No interior de Minas Gerais, Coronel Xavier Chaves abriga o alambique mais antigo do Brasil ainda em funcionamento. Um engenho erguido em 1755 produz cachaça há mais de 250 anos sem jamais interromper o fogo, a moagem ou a tradição. A poucos quilômetros de Tiradentes e São João del-Rei, o município mineiro de menos de 4 mil habitantes mantém construções do século XVIII e guarda parte da história brasileira.
O engenho Boa Vista pertence à família de Tiradentes. A propriedade foi do padre Domingos da Silva Xavier, irmão mais velho de Joaquim José da Silva Xavier, o mártir da Inconfidência Mineira. O padre foi enviado para Lisboa, em Portugal, durante o movimento, e o alambique acabou herdado pela irmã caçula do herói nacional, Antônia Rita de Jesus Xavier. Desde então, a história corre de geração em geração e o nome do município é uma homenagem ao coronel, bisneto de Antônia.
Nona geração da família de Tiradentes mantém o alambique mais antigo do Brasil
Hoje, quem recebe os visitantes no engenho são os irmãos João e Francisco Chaves, nona geração à frente do alambique. O fluxo anual no engenho passa de 4 mil visitantes. Eles conduzem o passeio com calma, orgulho e bom humor. A visita termina com a degustação de petiscos preparados no fogão a lenha, ao lado da pequena boutique, onde repousam as garrafas da célebre cachaça Século XVIII. Cristalina, branca e direta, “sem vergonha de ser cachaça”, como define a família.
“A gente faz cachaça para beber, se sobrar a gente vende” – esse é o lema dos dois irmãos. A Século XVIII não passa por madeira. Nunca passou. Antes, era conservada em grandes tanques de pedra. Hoje, por exigência da legislação e orientação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), repousa em inox. O objetivo é o mesmo de sempre: preservar a pureza, sem interferência de sabor.
O envelhecimento acontece na garrafa. E não é força de expressão. O visitante pode comprar exemplares engarrafados há 20 anos. A produção anual gira em torno de 30 mil litros, feita exclusivamente com cana orgânica cultivada na própria fazenda. A venda é restrita: apenas no engenho e na Pousada Sobrado, próximo à praça central da cidade. À frente do negócio familiar está Rubens Chaves, hoje com 92 anos.

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Para produzir 80 litros de cachaça (uma destilação), são usados aproximadamente 1,2 tonelada de cana. É uma espera de um ano e meio para a colheita, no canavial da família. Depois do corte e da moagem, é preparada a fermentação da garapa, um processo que dura 24 horas.
No alambique, é usado fermento feito com milho crioulo, variedade tradicional. Então, vem a destilação — preparo em que o líquido fica por cinco horas, em altas temperaturas, com fogo direto em alambique de cobre. Só depois disso é que a cachaça vai para uma dorna de armazenamento, onde fica por seis meses antes de ser comercializada.
Além da Século XVIII, o engenho Boa Vista produz a cachaça Santo Grau em parceria com a Osborne. Por meio da multinacional da Espanha, a Santo Grau é vendida para todo o Brasil, em grandes redes de supermercados e distribuída em outros 17 países.
Para quem decide ficar mais tempo, a experiência continua na Pousada Sobrado. Um casarão de 1902, restaurado com extremo cuidado. São apenas seis quartos. Cada detalhe preservado. Até a roupa de cama, bordada pela avó da família, faz parte da história. Por isso, as reservas são seletivas. Recebem conhecidos, indicados e curiosos respeitosos.
Como bons mineiros, nada ali é feito com pressa. Nem a cachaça, nem a casa, nem o tempo.

Fonte: Gazeta do Povo