aquele imóvel lindíssimo chamado Casa dos Azulejos Azuis, que estava em ruínas. Recuperamos também o imóvel ao lado da Casa dos Azulejos Azuis, que hoje abriga a Casa das Histórias. Havia ainda um terreno vazio ao lado, onde construímos o Arquivo Público Municipal”, enumera.

Bernard Attal chama a atenção para uma característica desses projetos de recuperação: a maior parte dos investimentos está concentrada nas áreas próximas à antiga Praça Cayru e ao mar.

“Não há nenhum investimento nessa parte mais interna, anterior ao aterramento do início do século XX. O Comércio original é ali”, afirma Bernard, citando como exemplo o imóvel onde funcionava o Restaurante Colon, que operou por 107 anos na região e foi mencionado na obra de Jorge Amado. “Hoje, o restaurante é uma ruína.” É justamente nessa área do Comércio que a prefeitura planeja promover a reforma dos casarões.

Ele cita outros exemplos de prédios históricos hoje abandonados e localizados em outras áreas do Comércio, como o Edifício da Lâmpada, na Ladeira da Montanha, que pegou fogo no ano passado, e o Instituto do Cacau, que chegou a passar por obras em 2018, mas atualmente se encontra bastante deteriorado.

Attal cita o Instituto do Cacau como um exemplo emblemático do abandono de parte do patrimônio histórico do Comércio. No interior do prédio funcionava o Museu do Cacau, que ele visitou em 2010, durante a produção de um de seus filmes – o documentário sobre o Comércio chamado “O porto das Origens”, lançado em 2024

“Trata-se de um museu de grande relevância, que reúne acervo valioso, profissionais qualificados e uma arquitetura marcante da época de Alexander Buddeus. Apesar disso, o imóvel permanece abandonado desde um incêndio ocorrido há mais de uma década”, diz. Ele lembra que hoje o prédio está sob a responsabilidade da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Bernard cita ainda o Mercado do Ouro como outro exemplo de imóvel que necessita de restauração.

O empresário francês avalia que a revitalização do Comércio não é responsabilidade apenas do poder público, mas também da iniciativa privada. Segundo ele, ainda falta que os empresários de Salvador despertem para o potencial da região, assim como mais incentivos para viabilizar esses investimentos.

“A prefeitura tem o projeto Renova Centro, mas faltam linhas de financiamento”, afirma.

“Não há linhas de financiamento públicas para recuperar esses imóveis. O BNDES não tem. O Banco do Brasil não tem”, completa.

O projeto Renova Centro, ao qual Bernard se refere, é um programa de incentivos fiscais criado pela prefeitura que prevê uma série de benefícios tributários voltados ao setor privado. Entre eles estão a isenção de impostos como ITIV e IPTU em diferentes fases dos empreendimentos, a redução do ISS, a remissão de débitos e a concessão de créditos fiscais que podem ser utilizados para compensar tributos futuros.

Os incentivos são direcionados à recuperação, reforma e ao retrofit de imóveis destinados a usos residencial, comercial ou misto. “Esses incentivos não apenas diminuem o impacto financeiro e tributário dos empreendimentos, como também criam um ambiente jurídico e econômico mais seguro para a atuação de empresas e investidores”, explica Ana Paula Matos.

ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DA BAHIA

Para aproximar o poder público, o setor produtivo e potenciais investidores interessados no bairro, a Associação Comercial da Bahia (ACB) vem se consolidando como um dos atores mais importantes desse processo.

“A ACB não substitui o papel do Estado, mas contribui fomentando oportunidades, estimulando o interesse da iniciativa privada e defendendo a criação de condições estruturais que permitam a recuperação do bairro”, explica a presidente da entidade, Isabela Suarez.

Esse trabalho, acrescenta ela, passa pela escuta ativa dos empresários que já atuam na região e pela defesa de políticas públicas que fortaleçam aqueles que optaram por permanecer no Comércio.

“É preciso devolver o bairro às pessoas, aproximar a população da sua história e criar espaços de convivência, cultura e diálogo. Quando o Comércio volta a ser vivido, especialmente pelas novas gerações, ele deixa de ser apenas um endereço comercial e passa a ser percebido como parte da identidade da cidade”, diz.

Um dos pilares dessa estratégia, pontua Isabela Suarez, é a própria recuperação do Palácio da Associação Comercial. Segundo ela, a proposta é restaurar o edifício e devolvê-lo à sociedade baiana como um grande centro de interpretação do Comércio, valorizando sua história e sua importância para a formação econômica da Bahia.

“Além de preservar o patrimônio, o Palácio passa a cumprir um papel ativo na reativação do bairro, funcionando como um equipamento indutor de novos fluxos e de atividades culturais, institucionais e econômicas, contribuindo para a reconstrução da dinâmica urbana do Comércio”, afirma.

Ela lembrou que a saída de grandes instituições contribuiu de forma significativa para o esvaziamento da região. “Mas é importante salientar que, antes de tudo, a questão da segurança pública precisa ser repensada. Sem um ambiente seguro, as pessoas não permanecem, os serviços não se estendem e novas atividades não se consolidam.”

SETOR IMOBILIÁRIO

A Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário da Bahia (Ademi-BA) também tem exercido o papel de articular o poder público e o setor privado para levar novos empreendimentos à região. No entanto, como pontua o presidente da entidade, Cláudio Cunha, o caminho ainda é cheio de desafios.

“O mercado imobiliário, inclusive em reuniões recentes com o município e com o Estado, tem apresentado suas demandas e preocupações”, relata o empresário. Ele lembra que, para transformar imóveis em moradias passíveis de financiamento, é preciso, antes de tudo, verificar a situação legal e fundiária dos terrenos.

“Ali há o Iphan e a SPU (Superintendência do Patrimônio da União). Tudo isso precisa ser analisado, porque se trata de uma área de aterro”, explica.

Apesar dessas questões, Cláudio acredita que o Comércio reúne atributos sólidos para também se consolidar como um bairro residencial. “A vista para a Baía de Todos-os-Santos, o valor histórico da região e o conjunto arquitetônico que remete ao início da formação da cidade, com edificações de inspiração europeia, tornam o bairro especialmente atrativo”, avalia.

O presidente da Ademi-BA destaca ainda a infraestrutura existente e em expansão como um fator decisivo para atrair o mercado imobiliário, citando a proximidade com o Centro Náutico, o Mercado Modelo, os sistemas de transporte público, os planos inclinados, o Elevador Lacerda e a chegada do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) à região.

Mas, lembra ele, como não há espaço para novas construções — já que todo o território é tombado —, o caminho passa necessariamente pela ocupação dos imóveis existentes, com intervenções de retrofit que preservem o valor histórico e adaptem os prédios às novas formas de morar. Ele acredita que isso vai acontecer, ainda que demore algum tempo. “Acredito que aqui será como em outros lugares do mundo, onde os centros históricos se tornam as áreas mais valorizadas das cidades”.



Fonte: A Tarde

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